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Censura na ditadura militar

Controle estatal da imprensa, das artes e dos livros no Brasil (1964–1985) e sua desmontagem até 1988

Sistema de controle que combinou leis de censura a diversões públicas, à imprensa e a livros, censores nas redações, proibições, cortes, apreensões, pressão econômica e violência paramilitar. Atingiu jornais, música, teatro, cinema, TV e literatura e só foi extinto pela Constituição de 1988.

Também: Censura no regime militar · Censura prévia · DCDP · Divisão de Censura de Diversões Públicas · Serviço de Censura de Diversões Públicas (SCDP) · Departamento de Censura de Diversões Públicas · Conselho Superior de Censura

Índice e ficha

A censura na ditadura militar foi um conjunto de instrumentos legais, órgãos e práticas pelos quais o Estado brasileiro, entre 1964 e 1985, controlou o que podia ser publicado, encenado, exibido, cantado e transmitido. Não foi um bloco uniforme: mudou de foco e intensidade ao longo dos governos militares, conviveu com a propaganda oficial e com o financiamento estatal da cultura, e atingiu de modo diferente a grande imprensa, a imprensa alternativa, os artistas e os editores 1 2.

Este verbete distingue cinco formas de censura que muitas vezes aparecem misturadas: a proibição formal (veto, por ato de autoridade, à publicação, encenação, exibição ou execução); os cortes (liberação condicionada à supressão de trechos); a apreensão (recolhimento de exemplares já em circulação); a pressão informal (ordens telefônicas, ameaças, pressão econômica, violência de grupos paramilitares); e a autocensura (renúncia antecipada de autores, editores e emissoras a publicar o que provavelmente seria vetado).

A censura teve antecedentes: o Estado Novo (1937–1945) organizou um aparato de censura e propaganda centrado no Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), e o regulamento de censura de diversões públicas de 1946, editado depois do Estado Novo, continuou em vigor durante toda a ditadura 3. A jornada sugerida de leitura é: AI-5 → instituições (Ministério da Justiça, Polícia Federal, DCDP) → censura → documento original (pareceres no Arquivo Nacional).

Órgãos e censores

Fatos documentadosResultado de pesquisa

A censura de diversões públicas era exercida pelo Ministério da Justiça por meio do Serviço de Censura de Diversões Públicas (SCDP), setor do Departamento/Divisão de Censura de Diversões Públicas (DCDP), ligado ao Departamento de Polícia Federal; a partir de 1970, o SCDP-DCDP também passou a examinar livros e revistas 2. Os pareceres eram assinados por censores, funcionários de carreira; as decisões finais de proibição de livros eram decretos do ministro da Justiça, com a fórmula "proíbo a publicação e circulação em todo o território nacional [...] bem como determino a apreensão de todos os seus exemplares" 2. O Decreto-Lei 1.077 previa que o Conselho Superior de Censura, a Polícia Federal e os juizados de menores assegurassem a aplicação da proibição às diversões e à programação de rádio e TV 7.

Na prática, segundo descrição da revista Veja de 29/12/1976 citada por Reimão, a censura a livros funcionava sobretudo por denúncia: alguém considerava um livro imoral ou subversivo, denunciava ao Ministério, um assessor emitia parecer e o ministro decidia sobre a apreensão; editoras com medo de apreensão também enviavam livros à Polícia Federal antes de publicá-los 2.

O acervo da DCDP. Os documentos que restaram da Divisão de Censura estão no Arquivo Nacional, em Brasília: com a Constituição de 1988, a DCDP foi desativada e sua documentação transferida ao Arquivo, e é possível, segundo Reimão, que muitos documentos tenham sido eliminados ou perdidos nesse momento. Para livros e revistas, o Arquivo registra cerca de 490 livros e 97 revistas submetidos à DCDP; o volume referente a cinema e teatro é muito maior 2. Pareceres desse fundo circulam em projetos de memória, como o relatório do Serviço de Censura que vetou a canção "Flor da idade", de Chico Buarque, em junho de 1973 8.

Censura à imprensa

Fatos documentados

Uma das primeiras consequências do golpe foi o fechamento da imprensa de esquerda e nacionalista: deixaram de circular publicações como Novos Rumos, Semanário e A Classe Operária; o jornal Última Hora, de Samuel Wainer, foi empastelado 9. A maioria dos grandes meios apoiou o golpe, mas também a imprensa liberal-conservadora conheceu a censura, sobretudo a partir de 1970. O projeto Memórias da Ditadura registra ainda formas de pressão econômica: a TV Excelsior foi fechada, e o Correio da Manhã, que passara à crítica ao regime, foi fechado e sua proprietária, Niomar Moniz Sodré, presa 9.

