Comunismo
Ideia, movimento político e projeto de sociedade
Termo de origem francesa do século XVIII que designa, conforme o autor e a época, uma sociedade sem propriedade privada dos meios de produção, sem classes e sem Estado; o movimento político que a reivindica; e, desde 1918, o nome de uma família de partidos.
Também: communisme · Kommunismus · коммунизм (kommunizm)
Índice e ficha
- Período
- século XVIII–presente
- Área
- Socialismo e comunismo
- Regiões
- Internacional
- Temas
- Teoria e conceitos, Economia e organização social, Estado, poder e democracia, Partido e organização
Comunismo é uma palavra com pelo menos três sentidos que convém separar desde o início. Em primeiro lugar, designa um projeto de sociedade: uma ordem social baseada na propriedade comum dos meios de produção, sem divisão em classes e, na maior parte das formulações modernas, sem Estado. Em segundo lugar, designa um movimento político, as organizações, partidos e militantes que se propõem a chegar a essa sociedade. Em terceiro lugar, a partir de 1918, tornou-se o nome próprio de uma família de partidos ligados, em sua origem, à Internacional Comunista.
O termo é anterior a Marx e Engels, que o herdaram de grupos operários e de escritores franceses e alemães da primeira metade do século XIX. Foi com o Manifesto do Partido Comunista (1848), porém, que a palavra passou a ser associada principalmente ao marxismo 1. Ao longo dos séculos XX e XXI, "comunismo" foi também usado por adversários como rótulo genérico para regimes, partidos e ideias muito diferentes entre si, o que exige atenção ao contexto de cada uso.
Este verbete apresenta a história do termo, as formulações de Marx e Engels, as diferenças entre "socialismo" e "comunismo" em diversas tradições, o uso da palavra como nome de partido, a relação entre a ideia e os Estados do século XX que se declararam socialistas, os usos no debate público e alguns debates contemporâneos. Ele não faz balanço das experiências de governo, tratadas em verbetes próprios como União Soviética, China (República Popular da China), Cuba (1959–presente) e Vietnã.
Definição mínima e ressalvas
Não existe definição de comunismo aceita por todas as correntes que usam a palavra. Um núcleo comum às formulações modernas pode ser descrito assim: propriedade coletiva ou social dos meios de produção, fim da exploração do trabalho assalariado e superação das classes sociais. A partir daí, as tradições divergem sobre quase tudo o mais: se o Estado deve ser usado e por quanto tempo; se a transição é gradual ou revolucionária; se a distribuição deve seguir o trabalho ou as necessidades; qual o papel do partido, do sindicato, dos conselhos e das comunas; se a nova sociedade é possível num só país.
Também é preciso separar o comunismo como ideia ou horizonte, o comunismo como movimento e os Estados governados por partidos comunistas. Nenhum desses Estados declarou ter alcançado a sociedade comunista: eles se definiam como Estados socialistas ou em construção do socialismo (ver adiante). Por isso, a enciclopédia evita chamar países inteiros de "comunistas" e prefere indicar o Estado histórico, o partido governante, a ideologia declarada e o período.
Antes de Marx: a palavra e seus antecedentes
A palavra vem do francês communisme, formada a partir do latim communis ("comum"). As ocorrências mais antigas conhecidas estão na França do final do século XVIII: por volta de 1785, Victor d'Hupay apresentou-se como "auteur communiste" numa carta a Nicolas Restif de la Bretonne, e Restif empregou communisme em 1793 para designar uma ordem social igualitária baseada na propriedade comum 1. Na Inglaterra, o primeiro uso de "communism" é atribuído a John Goodwyn Barmby, por volta de 1840 1.
Antecedentes discutidos: Platão, More e comunidades religiosas
Muitos autores procuram antecedentes muito anteriores à palavra. A República de Platão descreve uma classe de guardiões sem propriedade privada e com vida em comum; por isso ele já foi tratado como um teórico do comunismo, leitura que outros consideram anacrônica, porque o arranjo platônico vale só para a elite governante de uma cidade hierárquica 1. A Utopia de Thomas More (1516) descreve uma ilha imaginária sem propriedade privada 1 2. Comunidades religiosas, dos relatos sobre os primeiros cristãos nos Atos dos Apóstolos a ordens monásticas e seitas da Reforma radical, praticaram formas de bens em comum.
A relação entre esses exemplos e o comunismo moderno é objeto de debate: para uma linha de leitura, trata-se de uma longa tradição igualitária; para outra, o comunismo moderno é inseparável da sociedade industrial e do movimento operário, e as comparações com Platão ou com mosteiros dizem mais sobre quem as faz do que sobre os textos antigos. Marx e Engels, no capítulo III do Manifesto, já distinguiam seu projeto do que chamavam de socialismo e comunismo "crítico-utópicos" 3.
