Adam Smith
Filósofo moral e economista escocês (1723–1790)
Filósofo moral escocês (Kirkcaldy, 1723 – Edimburgo, 1790), autor da Teoria dos sentimentos morais (1759) e de A riqueza das nações (1776). Tratado como fundador da economia política clássica, é lido de modos opostos por liberais, social-democratas e marxistas.
Também: Adão Smith (grafia antiga em português)
Índice e ficha
- Nome completo
- Adam Smith
- Nascimento
- junho de 1723, Kirkcaldy, Fife, Escócia (Reino da Grã-Bretanha)
- Morte
- 17 de julho de 1790, Edimburgo, Escócia
- Nacionalidade
- Britânica (escocesa)
- Papéis
- Professor de Lógica e de Filosofia Moral da Universidade de GlasgowIntelectual · 1751–1764
- Tutor do 3º duque de Buccleuch na viagem à FrançaOutro papel · 1764–1766
- Comissário da alfândega na EscóciaOutro papel · 1778–1790
- Reitor da Universidade de GlasgowOutro papel · 1787–1789
- Como se definia
- Não usava os termos "capitalismo" nem "liberalismo econômico", que são posteriores; falava em "sistema de liberdade natural" e se via como filósofo moral.
- Período
- 1723–1790
- Área
- Capitalismo
- Regiões
- Europa, Internacional
- Temas
- Teoria e conceitos, Economia e organização social, Movimento operário e sindical, Anticolonialismo e libertação nacional
Adam Smith (batizado em Kirkcaldy, Escócia, em 5 de junho de 1723 pelo calendário então vigente – Edimburgo, 17 de julho de 1790) foi um filósofo moral e economista escocês, figura central do Iluminismo escocês 1 2. Professor da Universidade de Glasgow entre 1751 e 1764, publicou a Teoria dos sentimentos morais (1759) e, depois de uma longa viagem à França e de uma década de redação, Uma investigação sobre a natureza e as causas da riqueza das nações (1776), obra que a tradição passou a tratar como marco fundador da economia política clássica 1.
A posteridade fez de Smith muitas coisas: patrono do livre mercado, crítico precoce dos monopólios e do poder dos patrões, moralista preocupado com a corrupção dos sentimentos pela riqueza, teórico de um Estado limitado mas atuante. Este verbete separa o que está documentado na vida e nos textos dele das leituras posteriores, inclusive das frases que lhe são atribuídas sem fonte.
Origem e formação: Kirkcaldy, Glasgow e Oxford
A data exata de nascimento de Smith é desconhecida; o registro de batismo em Kirkcaldy, pequena cidade portuária do condado de Fife, é de 5 de junho de 1723 no calendário juliano então usado na Grã-Bretanha (16 de junho no calendário gregoriano), e essa data costuma ser tratada como a do nascimento 2. O pai, também chamado Adam Smith, advogado e controlador da alfândega de Kirkcaldy, morreu antes do nascimento do filho; o menino foi criado pela mãe, Margaret Douglas 1.
Em 1737, aos 14 anos, entrou na Universidade de Glasgow, então com cerca de duzentos estudantes, e, por dominar o latim, foi admitido diretamente no segundo ano. Estudou lógica, metafísica, matemática, física newtoniana e filosofia moral; entre seus professores estava Francis Hutcheson, filósofo moral cuja influência ele reconheceria. Como era comum na época, não se graduou formalmente 3.
Em 1740 recebeu a bolsa Snell e seguiu para o Balliol College, em Oxford, onde ficou até agosto de 1746 1 3. Os biógrafos descrevem a passagem por Oxford como pouco estimulante intelectualmente, e Smith deixou a universidade antes do fim da bolsa 2 4.
Conferências em Edimburgo e cátedra em Glasgow (1748–1764)
De volta à Escócia, Smith passou cerca de dois anos em Kirkcaldy. A partir de novembro de 1748 deu conferências públicas em Edimburgo, primeiro sobre retórica e belas-letras, depois sobre história da filosofia e jurisprudência; trabalhou como conferencista independente até 1751. Nesse período tornou-se amigo de David Hume, com quem manteria uma das amizades intelectuais mais importantes do Iluminismo escocês 1.
Em janeiro de 1751 foi eleito para a cátedra de Lógica da Universidade de Glasgow, que assumiu em outubro, e em abril de 1752 passou à cátedra de Filosofia Moral, que ocuparia até 1764 1. O curso cobria teologia natural, ética, jurisprudência e as instituições políticas; as anotações de alunos de 1762–63, publicadas no século XX como Lições sobre jurisprudência, mostram que boa parte do material de A riqueza das nações já circulava nas aulas 5. A universidade registra também funções administrativas: Smith foi quaestor (responsável pela compra de livros da biblioteca, 1758–60), deão da faculdade (1760–62) e vice-reitor (1763) 3.