O caso do Estado de S. Paulo. Segundo o Acervo Estadão, em 13/12/1968 o jornal foi impedido de circular por causa do editorial "Instituições em frangalhos", pouco antes do anúncio do AI-5; a censura instalou-se dentro das redações do Estado e do Jornal da Tarde até 6/1/1969 e depois passou a ser exercida "à distância" 10. Entre 1970 e 1974, com censores ocupando a redação, o Estado recusou-se a preencher os espaços cortados com outras matérias e passou a publicar versos de Os Lusíadas, de Camões; o Jornal da Tarde publicou receitas de bolos e doces, formas de mostrar ao leitor que havia censura 11. Em 10/5/1973, proibido de noticiar a demissão do ministro da Agricultura, o jornal trocou a foto censurada por um anúncio da Rádio Eldorado. A censura na redação foi suspensa em 4/1/1975 11.

Telejornalismo. O Jornal Nacional, estreado em setembro de 1969, tinha todos os textos e reportagens gravadas submetidos aos fiscais da censura 12. A TV Cultura, que exibia problemas ausentes das outras emissoras, sofreu "um duro golpe" com a prisão e a morte do jornalista Vladimir Herzog em 1975 13.

Sobre a colaboração de parte dos jornalistas com a censura e as ordens enviadas às redações, a obra de referência é Cães de guarda, de Beatriz Kushnir; sobre a censura prévia ao Estado e ao Movimento, o estudo de Maria Aparecida de Aquino 14 15.

Imprensa alternativa

Fatos documentados

Jornalistas que não queriam trabalhar nos grandes jornais fundaram pequenos tabloides de humor e análise política: a "imprensa alternativa". O projeto Memórias da Ditadura fala em centenas de jornais, ao menos 150 mais representativos, espalhados pelo país, além de publicações de exilados 9. Alguns marcos 16:

  • Pif Paf (maio de 1964), revista de humor liderada por Millôr Fernandes, circulou por oito edições antes de ser apreendida.
  • O Pasquim (junho de 1969, Rio), semanário de humor político; sofreu censura e teve a redação inteira presa em certo momento; chegou a vender 200 mil exemplares em meados dos anos 1970 e circulou até 1991.
  • Opinião (1972, Rio), de Fernando Gasparian e Raimundo Rodrigues Pereira; sob censura prévia a partir da 8ª edição; fechado em 1977.
  • Movimento (1975, São Paulo), sociedade de jornalistas e apoiadores; sob censura prévia da primeira edição até o nº 153, de 5/6/1978. A redação calculou 6 mil artigos e ilustrações vetados e 4,5 milhões de palavras proibidas. Depois vieram fiscalização tributária, invasão de sucursais e bombas em bancas; circulou até novembro de 1981.
  • Ex (1973), cuja 16ª edição, de novembro de 1975, denunciou o assassinato de Vladimir Herzog e foi parcialmente apreendida.
  • O São Paulo, da Arquidiocese de São Paulo, sob censura prévia até junho de 1978.
  • Em Tempo (1978), CooJornal (1974, Porto Alegre, cooperativa de 66 jornalistas, com diretores processados e presos), Versus, Brasil Mulher (1975, ligado à campanha pela anistia de Therezinha Zerbini), Nós Mulheres, Lampião (1978) e jornais negros, indígenas e regionais, como Varadouro (Acre).

Entre 1979 e 1981 a maioria desses jornais deixou de existir, em meio à reorganização partidária e a uma onda de atentados a bancas que vendiam publicações de esquerda 9.

Música

Fatos documentados

Os festivais de música da TV (1965–1972) tornaram-se palco político, e a censura passou a controlá-los 17. Casos documentados nas fontes consultadas (sem reprodução de letras):

  • "Pra não dizer que não falei das flores" ("Caminhando"), de Geraldo Vandré, segunda colocada no Festival Internacional da Canção de 1968: duas semanas após o festival, foi proibida pelo governo federal de ser executada em rádios e locais públicos 17.
  • "Cálice", de Chico Buarque e Gilberto Gil, vetada em 1973 ainda inédita; a letra foi divulgada em jornais e cantada por Gil num show na USP, como gesto de desobediência 18.
  • "Flor da idade", de Chico Buarque, vetada em junho de 1973 por parecer do Serviço de Censura que alegava "conteúdo erótico" 8.
  • "Uma vida só (Pare de tomar a pílula)", de Odair José, censurada não por ideologia política em sentido estrito, mas por "atentar contra os bons costumes", exemplo de que a censura moral atingiu também a música popular de grande público 19.