Babeuf e a Conspiração dos Iguais
Durante a Revolução Francesa, François-Noël (Gracchus) Babeuf liderou em 1796 a chamada Conspiração dos Iguais, plano de insurreição contra o Diretório que pretendia abolir a propriedade privada e impor a igualdade econômica; o Manifesto dos Iguais foi redigido por Sylvain Maréchal. A conspiração foi denunciada por um informante, centenas de mandados de prisão foram expedidos e Babeuf foi condenado à morte e executado em maio de 1797 4. O livro de Filippo (Philippe) Buonarroti, Conspiration pour l'égalité dite de Babeuf (1828), manteve viva a memória do episódio e influenciou as sociedades secretas republicanas e operárias da década de 1830 4.
Marx e Engels viram na conspiração "a primeira aparição de um partido comunista verdadeiramente ativo", frase citada em fontes de referência e que deve ser conferida no original antes de ser reproduzida como citação 4. Historiadores divergem sobre o quanto o babouvismo era propriamente "comunista" no sentido posterior: alguns o leem como radicalização do igualitarismo jacobino, outros como precursor direto do comunismo revolucionário.
Cabet, Weitling, Dézamy e o comunismo dos anos 1840
Na década de 1840, "comunista" designava sobretudo correntes operárias que exigiam uma transformação total da sociedade, em contraste com "socialista", palavra então associada a reformadores de classe média como os seguidores de Owen e Fourier 1. Entre os nomes mais citados:
- Étienne Cabet (França), autor do romance Voyage en Icarie (1840), que descrevia uma sociedade comunista pacífica; seus seguidores, os icarianos, fundaram colônias nos Estados Unidos 5.
- Théodore Dézamy (França), autor de Code de la communauté (1842), que defendia a passagem imediata ao comunismo, sem etapa de transição, e a quem fontes de referência atribuem uma das primeiras formulações do princípio "de cada um segundo sua capacidade, a cada um segundo suas necessidades" 6.
- Wilhelm Weitling (Alemanha), alfaiate e organizador da Liga dos Justos, autor de Garantien der Harmonie und Freiheit (1842), representante de um comunismo artesão de tom religioso 1.
A Liga dos Justos se reorganizou em 1847 como Liga dos Comunistas, e foi no seu II Congresso (Londres, 1847) que Marx e Engels receberam a tarefa de redigir o programa que viria a ser o Manifesto 3.
Comunismo em Marx e Engels
Marx e Engels não deixaram um tratado sobre a sociedade comunista; deixaram observações dispersas e, sobretudo, uma crítica do capitalismo. Duas fontes são centrais.
O Manifesto (1848) e a escolha da palavra
O Manifesto do Partido Comunista, escrito entre dezembro de 1847 e janeiro de 1848 e publicado em Londres em fevereiro de 1848 3, resume a posição dos comunistas numa fórmula: a abolição da propriedade privada burguesa, não da propriedade em geral, como resultado da luta de classes conduzida pelo proletariado. No capítulo II, o texto afirma que os comunistas não formam um partido separado oposto aos outros partidos operários, mas a fração mais decidida deles, que representa os interesses do movimento em seu conjunto.
No prefácio à edição inglesa de 1888, Engels explicou por que o texto não se chamou "manifesto socialista": em 1847, "o socialismo era um movimento da classe média, e o comunismo um movimento da classe operária"; o socialismo era "respeitável" no continente, o comunismo não 7. A escolha, portanto, foi também uma tomada de posição de classe.
A "Crítica do Programa de Gotha" (1875) e as duas fases
Nas glosas marginais ao programa de unificação da social-democracia alemã, publicadas por Engels em 1891 e conhecidas como Crítica do Programa de Gotha, Marx distinguiu duas fases da sociedade comunista 8:
- Primeira fase: a sociedade comunista "tal como acaba de sair" da sociedade capitalista, ainda marcada, em todos os aspectos, pelos "sinais de nascença" da velha sociedade. Os meios de produção são comuns, mas cada produtor recebe da sociedade, em produtos, o equivalente ao trabalho que deu, descontadas as deduções para fundos sociais. Esse "direito igual" ainda é, diz Marx, um direito burguês 8.
- Fase superior: quando tiver desaparecido a subordinação dos indivíduos à divisão do trabalho e a oposição entre trabalho intelectual e manual, quando o trabalho tiver se tornado a primeira necessidade vital e as forças produtivas tiverem crescido, a sociedade poderá inscrever em sua bandeira: "De cada um segundo suas capacidades, a cada um segundo suas necessidades!" 8.