Os professores escoceses recebiam parte da renda diretamente das taxas pagas pelos alunos, e a reputação de Smith atraiu estudantes da Suíça, da Rússia e das colônias norte-americanas. A universidade também destaca a participação dele em clubes e sociedades literárias da cidade, onde se discutiam comércio e política, ambiente que alimentou A riqueza das nações 3.
A Teoria dos sentimentos morais (1759)
Publicada em 1759 a partir das aulas de ética, a Teoria dos sentimentos morais (TMS) foi o livro que deu fama a Smith em vida; ele a revisou até a sexta edição, de 1790 5 3.
O ponto de partida é a simpatia, entendida como capacidade de nos imaginarmos na situação do outro. Diferentemente de Hume, para quem os sentimentos se transmitem de uma pessoa a outra, Smith descreve a simpatia como um movimento projetivo da imaginação; isso deixa uma distância entre o que o outro sente e o que imaginamos que sentiríamos, e é essa distância que nos permite julgar se um sentimento é adequado à situação 5.
Daí vem a figura do espectador imparcial: um sentimento é moralmente aprovado quando um espectador bem informado e desinteressado simpatizaria com ele. Pela socialização, cada pessoa internaliza esse espectador e pode usá-lo, inclusive, para criticar os costumes da própria sociedade. Regras gerais, formadas a partir de juízos particulares, protegem contra as violações mais graves e sustentam a justiça; a virtude vai além delas 5.
A TMS contém também uma reflexão sobre a riqueza que costuma ser esquecida: Smith trata a admiração pelos ricos e poderosos como fonte de ordem social e, ao mesmo tempo, como causa importante da corrupção dos sentimentos morais (paráfrase; o trecho, acrescentado na edição de 1790, deve ser conferido na edição crítica), tema que leitores como Emma Rothschild usam para afastar a imagem de um Smith entusiasta da acumulação 6. Na parte IV, capítulo 1, aparece a primeira das duas ocorrências da expressão "mão invisível" (ver adiante) 7 8.
Tutor do duque de Buccleuch e a viagem à França (1764–1766)
No fim de 1763, Smith aceitou o convite do político Charles Townshend para ser tutor do jovem Henry Scott, 3º duque de Buccleuch, enteado de Townshend, numa viagem pelo continente. O cargo pagava bem mais que a cátedra e incluía uma pensão vitalícia; em janeiro de 1764 Smith renunciou à cátedra de Glasgow 1 2.
A viagem passou por Toulouse, onde ficaram mais de um ano, e onde, segundo os biógrafos, Smith começou a trabalhar no livro que viria a ser A riqueza das nações, por Genebra, onde Smith visitou Voltaire, e por Paris 2 4. Em Paris, frequentou os salões e conheceu os fisiocratas, em especial François Quesnay, autor do Quadro econômico, e Anne-Robert-Jacques Turgot 1. A fisiocracia sustentava que só a agricultura gerava um excedente líquido e defendia a liberdade de comércio de grãos; Smith compartilhou a crítica ao mercantilismo e a ideia de uma ordem econômica natural, mas rejeitou a tese de que a manufatura fosse estéril, ponto discutido no Livro IV de A riqueza das nações 9.
A viagem terminou em outubro de 1766, depois da morte, em Paris, do irmão mais novo do duque, que acompanhava o grupo 1 2.
A riqueza das nações (1776)
De volta, Smith passou cerca de dez anos sobretudo em Kirkcaldy, com estadias em Londres, redigindo o livro que saiu em março de 1776 1. A obra tem verbete próprio: A riqueza das nações. Aqui se resumem os argumentos que mais pesaram na imagem de Smith.
Divisão do trabalho. O Livro I abre com o exemplo da fábrica de alfinetes: dez homens, divididos em cerca de dezoito operações, faziam mais de 48 mil alfinetes por dia, enquanto cada um, sozinho, talvez não fizesse vinte 10. A divisão do trabalho, limitada pela extensão do mercado, seria a principal fonte do aumento da produtividade.
Interesse próprio e troca. No capítulo 2 está a frase sobre o açougueiro, o cervejeiro e o padeiro, de cuja benevolência não esperamos o jantar, e sim do cuidado que têm com o próprio interesse, argumento sobre a troca entre estranhos, não uma teoria geral de que as pessoas só agem por egoísmo 9.
Salários e conflito. No capítulo 8, Smith observa que, nas disputas entre patrões e trabalhadores, os patrões podem resistir mais tempo e estão "sempre e em toda parte" numa espécie de coligação tácita para não elevar salários; e afirma que nenhuma sociedade pode ser florescente e feliz se a maior parte de seus membros é pobre e miserável 11.
Crítica do mercantilismo. O Livro IV ataca o "sistema mercantil", tarifas, proibições, subsídios e monopólios coloniais pensados para acumular metal precioso e favorecer comerciantes e manufatureiros. A alternativa é o que Smith chamou de sistema de liberdade natural 1, no qual o soberano conserva três deveres: defesa, justiça e certas obras e instituições públicas que não seriam lucrativas para particulares (Livro V) 12 5.