Após o AI-5, Chico Buarque, Gilberto Gil, Caetano Veloso e Geraldo Vandré foram para o exílio; Taiguara e Vandré, entre outros, deixaram de cantar ou de viver no país 17 18. Segundo estimativa de Zuenir Ventura citada por Reimão, mais de 500 letras de música foram censuradas nos dez anos de vigência do AI-5 2.

Teatro

Fatos documentados

A classe teatral esteve entre os principais alvos da repressão desde a fase inicial do regime 20. Em fevereiro de 1968, o ato "Cultura contra Censura", no Rio, protestou contra a proibição de oito peças 2. Depois do AI-5, diretores, atores e autores foram presos; José Celso Martinez Corrêa e Augusto Boal tiveram de se exilar 20.

Calabar (1973), de Chico Buarque e Ruy Guerra, tinha estreia marcada para novembro de 1973 no Teatro João Caetano, no Rio, mas foi proibida e só estreou em 1980 21. Reimão registra também peças cuja publicação em livro foi vetada, como Papa Highirte e Rasga coração, de Oduvaldo Vianna Filho, e Abajur lilás e Barrela, de Plínio Marcos, o que mostra que o texto podia ser censurado em mais de um suporte 2. Segundo Zuenir Ventura, citado por Reimão, cerca de 450 peças foram censuradas na vigência do AI-5 2.

Roda Viva (1968) e o ataque ao Teatro Galpão

Fatos documentadosDocumento de época
Conteúdo sensívelEsta seção menciona agressões físicas e sexuais contra atrizes e atores durante um ataque a um teatro (sem detalhes gráficos).Ler este trecho

Roda Viva, primeira peça de Chico Buarque, dirigida por José Celso Martinez Corrêa, estreou no Rio em 1968 22. Na segunda temporada, em São Paulo, ao fim de uma apresentação no Teatro Galpão (anexo ao Teatro Ruth Escobar), o espaço foi invadido por um grupo armado de cassetetes e soco-inglês, que espancou artistas e técnicos, agrediu atrizes nos camarins e depredou o teatro. A Folha de S.Paulo de 19/7/1968 noticiou o ataque, registrou que um contrarregra sofreu fratura e que a polícia deixou escapar parte dos agressores detidos pelos atores 23.

A reportagem de época fala em "cerca de vinte elementos" e não nomeia a organização; a autoria é atribuída ao Comando de Caça aos Comunistas (CCC) por fontes posteriores, como o Globo Teatro, que fala em "cerca de cem pessoas" 23 22. Segundo a mesma fonte, a violência se repetiu em setembro de 1968, quando a peça estreou no Rio Grande do Sul, e o espetáculo foi então proibido pela censura 22. O caso mostra a combinação entre violência paramilitar tolerada e proibição oficial.

Cinema

Fatos documentadosInterpretação historiográfica

A censura ao cinema é anterior a 1964: Rio, 40 graus (1955), de Nelson Pereira dos Santos, chegou a ser proibido e só foi liberado após a posse de Juscelino Kubitschek 24, exemplo de aplicação do regulamento de 1946 na República de 1946. Na ditadura, o cinema viveu um paradoxo: era censurado e financiado pelo mesmo Estado. A Embrafilme, criada em 1969, passou a financiar obras sobretudo a partir de 1975, inclusive de cineastas de esquerda, enquanto a censura procurava evitar que as críticas se radicalizassem 1. Pra frente, Brasil (1982), de Roberto Farias, que mostrava a tortura de um cidadão comum, causou polêmica e quase foi censurado 1. Zuenir Ventura estimou cerca de 500 filmes censurados entre 1968 e 1978 2.

Televisão: o caso Roque Santeiro

Fatos documentados

A TV foi o meio estratégico de "integração nacional" do regime, e por isso objeto de censura e autocensura rigorosas; ainda assim, autores de oposição, como Dias Gomes, levaram temas sociais às telenovelas 13.

O caso mais emblemático é Roque Santeiro, de Dias Gomes, que, segundo a jornalista Laura Mattos, foi alvo da censura em três momentos 25:

  1. 1965: a peça O Berço do Herói, em que a novela se inspirava, foi proibida na data marcada para a estreia, 22/7/1965; os militares consideraram que "induzia ao desprestígio das Forças Armadas", expressão do art. 41 do regulamento de 1946 25 3.
  2. 1975: a novela foi impedida de estrear na TV Globo em 27/8/1975, com dezenas de capítulos já gravados (36, segundo Mattos); a emissora leu no Jornal Nacional um editorial sobre a proibição. Segundo Mattos, o SNI descobriu, por grampo ilegal de um telefonema do autor, que a novela retomava a peça vetada 25.
  3. 1985: a nova versão estreou em 24/6/1985, já no governo Sarney, e ainda sofreu cortes; acumulou 597 páginas na Divisão de Censura, a maior parte por "moral e bons costumes" 25.

