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Anarquismo

Corrente socialista antiautoritária: Proudhon, Bakunin, Kropotkin, Malatesta, Goldman

Corrente política que considera ilegítimos o Estado e as relações de dominação e propõe uma sociedade de associações livres e federadas. No movimento operário, foi uma das grandes tradições socialistas, rival do marxismo desde a Primeira Internacional.

Também: socialismo libertário · anarchism · anarchisme · movimento libertário

Índice e ficha

O anarquismo é uma corrente de pensamento e de ação política que questiona a justificação da autoridade e do poder, a começar pelo Estado, e propõe uma ordem social baseada na liberdade, na igualdade e na associação voluntária. A palavra vem do grego an-arkhé, "sem governo" ou "sem princípio de comando" 1. Existem anarquismos de tipos muito diferentes, individualistas, religiosos, filosóficos, e até correntes "anarcocapitalistas" que nada têm de socialistas 1. Este verbete trata do anarquismo social ou socialismo libertário, que nasceu dentro do movimento operário e socialista do século XIX e se definia como socialista.

Nessa tradição, a abolição do Estado e a do capital são inseparáveis. Mikhail Bakunin resumiu a ideia numa fórmula muito citada: liberdade sem socialismo é privilégio e injustiça; socialismo sem liberdade é escravidão e brutalidade 2. Daí a relação ambígua com o marxismo: os dois partilham a crítica do capitalismo e a meta de uma sociedade sem classes e sem Estado, mas divergem sobre o caminho, em particular sobre o Estado de transição, a ação política parlamentar e o partido. Este verbete apresenta origens, autores, vertentes, organizações, experiências (com destaque para a Espanha de 1936 e o Brasil da Primeira República), a relação com o marxismo e as críticas. Ver também Comunismo (seção sobre o anarcocomunismo) e Socialismo.

Definição e núcleo comum

Explicação conceitualFormulação teórica

O anarquismo social pode ser descrito por quatro ideias:

  • Crítica do Estado: o Estado não é um instrumento neutro que possa ser tomado e usado para a emancipação; ele é, em si, uma forma de dominação que reproduz uma minoria governante.
  • Crítica do capital e da propriedade: a propriedade capitalista dos meios de produção é fonte de exploração; a terra e os instrumentos de trabalho devem pertencer a quem os usa, em formas associadas.
  • Federalismo e autogestão: a sociedade futura seria composta de comunas, associações de produtores e consumidores federadas de baixo para cima, com mandatos revogáveis.
  • Coerência entre meios e fins ("prefiguração"): a organização do movimento deve antecipar a sociedade desejada; meios autoritários produzem resultados autoritários.

A Stanford Encyclopedia of Philosophy lembra que muitos anarquistas propõem, além da crítica da autoridade, um ideal positivo de igualdade, comunidade e consenso não coercitivo 1.

Proudhon e o mutualismo

Fatos documentadosFormulação teórica

Pierre-Joseph Proudhon (1809–1865), tipógrafo de Besançon, foi o primeiro a se declarar "anarquista" de forma positiva. Em O que é a propriedade? (1840) respondeu com a frase que ficou célebre: "a propriedade é um roubo" 3. Propôs o mutualismo: trabalhadores associados em cooperativas e oficinas, artesãos e camponeses donos de seus instrumentos, troca de produtos pelo valor do trabalho e crédito gratuito por meio de um banco popular, tentativa que fracassou 3. Depois de 1848, deputado na Assembleia, definiu-se como federalista; em Do princípio federativo (1863) admitiu um governo federal descentralizado 3.

A relação com Marx começou cordial e terminou em polêmica: numa carta de 17 de maio de 1846, Proudhon recusou a ideia de ação revolucionária como meio de reforma social; Marx respondeu ao Sistema das contradições econômicas ou Filosofia da miséria (1846) com Miséria da filosofia (1847). No obituário de 1865, porém, Marx chamou O que é a propriedade? de obra que fez época 3.