No mesmo texto, Marx fala de um período de transformação revolucionária entre a sociedade capitalista e a comunista, ao qual corresponderia um período político de transição cujo Estado "não pode ser senão a ditadura revolucionária do proletariado", expressão cuja interpretação é um dos grandes pontos de divergência entre as correntes posteriores (ver Marxismo-leninismo e Rosa Luxemburgo).
Comunismo como movimento e como sociedade futura
Em A ideologia alemã (1845–1846, manuscrito publicado integralmente só no século XX), Marx e Engels escreveram que o comunismo não é "um estado de coisas que deve ser estabelecido", um "ideal" ao qual a realidade deveria se ajustar, mas "o movimento real que supera o estado de coisas atual" 9. A passagem é muito citada para sustentar que, em Marx, "comunismo" designa ao mesmo tempo um processo histórico em curso e uma sociedade futura.
Os intérpretes divergem sobre o peso de cada sentido. Leituras mais deterministas, comuns na Segunda Internacional e na ortodoxia soviética, enfatizaram a sucessão necessária de etapas históricas (ver Materialismo histórico). Leituras humanistas e críticas, a partir dos anos 1920 e sobretudo depois da publicação dos Manuscritos econômico-filosóficos (1932), enfatizaram a superação da alienação e a autoemancipação dos trabalhadores. Balanços gerais dessa história de interpretações divergem muito: o historiador marxista Eric Hobsbawm a narrou como história da recepção e das transformações do pensamento de Marx 10; o filósofo Leszek Kołakowski, que rompeu com o marxismo, sustentou que a aspiração a uma sociedade de unidade perfeita, sem conflitos, ajudava a explicar a deriva autoritária das experiências que se reivindicaram dele 11. São interpretações, não consenso, e ambas as obras devem ser conferidas antes da revisão final.
A Comuna de Paris como referência
A Comuna de Paris (1871) tornou-se, para Marx (em A guerra civil na França) e depois para Engels e Lenin, o exemplo histórico de uma forma política de transição: representantes eleitos e revogáveis, salários de funcionários equiparados aos de operários, substituição do exército permanente pelo povo armado. Anarquistas também reivindicaram a Comuna, em leitura distinta, como exemplo de autogoverno local contra o Estado. A disputa sobre o significado da Comuna atravessa todo o debate posterior sobre Estado e transição.
"Comunista" como nome de partido (desde 1918)
Depois da Revolução de Outubro, os bolcheviques decidiram, em março de 1918, mudar o nome do Partido Operário Social-Democrata Russo (bolchevique) para Partido Comunista da Rússia (bolchevique). A mudança tinha um sentido programático: marcar a ruptura com os partidos social-democratas que haviam apoiado seus governos na Primeira Guerra Mundial e retomar a palavra do Manifesto 1.
Em março de 1919 foi fundada em Moscou a Internacional Comunista (Comintern, ou Terceira Internacional). No seu II Congresso, em julho–agosto de 1920, ela aprovou as condições de admissão conhecidas como 21 condições. Lenin redigiu as dezenove primeiras; as duas últimas foram elaboradas numa comissão durante o congresso 14. Entre elas estavam a organização segundo o princípio do centralismo democrático, a combinação de trabalho legal e ilegal, a depuração de "reformistas" e "centristas", a obrigação de cumprir as decisões da Internacional e de adotar o nome "Partido Comunista de [país] (Seção da Internacional Comunista)" 15 14. A exigência do nome era, segundo o próprio Comintern, uma questão política e não uma formalidade 14.
As 21 condições provocaram cisões em muitos partidos socialistas, na Alemanha, na França (congresso de Tours, 1920), na Itália (Livorno, 1921), e deram origem a partidos comunistas separados dos socialistas. No Brasil, o Partido Comunista do Brasil foi fundado em 1922 e buscou filiação à Internacional (ver Partido Comunista Brasileiro (PCB) e Comunismo no Brasil). O nome "comunista" passou, assim, a designar uma família de partidos com origem comum, mesmo depois que muitos deles se afastaram de Moscou, se dividiram ou mudaram de orientação.