Literatura e livros proibidos

Resultado de pesquisaFatos documentados

Entre o golpe e o AI-5, a censura a livros foi multifacetada e improvisada, batidas, apreensões, prisões de editores como Ênio Silveira, da Civilização Brasileira, e não havia sistema único; a partir de 1970, o Decreto-Lei 1.077 deu-lhe base legal e procedimento 2.

Quantos livros? Os números variam conforme a fonte e o método; o levantamento mais sistemático é o de Sandra Reimão, publicado em livro em 2011 e resumido em artigo de 2014 26 2:

  • Zuenir Ventura: cerca de 200 livros censurados entre 1968 e 1978 (mesma cifra do levantamento do Centro Cultural São Paulo);
  • Deonísio da Silva, Nos bastidores da censura (1989): 430 livros proibidos pela censura federal durante o regime, cerca de 92 de autores brasileiros;
  • Reimão, a partir do acervo preservado da DCDP e da bibliografia: cerca de 140 livros de autores brasileiros vetados durante a ditadura, dos quais cerca de 100 eróticos/pornográficos, ao menos 18 de não ficção e um grupo de obras literárias.

As cifras não são somáveis: medem universos diferentes (todos os livros ou só de autores brasileiros; período do AI-5 ou toda a ditadura; documentação preservada ou listas bibliográficas) 2 27 28.

Entre as obras de ficção de autores brasileiros vetadas, Reimão lista Zero, de Ignácio de Loyola Brandão; Em câmara lenta, de Renato Tapajós; Aracelli, meu amor, de José Louzeiro; Dez histórias imorais, de Aguinaldo Silva; Feliz Ano Novo, de Rubem Fonseca; e os contos "Mister Curitiba", de Dalton Trevisan, e "O cobrador", de Rubem Fonseca, vetados previamente quando venceram concursos da revista Status (1976 e 1978) 2. Zero, lançado em 1975 no Brasil, foi proibido no ano seguinte e liberado em 1979 29.

Quando foi mais intensa? O acervo da DCDP indica que a censura a livros foi mais rígida entre 1975 e 1980, quando mais de 50% dos livros submetidos foram vetados, isto é, no governo Geisel, justamente quando a censura prévia saía das redações 2. Reimão levanta três hipóteses: o caráter mais moral que político da DCDP (com base em Carlos Fico), a tentativa do órgão de mostrar-se necessário diante da abertura e a autocensura generalizada dos "anos de chumbo", que reduziria o número de obras submetidas 2 30.

Proibição, cortes, apreensão, pressão e autocensura

Explicação conceitualInterpretação historiográfica

A tabela deste verbete resume as cinco formas de censura com exemplos documentados. Duas observações de método:

  • Proibir não é o mesmo que apreender. Livros como Feliz Ano Novo foram publicados, vendidos e só depois examinados e proibidos, com ordem de apreensão dos exemplares à venda 2. Já músicas e peças eram em geral vetadas antes de chegar ao público.
  • A autocensura é real, mas difícil de medir. Bernardo Kucinski, citado por Reimão, observou que uma censura rigorosa "induz ao exercício generalizado da autocensura" 2. A ausência de registros de veto em certo período pode indicar menos censura, ou mais autocensura.

Circulação clandestina e resistência

Fatos documentados

Organizações clandestinas mantiveram jornais que circulavam de mão em mão ou pelo correio, Voz Operária (PCB), A Classe Operária (PCdoB), Política Operária (Polop), Libertação (Ação Popular), O Guerrilheiro (ALN) 16. Letras vetadas eram divulgadas em jornais universitários e shows, como no caso de "Cálice" 18. Livros proibidos no Brasil eram editados no exterior; leitores emprestavam exemplares entre amigos, Reimão lembra que, em certos momentos, "até mesmo comprar, carregar e guardar alguns livros podia ser perigoso" 2. Escritores, editores, livreiros e associações profissionais protestaram publicamente contra a censura 2.