Os diários (Carnets) e escritos póstumos de Proudhon, publicados no século XX, revelam antissemitismo virulento e um antifeminismo sistemático (La Pornocratie, 1875); já em vida, o anarquista Joseph Déjacque o criticou por contradizer os próprios princípios. Historiadores divergem sobre o peso dessas posições no seu pensamento político 3. O proudhonismo teve grande influência entre os operários franceses e na Comuna de Paris.

Bakunin e o anarquismo coletivista

Fatos documentadosFormulação teóricaAvaliação crítica

Mikhail Bakunin (1814–1876), aristocrata russo, participou das revoluções de 1848–1849, passou anos preso e deportado e, nos anos 1860, aproximou-se do movimento operário internacional 2. Defendia o anarquismo coletivista: propriedade coletiva dos meios de produção, federações de comunas e associações autogeridas organizadas de baixo para cima, remuneração segundo o trabalho. Participou da Comuna de Lyon em 1870 2.

Em Estatismo e anarquia (1873), sua última grande obra, advertiu que a ditadura do proletariado proposta por Marx seria, na prática, o governo de uma minoria de ex-operários e intelectuais em nome dos trabalhadores 2. Essa crítica tornou-se central na tradição anarquista e foi relida depois de 1917 à luz da experiência soviética.

Bakunin também é alvo de críticas: seus escritos contêm ataques antissemitas, mais visíveis depois da ruptura com Marx, historiadores divergem sobre se eram marginais ou centrais em seu pensamento, e sua ideia de uma rede secreta de revolucionários (a "ditadura invisível") foi descrita pelo historiador Peter Marshall como potencialmente mais tirânica que os partidos blanquistas ou marxistas, avaliação contestada por autores anarquistas 4.

A ruptura na Primeira Internacional (1872)

Fatos documentadosInterpretação historiográfica

Na Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT, fundada em 1864), marxistas e blanquistas, que controlavam o Conselho Geral, defendiam uma Internacional mais centralizada e a formação de partidos operários que disputassem o poder político; os bakuninistas, fortes na Espanha, na Itália e na Suíça (Federação do Jura), defendiam a autonomia das federações e recusavam a ação política parlamentar 5.

No Congresso de Haia (2 a 7 de setembro de 1872), com cerca de 65 delegados, aproximadamente 40 do campo marxista e 25 antiautoritários, segundo a fonte, com vários mandatos contestados, Bakunin (ausente, procurado pela polícia) e James Guillaume foram expulsos; a votação sobre Bakunin teve 27 votos a favor, 7 contra e 8 abstenções. O congresso reforçou os poderes do Conselho Geral e transferiu sua sede para Nova York 5. A escolha de Haia dificultou a presença das grandes federações espanhola, italiana e do Jura 5.

Uma semana depois, no Congresso de Saint-Imier, a maioria das federações rejeitou as decisões de Haia e formou a Internacional antiautoritária. A Internacional marxista dissolveu-se em 1876; em 1889, marxistas e social-democratas fundaram a Segunda Internacional, da qual os anarquistas acabariam excluídos 5. A historiografia discute até que ponto a cisão foi questão de princípio (Estado, ação política) ou também disputa de poder e de método dentro da organização.

Vertentes: anarcocomunismo, anarcossindicalismo e outras

Formulação teóricaFatos documentados

As principais vertentes do anarquismo social se sobrepõem e não são exclusivas:

Anarcocomunismo: Kropotkin

Formulação teóricaFatos documentados

O anarcocomunismo (ou comunismo libertário) surgiu na ala antiautoritária da Internacional no fim dos anos 1870 e defendia a distribuição segundo as necessidades desde a revolução, sem etapa regida pelo trabalho nem moeda. Seu formulador mais conhecido foi o geógrafo russo Piotr Kropotkin (1842–1921), preso na Rússia em 1874, fugitivo em 1876 e exilado por 41 anos na Suíça, na França e na Inglaterra 6. Em A conquista do pão (1892) propôs uma economia de troca voluntária e a abolição do dinheiro; em Campos, fábricas e oficinas (1899), a descentralização da produção e a integração entre indústria e agricultura; em Ajuda mútua: um fator de evolução (1902), sustentou contra o darwinismo social que a cooperação é fator decisivo na evolução das espécies 6. Recusava qualquer "governo revolucionário" 6.