Comunismo, democracia e ditadura do proletariado: um debate interno
A Revolução de Outubro abriu uma polêmica que dividiu os marxistas até hoje: como deve ser o poder político na transição? O ponto de partida comum era a fórmula de Marx sobre a "ditadura revolucionária do proletariado" 8, mas a palavra "ditadura" tinha, no século XIX, um sentido próximo de "dominação de classe", e não necessariamente de governo sem liberdades. As respostas divergiram:
- Karl Kautsky, principal teórico da social-democracia alemã, criticou os bolcheviques em A ditadura do proletariado (1918), sustentando que o socialismo era inseparável da democracia parlamentar e do sufrágio universal. Lenin respondeu no mesmo ano com A revolução proletária e o renegado Kautsky, defendendo os sovietes como forma superior de democracia para os trabalhadores e a repressão às classes derrubadas. As datas e títulos devem ser conferidos nas edições primárias antes da revisão.
- Rosa Luxemburgo, que apoiava a revolução, criticou em 1918 a dissolução da Assembleia Constituinte e a supressão das liberdades de imprensa e de associação, defendendo que a ditadura do proletariado fosse "ditadura da classe" com a mais ampla democracia, e não de um partido 16. Ver Rosa Luxemburgo.
- Os bolcheviques sustentavam que, em meio à guerra civil e à intervenção estrangeira, as liberdades formais beneficiariam a contrarrevolução. A proibição dos demais partidos e, em 1921, das frações dentro do próprio partido consolidou o modelo de partido único que seria adotado pelos Estados socialistas posteriores.
- Anarquistas viram na experiência a confirmação de que o Estado de transição se perpetua.
- Eurocomunistas, nos anos 1970, retiraram a expressão "ditadura do proletariado" de seus programas e defenderam o pluralismo político como parte do projeto comunista.
Essa discussão não é apenas histórica: a relação entre comunismo, liberdades políticas e pluralismo continua a separar correntes que se reivindicam comunistas.
O comunismo fora da Europa: anticolonialismo e revoluções camponesas
O Manifesto de 1848 foi escrito pensando nos países industriais da Europa ocidental. No século XX, porém, os movimentos comunistas cresceram sobretudo em sociedades agrárias e coloniais. Três fatores ajudam a explicar essa mudança. Primeiro, a teoria do imperialismo de Lenin (1917) associou a luta socialista à luta dos povos coloniais. Segundo, a Internacional Comunista, a partir do seu II Congresso (1920), discutiu a "questão nacional e colonial" e a aliança com movimentos de libertação. Terceiro, as revoluções vitoriosas fora da Rússia, na China (1949), no Vietnã e em Cuba, tiveram base camponesa e anticolonial ou anti-imperialista.
Daí surgiram reformulações importantes: Mao Zedong deu ao campesinato papel central na revolução; José Carlos Mariátegui, nos Sete ensaios de interpretação da realidade peruana (1928), procurou relacionar o socialismo às tradições comunitárias indígenas andinas; na África, dirigentes como Amílcar Cabral e, mais tarde, Thomas Sankara dialogaram com o marxismo a partir das lutas anticoloniais e da questão camponesa, nem sempre adotando o rótulo "comunista". Na América Latina, a Revolução Cubana e figuras como Che Guevara, que discutiu a formação de um "homem novo" em O socialismo e o homem em Cuba, tornaram-se referências para uma geração.
Essas experiências reabriram um debate antigo: se o comunismo exige um capitalismo desenvolvido como base material (como sugeria a leitura mais difundida de Marx) ou se países periféricos podem saltar etapas. Correntes diferentes deram respostas diferentes, ver Trotskismo (revolução permanente) e Marxismo-leninismo (revolução por etapas). Muitos dirigentes de movimentos de libertação nacional foram também classificados como "comunistas" por seus adversários sem que se declarassem como tal; a enciclopédia registra, em cada verbete, a autoidentificação de cada pessoa ou organização.
Usos no debate público e no anticomunismo
Desde 1917, "comunismo" é também um termo de combate. O anticomunismo reuniu correntes muito diferentes, conservadoras, liberais, católicas, fascistas, social-democratas, que tinham em comum a oposição aos partidos comunistas e à União Soviética. Em seu nome se justificaram tanto críticas fundamentadas às ditaduras de partido único quanto perseguições, golpes de Estado e massacres (ver Massacres na Indonésia (1965–1966) e, no Brasil, a repressão posterior ao Levante comunista de 1935).
Três usos merecem distinção:
- Uso descritivo: o partido, o movimento ou a teoria que se declara comunista.
- Uso historiográfico: "regimes comunistas" como categoria comparativa, empregada por parte dos historiadores para os Estados de partido único governados por partidos comunistas. A categoria é discutida: outros autores preferem analisar cada experiência em seu contexto, sem supor uma essência comum. O caso mais conhecido de controvérsia é O livro negro do comunismo (1997), cuja introdução, assinada por Stéphane Courtois, recebeu objeções públicas de dois coautores do próprio livro, Nicolas Werth e Jean-Louis Margolin, sobre a comparação com o nazismo e a soma de estimativas de mortes de contextos distintos 18.