O fim da censura prévia e a Constituição de 1988

Fatos documentadosDocumento de época

A saída da censura foi gradual e desigual:

  • Imprensa: a censura na redação do Estado foi suspensa em 4/1/1975 11; Movimento e O São Paulo ficaram sob censura prévia até junho de 1978 16.
  • AI-5: a Emenda Constitucional nº 11, de 13/10/1978, revogou os atos institucionais e complementares no que contrariassem a Constituição, a partir de 1/1/1979, ressalvados os efeitos dos atos praticados, que continuaram excluídos de apreciação judicial 31.
  • Diversões públicas: a Divisão de Censura continuou atuando depois de 1985; Roque Santeiro foi ao ar em 1985 com cortes 25.
  • Constituição de 1988: o art. 5º, IX, declarou livre a expressão intelectual, artística, científica e de comunicação "independentemente de censura ou licença", e o art. 220, § 2º, vedou "toda e qualquer censura de natureza política, ideológica e artística" 32. Em 30/9/1988, o Decreto 96.900 criou o Conselho Superior de Defesa da Liberdade de Criação e Expressão, com função de classificação indicativa 33. Com a nova Constituição, a DCDP foi desativada e seu acervo transferido ao Arquivo Nacional 2. O regulamento de 1946 só foi formalmente revogado em 1991 3.

Como pesquisar a censura: do AI-5 ao documento original

Explicação conceitual
  1. Comece pela norma. Leia o AI-5, o Decreto-Lei 1.077/1970, a Lei 5.536/1968 e o Decreto 20.493/1946 no portal do Planalto 6 7 5 3.
  2. Identifique o órgão. Ministério da Justiça, Polícia Federal e DCDP; para o Estado Novo, compare com o DIP.
  3. Procure o parecer. O fundo da Divisão de Censura está no Arquivo Nacional, em Brasília 2. Um parecer de censor é documento de época: mostra o critério do órgão, não a qualidade ou o sentido da obra.
  4. Compare com a imprensa. Hemerotecas e acervos de jornais mostram como a proibição foi noticiada (ou silenciada); o Acervo Estadão tem seção dedicada a material censurado 11.
  5. Cruze com a historiografia (Reimão, Kushnir, Aquino, Fico, Deonísio da Silva) antes de generalizar.

Comparações

Tabelas resumem tendências gerais; cada linha simplifica debates que o texto detalha. Classificações sobrepostas não são exclusivas.

Formas de censura na ditadura militar
CritérioO que éExemplo documentado
Proibição formalAto de autoridade que veta publicação, encenação, exibição ou execuçãoCalabar (1973), proibida antes da estreia e encenada só em 1980
CortesLiberação condicionada à supressão de trechosRoque Santeiro (1985), exibida com cortes por 'moral e bons costumes'
ApreensãoRecolhimento de exemplares já em circulaçãoFeliz Ano Novo (1976); parte da edição de Ex sobre Herzog (1975)
Censura prévia na redaçãoCensores leem e cortam antes da impressãoO Estado de S. Paulo (até 1975); Movimento (até 1978)
Pressão informal e violênciaPressão econômica, ameaças, atentados, ataques paramilitaresFechamento da TV Excelsior; ataque ao Teatro Galpão (1968); bombas em bancas (1979–1981)
AutocensuraRenúncia antecipada a publicar o que seria vetadoHipótese de Reimão e Kucinski para o menor número de vetos nos 'anos de chumbo'

As categorias se sobrepõem: uma mesma obra pode ter sido cortada, proibida e apreendida em momentos diferentes. Fontes: Calabar (peça de teatro), 'Roque Santeiro' revela como censura atua durante e após ditadura, "Proíbo a publicação e circulação...", censura a livros na ditadura militar, Os jornais da época (imprensa alternativa), História do Grupo, década de 1970 (Acervo Estadão), O surgimento da imprensa alternativa e seu fim repentino, Invadido e depredado o Teatro Galpão (Folha de S.Paulo, 19/7/1968).

Responsabilidades e grau de prova

Ocupar um cargo não prova participação pessoal em cada crime. A tabela diz o que cada fonte afirma e com que grau de prova.

SobreGrau de provaO que a fonte afirmaFonte
Decreto-Lei 1.077/1970 (censura prévia a livros e periódicos)Documento de épocaO decreto-lei é assinado por Emílio G. Médici e pelo ministro da Justiça Alfredo Buzaid.Decreto-Lei nº 1.077, de 26 de janeiro de 1970

No portal Ditaduras no Brasil

Ditadura de 1964–1985 · República de 1946 (1946–1964) · Transição e Nova República (1985–) · Nacional, Sudeste (SP, RJ, DF, RS)

Censura e propagandaCultura e cotidianoGovernos e instituiçõesResistências

Citações

Cada citação traz o grau de confirmação: frase famosa sem fonte localizada não é tratada como autêntica.