Na Primeira Guerra Mundial, Kropotkin apoiou a França e o Reino Unido contra a Alemanha, o que dividiu o movimento anarquista, majoritariamente contrário à guerra. Voltou à Rússia em junho de 1917, criticou a centralização bolchevique e escreveu a Lenin em 1920 condenando execuções e defendendo instituições descentralizadas. Morreu em fevereiro de 1921; seu enterro foi uma das últimas manifestações anarquistas públicas toleradas na Rússia soviética 6.

Malatesta e o debate sobre organização

Formulação teóricaFatos documentados

Errico Malatesta (1853–1932), italiano, militante por seis décadas, é associado ao anarcocomunismo e ao que se chamou de "anarquismo sem adjetivos" 7. Defendia a organização dos anarquistas e sua atuação nos sindicatos, mas sem confundir as duas coisas: no Congresso Anarquista Internacional de Amsterdã (1907), debateu com o sindicalista francês Pierre Monatte e afirmou que o sindicalismo, por si só, não bastava; os anarquistas não deveriam querer que os sindicatos fossem anarquistas 7. Depois da Primeira Guerra, seu jornal Umanità Nova teve audiência na Itália até ser fechado sob o fascismo; nos últimos anos viveu vigiado e morreu em Roma em 1932 7.

Anarcossindicalismo

Formulação teóricaFatos documentados

O anarcossindicalismo faz do sindicato o instrumento da luta de classes e, ao mesmo tempo, a "prefiguração" da sociedade pós-capitalista: os sindicatos, federados por ramo e por localidade, seriam a base da gestão da produção depois de uma revolução social desencadeada, em geral, por uma greve geral 8. Recusa partidos e parlamento e privilegia a ação direta, greves, boicotes, sabotagem 8. Desenvolveu-se a partir do sindicalismo revolucionário da CGT francesa e firmou-se como tendência distinta no Congresso de Amsterdã de 1907; em 1922 fundou-se uma internacional anarcossindicalista (a AIT/IWA) 8. Teve peso de massas na Espanha (CNT), na Itália, na Argentina, no Uruguai e no Brasil; seu auge foi a revolução espanhola de 1936 8. O livro de Rudolf Rocker Anarcossindicalismo (1938) é uma exposição clássica 9.

Outras vertentes

Explicação conceitual

Há ainda o anarquismo individualista (Max Stirner, Benjamin Tucker), o anarquismo cristão e pacifista (Lev Tolstói), o anarcofeminismo, a ecologia social de Murray Bookchin e anarquismos contemporâneos ligados a movimentos antiglobalização 1. O "anarcocapitalismo" norte-americano, que defende o mercado sem Estado, não pertence à tradição socialista e é rejeitado pela maioria dos anarquistas sociais.

Emma Goldman, feminismo e a experiência russa

Fatos documentadosAvaliação crítica

Emma Goldman (1869–1940), nascida no Império Russo e emigrada para os Estados Unidos, foi uma das militantes anarquistas mais conhecidas do século XX. Fundou em 1906 a revista Mother Earth 10. Distanciou-se do feminismo sufragista, que considerava limitado, e defendeu o acesso à contracepção, foi presa em 1916 por ensinar métodos contraceptivos, e o "amor livre", trazendo questões de gênero e sexualidade para o centro do anarquismo 10.