- Uso polêmico: "comunista" como rótulo aplicado a adversários que não se declaram comunistas, políticos social-democratas, liberais progressistas, movimentos sociais, sindicatos. Esse uso, frequente na Guerra Fria e retomado em vários países no século XXI, diz respeito ao debate político e não à classificação histórica.
Esta enciclopédia não usa "comunista" como adjetivo genérico de condenação ou exaltação; usa o termo para quem se declara comunista ou para organizações que o adotam no nome ou no programa.
Debates contemporâneos
Depois da dissolução da União Soviética (1991), o termo perdeu centralidade na política eleitoral europeia, mas voltou a ser discutido na filosofia política. Em março de 2009, o Birkbeck Institute for the Humanities, em Londres, realizou a conferência "On the Idea of Communism", cujos termos foram dados pelo ensaio de Alain Badiou sobre a "hipótese comunista"; participaram, entre outros, Slavoj Žižek, Michael Hardt, Antonio Negri e Jacques Rancière 19. As intervenções foram reunidas no volume The Idea of Communism, organizado por Costas Douzinas e Žižek 20.
Para Badiou, o comunismo é sobretudo uma "Ideia" ou hipótese reguladora, separada das formas partido-Estado do século XX 19 21. A cientista política Jodi Dean, em The Communist Horizon (2012), defende, em contraste, a retomada do partido como forma de organização 22. No campo da divulgação, o jornalista britânico Aaron Bastani propôs em Fully Automated Luxury Communism (2019) um "comunismo de luxo" baseado na automação e na abundância tecnológica 23.
Essas discussões tiveram repercussão sobretudo acadêmica e editorial; não correspondem a movimentos de massa nem substituem os debates programáticos dos partidos comunistas existentes, que em geral seguem tradições mais antigas (marxismo-leninismo, maoismo, trotskismo e outras). Também há quem critique o "retorno" filosófico ao comunismo por tratar a palavra de forma abstrata, desligada de organização e de balanço histórico.
Quadro comparativo: o que cada tradição chama de comunismo
| Tradição | Comunismo é… | Transição | Estado | Referências | |---|---|---|---|---| | Comunismo pré-marxista (1790–1840) | comunidade de bens e igualdade | insurreição (Babeuf) ou exemplo e colônias (Cabet) | variável | Babeuf, Cabet, Dézamy, Weitling | | Marx e Engels | movimento real e sociedade sem classes | revolução proletária; duas fases | Estado de transição, depois extinção | Manifesto; Crítica do Programa de Gotha | | Social-democracia (pós-1900) | meta distante, depois abandonada por muitos partidos | reformas graduais | uso das instituições existentes | Bernstein; programas do SPD | | Leninismo / marxismo-leninismo | fase superior, posterior ao socialismo | revolução dirigida por partido de vanguarda | ditadura do proletariado | O Estado e a Revolução; ver Marxismo-leninismo | | Trotskismo | idem, com ênfase internacional | revolução permanente | Estado operário sem burocracia | ver Trotskismo | | Anarcocomunismo | distribuição segundo necessidades desde já | revolução social sem Estado | abolição imediata | Kropotkin, Malatesta | | Debate filosófico recente | Ideia, hipótese ou horizonte | aberta | discutido | Badiou, Žižek, Dean |
O quadro simplifica: dentro de cada tradição houve divergências relevantes.
Símbolos e vocabulário
O movimento comunista herdou e criou um repertório simbólico próprio. A bandeira vermelha, usada por revolucionários franceses no século XIX e pela Comuna de Paris, tornou-se emblema do movimento operário em geral, antes de ser associada especificamente aos comunistas. O hino A Internacional, com letra escrita por Eugène Pottier em 1871, depois da derrota da Comuna, e música composta por Pierre De Geyter em 1888, foi cantado por socialistas, comunistas e anarquistas; foi o hino da Rússia soviética e depois da URSS até 1944 e continua a ser o canto oficial de muitos partidos. A foice e o martelo, símbolo da aliança entre camponeses e operários, foi adotada pela Rússia soviética a partir de 1918 e difundiu-se com os partidos da Internacional Comunista.
O tratamento de "camarada" (do francês camarade, do espanhol camarada), comum a socialistas e comunistas, e o Primeiro de Maio, jornada internacional dos trabalhadores instituída pela Segunda Internacional em 1889 em memória das lutas de Chicago de 1886, são patrimônio comum de várias correntes e não exclusivos do comunismo. Datas e detalhes desta seção devem ser conferidos em fonte especializada antes da publicação.