Cronologia

  1. 24 de janeiro de 1946

    Decreto 20.493 aprova o Regulamento do Serviço de Censura de Diversões Públicas.3

  2. maio de 1964

    Lançada a revista Pif Paf, depois apreendida.16

  3. 22 de julho de 1965

    Proibida a estreia da peça O Berço do Herói, de Dias Gomes.25

  4. 9 de fevereiro de 1967

    Lei de Imprensa (Lei 5.250).4

  5. fevereiro de 1968

    Ato 'Cultura contra Censura' no Rio contra a proibição de oito peças.2

  6. 18 de julho de 1968

    Ataque ao Teatro Galpão durante Roda Viva, em São Paulo.23

  7. 21 de novembro de 1968

    Lei 5.536 regula a censura de teatro e cinema e cria o Conselho Superior de Censura.5

  8. 13 de dezembro de 1968

    AI-5; O Estado de S. Paulo é impedido de circular e censores ocupam a redação.10

  9. junho de 1969

    Surge O Pasquim.16

  10. 26 de janeiro de 1970

    Decreto-Lei 1.077 institui verificação prévia de livros e periódicos.7

  11. 24 de fevereiro de 1970

    Instrução 1-70 isenta obras técnicas, científicas e as que não tratem de sexo e moral.2

  12. 1973

    Vetos a 'Cálice' e 'Flor da idade'; proibição de Calabar.18

  13. 4 de janeiro de 1975

    Suspensa a censura na redação do Estado de S. Paulo.11

  14. 27 de agosto de 1975

    Roque Santeiro é impedida de estrear na TV Globo.25

  15. 1976

    Proibição e apreensão de Feliz Ano Novo, de Rubem Fonseca.2

  16. 5 de junho de 1978

    Fim da censura prévia ao semanário Movimento (edição 153).16

  17. 13 de outubro de 1978

    Emenda Constitucional 11 revoga os atos institucionais a partir de 1/1/1979.31

  18. 1980

    Estreia de Calabar, sete anos após a proibição.21

  19. 24 de junho de 1985

    Estreia de Roque Santeiro, ainda com cortes da Divisão de Censura.25

  20. 30 de setembro de 1988

    Decreto 96.900 cria o Conselho Superior de Defesa da Liberdade de Criação e Expressão.33

  21. 5 de outubro de 1988

    Constituição veda a censura política, ideológica e artística.32

Bibliografia comentada

  • Sandra Reimão. "Proíbo a publicação e circulação...", censura a livros na ditadura militar (2014)

    Artigo aberto (SciELO) com dados do acervo da DCDP sobre livros vetados, comparação de números e hipóteses sobre a cronologia da censura.

  • Beatriz Kushnir. Cães de guarda: jornalistas e censores, do AI-5 à Constituição de 1988

    Estudo de referência sobre censores e jornalistas do AI-5 à Constituição de 1988, incluindo a colaboração de parte da imprensa.

  • Maria Aparecida de Aquino. Censura, imprensa, Estado autoritário (1968-1978): o exercício cotidiano da dominação e da resistência, O Estado de S. Paulo e Movimento

    Análise clássica da censura prévia ao Estado de S. Paulo e ao Movimento.

  • Deonísio da Silva. Nos bastidores da censura: sexualidade, literatura e repressão pós-64 (1989)

    Primeiro grande levantamento de livros proibidos (430, cerca de 92 de autores brasileiros).

  • Laura Mattos. Herói mutilado: Roque Santeiro e os bastidores da censura à TV na ditadura (2019)

    Reconstrução documental das três censuras a Roque Santeiro (1965, 1975, 1985).

Fontes

“Consultada” indica que o endereço foi aberto na data informada. “Referência bibliográfica” indica obra citada sem conferência de página nesta versão.