Em dezembro de 1919, durante o "Primeiro Pânico Vermelho", foi deportada para a Rússia com Alexander Berkman e outras 247 pessoas. Inicialmente simpática à revolução, logo denunciou a repressão bolchevique à dissidência; a repressão à revolta de Kronstadt (1921) levou-a a deixar o país, e seus artigos foram reunidos em Minha desilusão na Rússia (1923) 10. Em 1936 apoiou a revolução espanhola. Morreu em Toronto em 1940 10. Sua trajetória ilustra um padrão: muitos anarquistas saudaram a Revolução Russa e romperam com o regime bolchevique nos primeiros anos, por causa da supressão de sovietes independentes, de organizações anarquistas e do movimento de Makhno na Ucrânia.

Espanha, 1936–1939: coletivizações e derrota

Fatos documentadosInterpretação historiográficaDebate em aberto

Em julho de 1936, quando parte do exército se levantou contra a República, a CNT anarcossindicalista tinha cerca de 1,58 milhão de membros e a socialista UGT cerca de 1,45 milhão, segundo números citados pela fonte 11. A resistência ao golpe em Barcelona e noutras cidades foi acompanhada de uma revolução social: em poucos dias, cerca de 70% das empresas industriais e comerciais da Catalunha passaram ao controle dos trabalhadores, e na zona republicana de Aragão formaram-se cerca de 450 coletividades rurais, quase todas dirigidas pela CNT 11. Coletivizações também ocorreram em Valência, Castela, Andaluzia e Extremadura, em proporções variáveis 11. Os números são estimativas de fontes diferentes e devem ser lidos como ordens de grandeza.

A experiência dividiu a esquerda. A CNT, diante da guerra, aceitou participar de governos: integrou o governo da Generalitat da Catalunha e, em novembro de 1936, o governo central de Francisco Largo Caballero, fato inédito para uma organização anarquista; entre os ministros cenetistas estiveram Federica Montseny e Juan García Oliver (pastas e datas a conferir) 11. Comunistas do PCE/PSUC e republicanos defendiam centralizar o Estado e "ganhar primeiro a guerra"; anarquistas e o POUM defendiam que guerra e revolução eram inseparáveis.

As Jornadas de Maio de 1937 em Barcelona (3 a 8 de maio), iniciadas quando a polícia tentou tomar a Central Telefônica controlada pela CNT, opuseram anarquistas e o POUM ao governo catalão, ao PSUC e ao governo central; as estimativas de mortos variam de cerca de 200–250 (estudos recentes) a 400–600 (estimativas da época) ou mais 12. Seguiram-se a queda de Largo Caballero, a saída dos ministros anarquistas, a ilegalização do POUM e a prisão de seus dirigentes, entre eles Andreu Nin 12; a dissolução do Conselho de Aragão pelo governo republicano em agosto de 1937 é registrada pela historiografia e deve ser conferida em fonte específica.

Os balanços divergem: para autores libertários, as coletividades mostraram que a autogestão em larga escala é possível e foram derrotadas pela contrarrevolução republicana e comunista antes do franquismo; para outros historiadores, como Burnett Bolloten, que documentou a repressão comunista à revolução, ou Stanley Payne, a fragmentação, o voluntarismo e a coerção em parte das coletivizações também pesaram, e a revolução teria enfraquecido o esforço de guerra 11. Há também registros de violência revolucionária contra religiosos e proprietários no verão de 1936, cuja dimensão é objeto de pesquisa própria. A vitória franquista (1939) encerrou a experiência e levou à repressão em massa de anarquistas, socialistas e comunistas.

Anarquismo no Brasil

Fatos documentadosInterpretação historiográfica

O anarquismo chegou ao Brasil com imigrantes italianos, portugueses e espanhóis a partir do fim do século XIX e difundiu-se por grupos de propaganda e jornais, sobretudo em São Paulo e no Rio de Janeiro 13. A Colônia Cecília (Paraná, 1890–1894), dirigida por Giovanni Rossi, foi uma experiência comunitária com trabalho coletivo e amor livre, que se desfez por hostilidade externa e problemas internos 13. Na Primeira República, o sindicalismo revolucionário de inspiração anarquista tornou-se a corrente mais influente do movimento operário urbano: o Primeiro Congresso Operário Brasileiro (1906) e a Confederação Operária Brasileira (COB, 1908) são marcos 13.