No Brasil
No Brasil, "comunismo" chegou com imigrantes e com a imprensa operária no início do século XX, quando o movimento operário era majoritariamente anarquista e anarcossindicalista. A fundação do Partido Comunista do Brasil em 1922 deu ao termo um portador organizado. Para a história dos partidos e da repressão anticomunista no país, ver Comunismo no Brasil, Partido Comunista Brasileiro (PCB), Luís Carlos Prestes, Olga Benario, Levante comunista de 1935 e Partido Comunista Revolucionário (PCR).
Citações
Cada citação traz o grau de confirmação: frase famosa sem fonte localizada não é tratada como autêntica.
- Tradução de texto localizado
“De cada um segundo suas capacidades, a cada um segundo suas necessidades!”
Jeder nach seinen Fähigkeiten, jedem nach seinen Bedürfnissen!
Karl Marx, Crítica do Programa de Gotha (1875), sobre a fase superior da sociedade comunista. A fórmula já circulava antes de Marx (Dézamy, Louis Blanc).
- Tradução de texto localizado
“Em 1847, o socialismo era um movimento da classe média, e o comunismo um movimento da classe operária.”
Friedrich Engels, prefácio à edição inglesa do Manifesto (1888), explicando a escolha do título.
Fonte: Prefácios ao Manifesto do Partido Comunista (inclui o prefácio à edição inglesa de 1888)
- Tradução de texto localizado
“O que habitualmente se chama socialismo, Marx chamou de "primeira" fase, ou fase inferior, da sociedade comunista.”
Lenin, O Estado e a Revolução (1917), cap. 5. Tradução livre a partir da versão inglesa do MIA; conferir com edição em português antes da publicação.
Fonte: The State and Revolution, cap. 5: The Economic Basis of the Withering Away of the State
Bibliografia comentada
Karl Marx. Critique of the Gotha Programme, parte I (1875)
Texto curto e decisivo de Marx sobre as duas fases da sociedade comunista e a transição; leitura obrigatória para entender os debates do século XX.
V. I. Lenin. The State and Revolution, cap. 5: The Economic Basis of the Withering Away of the State (1917)
Lenin retoma Marx e fixa a distinção entre socialismo e comunismo adotada pelo movimento comunista.
Eric Hobsbawm. Como mudar o mundo: Marx e o marxismo, 1840–2011 (2011)
Ensaios de um historiador marxista sobre a história da recepção de Marx e do marxismo; visão de conjunto.
Leszek Kołakowski. Main Currents of Marxism (3 vols.) (1976–1978)
História crítica do marxismo escrita por um filósofo que rompeu com ele; útil como contraponto.
Piotr Kropotkin. La Conquête du pain (1892)
Formulação clássica do anarcocomunismo, crítica da ideia de Estado de transição.
Matthew Charles. 'On the Idea of Communism', Birkbeck Institute for the Humanities, London, 13–15 March 2009 (relato de conferência) (2009)
Relato da conferência de 2009 que marcou o debate filosófico recente sobre a 'ideia' de comunismo.
Fontes
“Consultada” indica que o endereço foi aberto na data informada. “Referência bibliográfica” indica obra citada sem conferência de página nesta versão.
- 1Communism (verbete). Wikipedia, em inglês.[Obra de referência · consultada em 19 de outubro de 2026]Usada como orientação para etimologia e cronologia do termo; conferir nas fontes citadas pelo verbete.
- 2Thomas More. Utopia. 1516.[Fonte primária · referência bibliográfica]
- 3Karl Marx e Friedrich Engels. Manifesto do Partido Comunista (índice da edição em português). Arquivo Marxista na Internet (tradução de José Barata-Moura, Editorial Avante!, 1997), 1848.[Fonte primária · consultada em 19 de outubro de 2026]
- 4Conspiracy of the Equals (verbete). Wikipedia, em inglês.[Obra de referência · consultada em 19 de outubro de 2026]
- 5Étienne Cabet. Voyage en Icarie. 1840.[Fonte primária · referência bibliográfica]
- 6Anarcho-communism (verbete). Wikipedia, em inglês.[Obra de referência · consultada em 19 de outubro de 2026]
- 7Karl Marx e Friedrich Engels. Prefácios ao Manifesto do Partido Comunista (inclui o prefácio à edição inglesa de 1888). Arquivo Marxista na Internet.[Fonte primária · consultada em 19 de outubro de 2026]
- 8Karl Marx. Critique of the Gotha Programme, parte I. Marxists Internet Archive, 1875.[Fonte primária · consultada em 19 de outubro de 2026]Glosas escritas em 1875 e publicadas por Engels em 1891.