  1. 1Memórias da Ditadura (Instituto Vladimir Herzog). O cinema nos anos 1970: censura e patrocínio estatal.[Obra de referência · consultada em 19 de outubro de 2026]
  2. 2Sandra Reimão. "Proíbo a publicação e circulação...", censura a livros na ditadura militar. Estudos Avançados, São Paulo, v. 28, n. 80, p. 75-90, 2014.[Historiografia · consultada em 19 de outubro de 2026]DOI exibido na página: 10.1590/S0103-40142014000100008. Versão modificada de trechos do livro Repressão e resistência (Edusp/Fapesp, 2011).
  3. 3Presidência da República. Decreto nº 20.493, de 24 de janeiro de 1946 (Regulamento do Serviço de Censura de Diversões Públicas). 1946.[Fonte primária · consultada em 19 de outubro de 2026]
  4. 4Presidência da República. Lei nº 5.250, de 9 de fevereiro de 1967 (Lei de Imprensa). 1967.[Fonte primária · consultada em 19 de outubro de 2026]
  5. 5Presidência da República. Lei nº 5.536, de 21 de novembro de 1968 (censura de obras teatrais e cinematográficas; cria o Conselho Superior de Censura). 1968.[Fonte primária · consultada em 19 de outubro de 2026]
  6. 6Presidência da República. Ato Institucional nº 5, de 13 de dezembro de 1968. 1968.[Fonte primária · consultada em 19 de outubro de 2026]
  7. 7Presidência da República (Emílio G. Médici; Alfredo Buzaid). Decreto-Lei nº 1.077, de 26 de janeiro de 1970. 1970.[Fonte primária · consultada em 19 de outubro de 2026]
  8. 8Memórias da Ditadura (Instituto Vladimir Herzog); documento do Serviço de Censura de Diversões Públicas, fundo Arquivo Nacional. Censura à canção 'Flor da idade' de Chico Buarque de Hollanda (documento, jun. 1973).[Arquivo · consultada em 19 de outubro de 2026]
  9. 9Memórias da Ditadura (Instituto Vladimir Herzog). O surgimento da imprensa alternativa e seu fim repentino.[Obra de referência · consultada em 19 de outubro de 2026]
  10. 10Acervo Estadão. História do Grupo, década de 1960 (Acervo Estadão).[Imprensa · consultada em 19 de outubro de 2026]
  11. 11Acervo Estadão. História do Grupo, década de 1970 (Acervo Estadão).[Imprensa · consultada em 19 de outubro de 2026]
  12. 12Memórias da Ditadura (Instituto Vladimir Herzog). O jornalismo: entre a realidade e a voz oficial.[Obra de referência · consultada em 19 de outubro de 2026]
  13. 13Memórias da Ditadura (Instituto Vladimir Herzog). A consolidação da TV no país.[Obra de referência · consultada em 19 de outubro de 2026]
  14. 14Beatriz Kushnir. Cães de guarda: jornalistas e censores, do AI-5 à Constituição de 1988. Boitempo, São Paulo.[Historiografia · referência bibliográfica]Obra de referência sobre censura à imprensa e colaboração de jornalistas. Não consultada nesta redação.
  15. 15Maria Aparecida de Aquino. Censura, imprensa, Estado autoritário (1968-1978): o exercício cotidiano da dominação e da resistência, O Estado de S. Paulo e Movimento.[Historiografia · referência bibliográfica]Referência clássica sobre censura prévia ao Estadão e ao Movimento. Não consultada nesta redação; editora e ano não conferidos.
  16. 16Memórias da Ditadura (Instituto Vladimir Herzog). Os jornais da época (imprensa alternativa).[Obra de referência · consultada em 19 de outubro de 2026]
  17. 17Memórias da Ditadura (Instituto Vladimir Herzog). Festival Internacional da Canção Popular (FIC).[Obra de referência · consultada em 19 de outubro de 2026]
  18. 18Memórias da Ditadura (Instituto Vladimir Herzog). Da MPM à MPB.[Obra de referência · consultada em 19 de outubro de 2026]
  19. 19Memórias da Ditadura (Instituto Vladimir Herzog). Para além dos movimentos musicais.[Obra de referência · consultada em 19 de outubro de 2026]
  20. 20Memórias da Ditadura (Instituto Vladimir Herzog). Política, crítica social, experimentalismos e humor (teatro).[Obra de referência · consultada em 19 de outubro de 2026]
  21. 21Memórias da Ditadura (Instituto Vladimir Herzog). Calabar (peça de teatro).[Obra de referência · consultada em 19 de outubro de 2026]
  22. 22Globo Teatro. Bis!: 'Roda Viva' é um marco do teatro nacional. 2013.[Imprensa · consultada em 19 de outubro de 2026]
  23. 23Folha de S.Paulo (Banco de Dados Folha). Invadido e depredado o Teatro Galpão (Folha de S.Paulo, 19/7/1968). 1968.[Imprensa · consultada em 19 de outubro de 2026]Reprodução de reportagem de época no Almanaque Folha.
  24. 24Memórias da Ditadura (Instituto Vladimir Herzog). A luta por um cinema brasileiro.[Obra de referência · consultada em 19 de outubro de 2026]
  25. 25Laura Mattos (Folha de S.Paulo, Ilustríssima). 'Roque Santeiro' revela como censura atua durante e após ditadura. 2019.[Imprensa · consultada em 19 de outubro de 2026]Resumo do livro 'Herói Mutilado', publicado em 22/9/2019. Texto aberto parcialmente (acesso para assinantes).
  26. 26Sandra Reimão. Repressão e resistência: censura a livros na ditadura militar. Edusp; Fapesp, São Paulo, 2011.[Historiografia · referência bibliográfica]
  27. 27Deonísio da Silva. Nos bastidores da censura: sexualidade, literatura e repressão pós-64. Estação Liberdade, São Paulo, 1989.[Historiografia · referência bibliográfica]Dados bibliográficos conforme as referências de Reimão (2014). Os números citados neste verbete vêm da síntese de Reimão, não de consulta direta.
  28. 28Zuenir Ventura. 1968: o ano que não terminou. Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1988.[Historiografia · referência bibliográfica]Estimativas citadas via Reimão (2014), que remete à p. 285 da 17ª ed.
  29. 29Memórias da Ditadura (Instituto Vladimir Herzog). Romances, poesia e crítica literária.[Obra de referência · consultada em 19 de outubro de 2026]
  30. 30Carlos Fico. "Prezada Censura": cartas ao regime militar. Topoi, Revista de História, Rio de Janeiro, n. 5, p. 251-286, 2002.[Historiografia · referência bibliográfica]Dados conforme as referências de Reimão (2014). Não consultado diretamente.
  31. 31Mesas da Câmara dos Deputados e do Senado Federal. Emenda Constitucional nº 11, de 13 de outubro de 1978. 1978.[Fonte primária · consultada em 19 de outubro de 2026]
  32. 32Assembleia Nacional Constituinte. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. 1988.[Fonte primária · consultada em 19 de outubro de 2026]
  33. 33Presidência da República. Decreto nº 96.900, de 30 de setembro de 1988 (Conselho Superior de Defesa da Liberdade de Criação e Expressão). 1988.[Fonte primária · consultada em 19 de outubro de 2026]
  34. 34Laura Mattos. Herói mutilado: Roque Santeiro e os bastidores da censura à TV na ditadura. 2019.[Historiografia · referência bibliográfica]Livro resumido no artigo da Folha (22/9/2019). Subtítulo e editora não conferidos.