A greve geral de 1917 em São Paulo começou em julho nas fábricas têxteis do Cotonifício Rodolfo Crespi e se generalizou depois que, em 9 de julho, uma carga de cavalaria diante da fábrica Mariângela, no Brás, matou o jovem anarquista espanhol José Martinez; o enterro reuniu multidão e ampliou a paralisação 14. Estima-se em cerca de 70 mil o número de grevistas. O Comitê de Defesa Proletária, com forte presença anarquista, apresentou onze reivindicações, libertação dos presos, proibição do trabalho de menores de 14 anos e do trabalho noturno de mulheres e menores, jornada de oito horas, aumentos salariais, entre outras. Os patrões concederam aumento imediato e prometeram estudar o restante; a greve terminou depois de cerca de 30 dias, e o principal resultado, segundo a fonte, foi o reconhecimento do movimento operário como interlocutor 14. Seguiram-se greves no Rio Grande do Sul e no Rio de Janeiro e a tentativa de insurreição anarquista de novembro de 1918 no Rio 14.

A repressão foi intensa: a Lei Adolfo Gordo (1907) permitiu a expulsão de militantes estrangeiros; novos decretos vieram em 1921, e anarquistas foram enviados à colônia penal de Clevelândia, no Oiapoque, onde muitos morreram 13. Nos anos 1920, a fundação do Partido Comunista do Brasil (1922), por militantes vindos em boa parte do anarquismo, como Astrojildo Pereira, abriu a disputa pela direção sindical (ver Partido Comunista Brasileiro (PCB) e Comunismo no Brasil); a repressão e o sindicalismo oficial do período Vargas reduziram ainda mais a influência anarquista 13. Correntes anarquistas reapareceram a partir do fim dos anos 1970; a Coordenação Anarquista Brasileira foi fundada em 2012 13. O historiador Boris Fausto estudou o movimento operário do período 15.

Relação conflituosa com o marxismo

Formulação teóricaPosição de outras organizações e correntesDebate em aberto

Anarquistas e marxistas partilham a crítica do capitalismo, a meta de uma sociedade sem classes e sem Estado e uma origem comum no movimento operário; divergem sobre o caminho. Os pontos de atrito principais:

  • Estado de transição. Para os marxistas, a classe trabalhadora precisa conquistar o poder político e exercer uma "ditadura do proletariado" antes que o Estado se extinga (ver O Estado e a revolução e Crítica do Programa de Gotha). Para os anarquistas, um Estado "operário" reproduziria uma nova classe dirigente; a abolição do Estado deve ser imediata.
  • Ação política e partido. Marxistas defenderam partidos operários e participação eleitoral (social-democratas) ou partidos de vanguarda (leninistas); anarquistas defenderam a ação direta, os sindicatos e as federações livres.
  • Centralização × federação. Os marxistas acusaram os anarquistas de desorganização e de ignorar a necessidade de coordenação e defesa; os anarquistas acusaram os marxistas de autoritarismo e de substituir a classe pelo partido.
  • A experiência soviética. A repressão bolchevique a anarquistas, prisões a partir de 1918, a revolta de Kronstadt e o esmagamento do movimento de Nestor Makhno na Ucrânia em 1921, foi lida pelos anarquistas como confirmação de Bakunin. Leninistas responderam com a guerra civil e a necessidade de defesa da revolução (ver Revolução Russa de 1917 e Marxismo-leninismo).