- 9Karl Marx e Friedrich Engels. A ideologia alemã. 1845–1846.[Fonte primária · referência bibliográfica]Manuscrito; passagem sobre o comunismo como 'movimento real' na parte sobre Feuerbach. Página não conferida.
- 10Eric Hobsbawm. Como mudar o mundo: Marx e o marxismo, 1840–2011. 2011.[Historiografia · referência bibliográfica]Obra não consultada nesta redação; usada como referência geral sobre a história do marxismo.
- 11Leszek Kołakowski. Main Currents of Marxism (3 vols.). 1976–1978.[Historiografia · referência bibliográfica]Obra não consultada nesta redação; interpretação crítica do marxismo.
- 12V. I. Lenin. The State and Revolution, cap. 5: The Economic Basis of the Withering Away of the State. Marxists Internet Archive (Collected Works, vol. 25), 1917.[Fonte primária · consultada em 19 de outubro de 2026]
- 13Piotr Kropotkin. La Conquête du pain. Paris, 1892.[Fonte primária · referência bibliográfica]
- 14John Riddell. The Comintern's Twenty-One Conditions (1920). johnriddell.com, 2022.[Historiografia · consultada em 19 de outubro de 2026]
- 15V. I. Lenin. Terms of Admission into Communist International. Marxists Internet Archive (Collected Works, vol. 31), 1920.[Fonte primária · consultada em 19 de outubro de 2026]Projeto de Lenin com 19 condições (nome do partido na 18ª, centralismo democrático na 13ª); o texto aprovado tem 21, com outra numeração.
- 16Rosa Luxemburgo. The Russian Revolution, cap. 6: The Problem of Dictatorship. Marxists Internet Archive, 1918.[Fonte primária · consultada em 19 de outubro de 2026]
- 17A Study on the North Korea's Socialist Constitution. Korea Legislation Research Institute (KLRI), 2019.[Obra de referência · consultada em 19 de outubro de 2026]
- 18Stéphane Courtois et al.. Le Livre noir du communisme. Robert Laffont, Paris, 1997.[Historiografia · referência bibliográfica]A controvérsia entre Courtois e os coautores Werth e Margolin foi noticiada na imprensa francesa em 1997; localizar a fonte de imprensa antes da revisão.
- 19Matthew Charles. 'On the Idea of Communism', Birkbeck Institute for the Humanities, London, 13–15 March 2009 (relato de conferência). Radical Philosophy, n. 155, 2009.[Historiografia · consultada em 19 de outubro de 2026]
- 20Costas Douzinas e Slavoj Žižek (orgs.). The Idea of Communism. Verso, Londres, 2010.[Fonte primária · referência bibliográfica]
- 21Alain Badiou. L'Hypothèse communiste. 2009.[Fonte primária · referência bibliográfica]
- 22Jodi Dean. The Communist Horizon. Verso, 2012.[Fonte primária · referência bibliográfica]
- 23Aaron Bastani. Fully Automated Luxury Communism. Verso, 2019.[Fonte primária · referência bibliográfica]
Rede de relações
Ligações documentadas com tipo, período e fonte. Verbetes ainda planejados aparecem tracejados e sem link.
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- Friedrich EngelsPessoa
- Manifesto do Partido ComunistaObraFonte: Manifesto do Partido Comunista (índice da edição em português)
- Crítica do Programa de GothaObraFonte: Critique of the Gotha Programme, parte I
- Materialismo históricoConceito
- Vladimir LeninPessoaFonte: The State and Revolution, cap. 5: The Economic Basis of the Withering Away of the State
- Gracchus Babeuf (verbete planejado)PessoaFonte: Conspiracy of the Equals (verbete)
- Piotr Kropotkin (verbete planejado)PessoaFonte: Anarcho-communism (verbete)
- Internacional Comunista (Comintern) (verbete planejado)OrganizaçãoFonte: The Comintern's Twenty-One Conditions (1920)
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- Redação UP, rascunho assistido por IA
- Criado em
- 19 de outubro de 2026
- Atualizado em
- 19 de outubro de 2026
- Extensão
- 4.046 palavras · 23 fontes
- Revisão humana
- Tiago Moura Cesar do Nascimento
- 20 de outubro de 2026 · revisao editorialRevisão e publicação no Exército Lula.Tiago Moura Cesar do Nascimento
- 19 de outubro de 2026 · redacaoRedação do verbete-chave. Conferidos em fonte aberta: Crítica do Programa de Gotha (MIA), O Estado e a Revolução cap. 5 (MIA), prefácio de 1888 do Manifesto (MIA-pt), condições de admissão (projeto de Lenin no MIA e artigo de John Riddell sobre as 21 condições), relato da conferência de 2009 (Radical Philosophy), KLRI sobre a Constituição norte-coreana; Wikipedia como orientação para etimologia, Babeuf e anarcocomunismo. Pendentes: conferir no original a frase de Marx/Engels sobre Babeuf; a data da mudança de nome do partido bolchevique (março de 1918) e a Constituição soviética de 1936 / programa de 1961 em fonte primária; a controvérsia do Livro negro em fonte de imprensa; obras de Hobsbawm, Kołakowski, Badiou, Dean e Bastani não foram abertas.Redação assistida por IA (Claude), sem revisão humana
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Como citar: Comunismo. In: Enciclopédia do Exército Lula. Versão de 20 de outubro de 2026. Disponível em: https://exercitolula.com.br/enciclopedia/comunismo.