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Histórico e revisão

Estado
Publicado
Autoria
Redação UP, rascunho assistido por IA
Criado em
19 de outubro de 2026
Atualizado em
19 de outubro de 2026
Extensão
3.268 palavras · 34 fontes
Revisão humana
Tiago Moura Cesar do Nascimento
  1. 20 de outubro de 2026 · revisao editorialRevisão e publicação no Exército Lula.Tiago Moura Cesar do Nascimento
  2. 19 de outubro de 2026 · redacaoPesquisado: textos legais no Planalto (Decreto 20.493/1946, Lei 5.250/1967, Lei 5.536/1968, AI-5, DL 1.077/1970, EC 11/1978, CF/1988, Decreto 96.900/1988); artigo de Sandra Reimão (Estudos Avançados, 2014, SciELO); Acervo Estadão (décadas de 1960 e 1970); páginas do projeto Memórias da Ditadura (IVH) sobre imprensa alternativa, música, teatro, cinema, TV e literatura; Folha de 19/7/1968 (Almanaque Folha); Globo Teatro (2013); Folha/Ilustríssima sobre Roque Santeiro (2019, acesso parcial). Wikipédia só como orientação. Pendências: (1) confirmar a data de instalação efetiva do Conselho Superior de Censura (citada na historiografia como fim dos anos 1970; não incluída por falta de fonte aberta); (2) confirmar a nomenclatura exata e as datas de SCDP/DCDP (serviço × divisão × departamento); (3) conferir a ADPF 130 (STF) e seu resultado; (4) localizar no SIAN a notação do fundo DCDP no Arquivo Nacional; (5) consultar Kushnir e Aquino para as ordens telefônicas e 'bilhetinhos' às redações (não incluídas por falta de fonte aberta); (6) conferir o número de capítulos gravados de Roque Santeiro (36 segundo Mattos; 30 em outras fontes); (7) conferir divergência '20' × 'cem' agressores no Teatro Galpão. Busca na web encerrada por limite; demais URLs abertas diretamente. Imagens candidatas (não incluídas): parecer de censura de 'Flor da idade' (Arquivo Nacional, indicado como domínio público pelo Memórias da Ditadura, conferir licença).Redação assistida por IA (Claude), sem revisão humana

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Como citar: Censura na ditadura militar. In: Enciclopédia do Exército Lula. Versão de 20 de outubro de 2026. Disponível em: https://exercitolula.com.br/enciclopedia/censura-na-ditadura-militar.

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