Houve também convergências: anarquistas e marxistas atuaram juntos em sindicatos, greves e frentes antifascistas; Rosa Luxemburgo tratou com seriedade a greve de massas, tema caro aos sindicalistas revolucionários; correntes conselhistas e autonomistas do século XX aproximaram-se de temas libertários. Lenin, em O Estado e a Revolução (cap. IV), escreveu que os marxistas não divergem dos anarquistas quanto à abolição do Estado como objetivo, a divergência está no caminho 16.

Críticas ao anarquismo

Avaliação críticaDebate em aberto

Críticas recorrentes, de procedências distintas:

  • Marxistas: sem Estado de transição, a revolução não teria meios de se defender da contrarrevolução nem de coordenar a economia; a experiência espanhola, para essa leitura, mostraria os limites de um poder fragmentado. Engels, em Da autoridade (1872), argumentou que a produção industrial moderna exige alguma forma de autoridade e coordenação (texto não aberto nesta redação).
  • Liberais e conservadores: a ordem sem Estado seria instável e tenderia ao caos ou à volta de um poder coercitivo; a Stanford Encyclopedia of Philosophy registra essa objeção e as respostas anarquistas, de que as concepções hobbesianas da natureza humana são discutíveis e de que a educação e a organização voluntária podem impedir a volta do Estado 1.
  • Utopismo: a acusação de irrealismo é respondida com o argumento de que o pensamento utópico esclarece valores e de que pequenas comunidades funcionam como experimentos 1.
  • Violência: a "propaganda pelo ato" e atentados de fins do século XIX e início do XX, rejeitados por boa parte dos próprios anarquistas, marcaram a imagem pública da corrente; muitos anarquistas foram pacifistas, e Emma Goldman reviu suas posições iniciais sobre a violência revolucionária 1.
  • Críticas internas: anarcofeministas e outros apontaram o antifeminismo de Proudhon e o antissemitismo de Proudhon e Bakunin como contradições com os princípios igualitários 3 4.

Comparações

Tabelas resumem tendências gerais; cada linha simplifica debates que o texto detalha. Classificações sobrepostas não são exclusivas.

Anarquismo e marxismo: pontos de convergência e divergência
CritérioAnarquismo socialMarxismo (vertentes revolucionárias)
Meta finalsociedade sem classes e sem Estadosociedade sem classes e sem Estado (comunismo)
Estado na transiçãoabolição imediata; federações e comunasEstado de transição (ditadura do proletariado), depois extinção
Organizaçãosindicatos, grupos de afinidade, federações; recusa do partido eleitoralpartido operário; em Lenin, partido de vanguarda
Ação políticaação direta; recusa do parlamentocombinação de luta política (inclusive eleitoral) e luta econômica
Distribuiçãosegundo o trabalho (coletivistas) ou segundo as necessidades desde já (anarcocomunistas)primeira fase segundo o trabalho; fase superior segundo as necessidades

Simplificação; dentro de cada tradição houve divergências importantes (por exemplo, social-democratas reformistas não defendiam ditadura do proletariado). Fontes: The Hague Congress (1872) (verbete), Anarchism.

Citações

Cada citação traz o grau de confirmação: frase famosa sem fonte localizada não é tratada como autêntica.

  • Paráfrase
    “Liberdade sem socialismo é privilégio e injustiça; socialismo sem liberdade é escravidão e brutalidade.”

    liberty without socialism is privilege and injustice, and socialism without liberty is slavery and brutality

    Fórmula atribuída a Bakunin (escritos de 1867, conforme a tradição editorial), citada em fontes de referência.

    Tradução livre da redação a partir da versão inglesa citada pela fonte; obra e página originais não conferidas.

    Fonte: Mikhail Bakunin (verbete)

  • Paráfrase
    “A propriedade é um roubo.”

    La propriété, c'est le vol !

    Proudhon, O que é a propriedade? (1840).

    Frase conhecida; edição e página do original não conferidas nesta redação.