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Socialismo
Família de ideias, movimento político e projeto de sociedade
Karl Marx
Filósofo, jornalista, economista e militante revolucionário alemão (1818–1883)
Friedrich Engels
Industrial, teórico e militante socialista alemão (1820–1895)
Manifesto do Partido Comunista
Programa da Liga dos Comunistas, de Marx e Engels (Londres, fevereiro de 1848)
Crítica do Programa de Gotha
Glosas marginais de Marx ao programa de unificação da social-democracia alemã (1875; publicadas em 1891)
Socialismo e comunismo nas diferentes tradições
A relação entre as palavras "socialismo" e "comunismo" mudou várias vezes. Entre as décadas de 1840 e 1860 elas se distinguiam; a partir dos anos 1860, "socialismo" tornou-se o termo predominante, e "comunismo" passou a soar arcaico 1. Os partidos ligados ao marxismo no fim do século XIX chamavam-se em geral social-democratas ou socialistas, o Partido Social-Democrata da Alemanha (SPD), o Partido Operário Social-Democrata Russo, o Partido Socialista Italiano. Ver também o verbete Socialismo.
Social-democracia
Na Segunda Internacional (fundada em 1889), a meta final era frequentemente descrita como socialismo, e "comunismo" aparecia sobretudo como referência ao Manifesto. A partir da polêmica revisionista (Eduard Bernstein, fim dos anos 1890), parte da social-democracia passou a privilegiar reformas graduais dentro das instituições parlamentares, posição criticada por Rosa Luxemburgo em Reforma ou revolução?. Depois da Primeira Guerra Mundial e da Revolução Russa, a maioria dos partidos social-democratas definiu-se em oposição aos comunistas, e ao longo do século XX vários deles abandonaram a meta de socializar os meios de produção, o SPD, por exemplo, no programa de Bad Godesberg (1959; fonte primária a localizar).
A distinção leninista em "O Estado e a Revolução"
Em O Estado e a Revolução, escrito em 1917, Lenin retomou a Crítica do Programa de Gotha e fixou uma terminologia que se tornaria dominante no movimento comunista: "o que habitualmente se chama socialismo" é o que Marx chamou de "primeira" fase, ou fase inferior, da sociedade comunista; a fase superior é o comunismo propriamente dito 12. Na primeira fase, os meios de produção já são propriedade comum, mas a distribuição segue o trabalho realizado e ainda é necessário um Estado; só na fase superior, com o desaparecimento da divisão do trabalho e da oposição entre trabalho manual e intelectual, o Estado poderia "extinguir-se" completamente 12. Lenin insistia que a fase superior não pode ser "introduzida" por decreto 12.
Essa distinção explica por que os Estados governados por partidos comunistas no século XX se definiam como socialistas: o comunismo era, em sua própria doutrina, uma etapa futura.
Anarcocomunismo
O anarcocomunismo (ou comunismo libertário) formou-se na ala antiautoritária da Primeira Internacional, na segunda metade da década de 1870. A expressão "comunismo anarquista" aparece impressa em 1876, e o programa Anarquia e comunismo, de Carlo Cafiero, foi adotado pela Federação do Jura em 1880 6. Seu formulador mais conhecido foi o russo Piotr Kropotkin, autor de La Conquête du pain (A conquista do pão, 1892) 6 13.
Para os anarcocomunistas, a distribuição segundo as necessidades deve vigorar desde a revolução, sem fase intermediária regida pelo trabalho e, sobretudo, sem Estado de transição: a abolição do Estado e a do capital são simultâneas. Daí sua crítica tanto à social-democracia quanto, depois de 1917, ao modelo bolchevique. Errico Malatesta e Emma Goldman estão entre os nomes associados a essa tradição.