    Fonte: Pierre-Joseph Proudhon (verbete)

Cronologia

  1. 1840

    Proudhon publica O que é a propriedade?3

  2. 17 de maio de 1846

    Carta de Proudhon a Marx recusando a revolução como meio de reforma social.3

  3. 2 de setembro de 1872

    Abre o Congresso de Haia da AIT; Bakunin e Guillaume são expulsos.5

  4. setembro de 1872

    Congresso de Saint-Imier: Internacional antiautoritária.5

  5. 1873

    Bakunin publica Estatismo e anarquia.2

  6. 1890

    Fundação da Colônia Cecília (Paraná).13

  7. 1892

    Kropotkin publica A conquista do pão.6

  8. 1906

    Primeiro Congresso Operário Brasileiro; Goldman funda Mother Earth.13

  9. 1907

    Congresso Anarquista de Amsterdã (debate Malatesta–Monatte); Lei Adolfo Gordo no Brasil.7

  10. 9 de julho de 1917

    Morte de José Martinez no Brás; a greve geral se amplia em São Paulo.14

  11. 1921

    Repressão a Kronstadt; morte de Kropotkin.6

  12. julho de 1936

    Início da revolução social na Espanha republicana.11

  13. 3 de maio de 1937

    Começam as Jornadas de Maio em Barcelona.12

  14. 2012

    Fundação da Coordenação Anarquista Brasileira.13

Bibliografia comentada

  • Andrew Fiala. Anarchism (2017 (revisão substantiva em 2025))

    Verbete filosófico atualizado, com as variedades do anarquismo, os argumentos centrais e as objeções com respostas.

  • Peter Marshall. Demanding the Impossible: A History of Anarchism (1992)

    História geral do anarquismo, abrangente e acessível, escrita por autor simpático à corrente mas crítico.

  • George Woodcock. Anarchism: A History of Libertarian Ideas and Movements (1962)

    Clássico da historiografia do anarquismo, centrado em ideias e movimentos europeus.

  • Rudolf Rocker. Anarcho-Syndicalism (1938)

    Exposição do anarcossindicalismo por um de seus principais militantes, escrita durante a guerra civil espanhola.

  • Burnett Bolloten. The Spanish Civil War: Revolution and Counterrevolution (1991)

    Obra extensa e polêmica sobre revolução e contrarrevolução na Espanha republicana.

  • Boris Fausto. Trabalho urbano e conflito social (1890–1920) (1977)

    Estudo de referência sobre o movimento operário brasileiro da Primeira República, em que o anarquismo foi decisivo.

Fontes

“Consultada” indica que o endereço foi aberto na data informada. “Referência bibliográfica” indica obra citada sem conferência de página nesta versão.

  1. 1Andrew Fiala. Anarchism. Stanford Encyclopedia of Philosophy, 2017 (revisão substantiva em 2025).[Obra de referência · consultada em 19 de outubro de 2026]
  2. 2Mikhail Bakunin (verbete). Wikipedia, em inglês.[Obra de referência · consultada em 19 de outubro de 2026]
  3. 3Pierre-Joseph Proudhon (verbete). Wikipedia, em inglês.[Obra de referência · consultada em 19 de outubro de 2026]Inclui a seção sobre posições controversas (antissemitismo, antifeminismo) e a relação com Marx.
  4. 4Mikhail Bakunin (verbete), seções sobre antissemitismo e 'ditadura invisível'. Wikipedia, em inglês.[Obra de referência · consultada em 19 de outubro de 2026]Mesma página, parte final; resume posições de P. Marshall, I. McKay, H. Draper e outros.
  5. 5The Hague Congress (1872) (verbete). Wikipedia, em inglês.[Obra de referência · consultada em 19 de outubro de 2026]
  6. 6Peter Kropotkin (verbete). Wikipedia, em inglês.[Obra de referência · consultada em 19 de outubro de 2026]
  7. 7Errico Malatesta (verbete). Wikipedia, em inglês.[Obra de referência · consultada em 19 de outubro de 2026]
  8. 8Anarcho-syndicalism (verbete). Wikipedia, em inglês.[Obra de referência · consultada em 19 de outubro de 2026]
  9. 9Rudolf Rocker. Anarcho-Syndicalism. Secker and Warburg, Londres, 1938.[Fonte primária · referência bibliográfica]Não consultada nesta redação.
  10. 10Emma Goldman (verbete). Wikipedia, em inglês.[Obra de referência · consultada em 19 de outubro de 2026]
  11. 11Spanish Revolution of 1936 (verbete). Wikipedia, em inglês.[Obra de referência · consultada em 19 de outubro de 2026]Números de filiados e de coletivizações citados pelo verbete a partir de fontes diversas; conferir.
  12. 12May Days (verbete). Wikipedia, em inglês.[Obra de referência · consultada em 19 de outubro de 2026]
  13. 13Anarquismo no Brasil (verbete). Wikipédia, em português.[Obra de referência · consultada em 19 de outubro de 2026]
  14. 14Greve geral de 1917 (verbete). Wikipédia, em português.[Obra de referência · consultada em 19 de outubro de 2026]Estimativa de 70 mil grevistas e lista de reivindicações citadas pelo verbete; conferir em historiografia (B. Fausto, C. Lopreato).
  15. 15Boris Fausto. Trabalho urbano e conflito social (1890–1920). Difel, São Paulo, 1977.[Historiografia · referência bibliográfica]Não consultada nesta redação.
  16. 16V. I. Lenin. The State and Revolution, cap. IV (inclui a seção "Controversy with the Anarchists"). Marxists Internet Archive, 1917.[Fonte primária · consultada em 19 de outubro de 2026]Frase: "We do not after all differ with the anarchists on the question of the abolition of the state as the aim."
  17. 17Peter Marshall. Demanding the Impossible: A History of Anarchism. HarperCollins, Londres, 1992.[Historiografia · referência bibliográfica]Não consultada nesta redação.
  18. 18George Woodcock. Anarchism: A History of Libertarian Ideas and Movements. 1962.[Historiografia · referência bibliográfica]Não consultada nesta redação.
  19. 19Burnett Bolloten. The Spanish Civil War: Revolution and Counterrevolution. University of North Carolina Press, 1991.[Historiografia · referência bibliográfica]Não consultada nesta redação; versão final de pesquisas publicadas desde 1961.

Rede de relações

Ligações documentadas com tipo, período e fonte. Verbetes ainda planejados aparecem tracejados e sem link.

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Peças para as redes

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Histórico e revisão

Estado
Publicado
Autoria
Redação UP (assistida por IA)
Criado em
19 de outubro de 2026
Atualizado em
19 de outubro de 2026
Extensão
2.907 palavras · 19 fontes
Revisão humana
Tiago Moura Cesar do Nascimento
  1. 20 de outubro de 2026 · revisao editorialRevisão e publicação no Exército Lula.Tiago Moura Cesar do Nascimento
  2. 19 de outubro de 2026 · redacaoRedação inicial. Abertos nesta sessão: SEP 'Anarchism' (A. Fiala) e verbetes da Wikipedia (Proudhon, Bakunin, Congresso de Haia, Kropotkin, Malatesta, Goldman, anarcossindicalismo, revolução espanhola, Jornadas de Maio, anarquismo no Brasil, greve geral de 1917). Pendentes: conferir em historiografia os números da revolução espanhola, os ministros da CNT (nomes, pastas, data) e a dissolução do Conselho de Aragão (ago. 1937); conferir Engels, Da autoridade (não aberto); a estimativa de grevistas de 1917; as fontes originais das citações de Bakunin e Proudhon; obras de Rocker, Fausto, Marshall, Woodcock e Bolloten não consultadas.Redação assistida por IA (Claude), sem revisão humana

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Como citar: Anarquismo. In: Enciclopédia do Exército Lula. Versão de 20 de outubro de 2026. Disponível em: https://exercitolula.com.br/enciclopedia/anarquismo.

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