Teoria do valor e da distribuição. Smith formulou uma teoria em que o trabalho é medida do valor e distinguiu salários, lucros e rendas da terra como as três formas de renda. Essas formulações, ambíguas em vários pontos, foram reelaboradas por David Ricardo 13 e criticadas por Marx nas Teorias da mais-valia 14 (ver Economia política clássica).
A "mão invisível": o que Smith escreveu
A expressão que hoje resume Smith para muitos leitores aparece uma vez em cada um dos dois livros que ele publicou:
- Na Teoria dos sentimentos morais (parte IV, cap. 1), a propósito de um proprietário rural que consome pouco mais do que os pobres: ao empregar outros para satisfazer seus caprichos, os ricos seriam "levados por uma mão invisível" a fazer uma distribuição das coisas necessárias à vida quase igual à que existiria se a terra fosse dividida em partes iguais 7 8. O contexto é a distribuição e a ilusão da riqueza, não o mercado em geral.
- Em A riqueza das nações (Livro IV, cap. 2), sobre restrições à importação: o comerciante que prefere investir no próprio país, buscando a própria segurança e o próprio ganho, "é levado por uma mão invisível a promover um fim que não fazia parte de sua intenção". Logo depois, Smith acrescenta que, ao perseguir o próprio interesse, ele frequentemente promove o da sociedade de modo mais eficaz do que quando pretende fazê-lo, e que nunca viu muito bem ser feito por quem fingia comerciar pelo bem público 15.
Interpretações. O peso da metáfora é disputado. Para alguns autores, ela condensa a ideia de ordem não intencional que liberais como Hayek destacariam; para outros, como Emma Rothschild, Smith a usou com ironia e sem a importância que lhe foi dada depois 6. Há também quem lembre que, em A riqueza das nações, o argumento é estreito, trata da preferência do capitalista pelo investimento doméstico, e não uma tese geral de não intervenção. A popularização da expressão como síntese do funcionamento dos mercados é sobretudo do século XX; o manual Economics de Paul Samuelson (1948) costuma ser apontado como marco dessa difusão 7.
Regra deste verbete: frases atribuídas a Smith que não estão nesses dois trechos, por exemplo, versões que falam da "mão invisível do mercado", não são dele.
Estado, educação e os custos da divisão do trabalho
O Livro V de A riqueza das nações, sobre as despesas e receitas do soberano, mostra um Smith menos lembrado. Ali ele escreve que o trabalhador cuja vida se passa executando umas poucas operações simples "geralmente se torna tão estúpido e ignorante quanto é possível a uma criatura humana se tornar", e que, numa sociedade civilizada, esse é o estado em que cairão os trabalhadores pobres a menos que o governo se esforce para evitá-lo 16.
Como remédio, propõe que o poder público mantenha em cada paróquia ou distrito uma pequena escola, com mensalidades baixas o bastante para os filhos de trabalhadores comuns, pagando ao professor apenas parte do salário (para não estimular o desleixo), e que se exija um exame elementar de leitura, escrita e aritmética antes que alguém possa entrar numa corporação de ofício ou estabelecer-se num negócio 16.
Samuel Fleischacker resume a posição política de Smith como desconfiada dos motivos e da competência dos governantes, favorável a um governo limitado e hostil às políticas mercantilistas que favoreciam setores específicos, mas compatível com obras públicas, educação, certa redistribuição e ajuda aos pobres; Smith se opunha a tetos salariais e via os impostos como sinal de liberdade, não de servidão 5. O mesmo verbete destaca que, para Smith, os comerciantes conhecem melhor do que o Estado os próprios negócios, mas por isso mesmo o governo não deve ser entregue a eles 5.
Colônias, companhias privilegiadas e escravidão
Colônias. No Livro IV, cap. 7, Smith afirma que a descoberta da América e a da passagem para as Índias Orientais pelo cabo da Boa Esperança são "os dois maiores e mais importantes acontecimentos registrados na história da humanidade". Mas acrescenta que, para os nativos das Índias Orientais e Ocidentais, os benefícios comerciais desses acontecimentos foram afundados nas terríveis desgraças que eles provocaram, atribuídas à superioridade de força que permitiu aos europeus cometer impunemente toda espécie de injustiça em terras distantes; e especula que uma igualdade de forças, favorecida pela difusão do conhecimento pelo comércio, poderia um dia conter essas injustiças 17.
O mesmo capítulo satiriza a ideia de fundar um grande império só para criar um povo de fregueses, projeto que, segundo Smith, convém menos a uma nação de lojistas do que a uma nação cujo governo é influenciado por lojistas, e descreve o monopólio do comércio colonial como algo que prejudica a própria metrópole. Smith discute a hipótese de a Grã-Bretanha renunciar voluntariamente à autoridade sobre as colônias, mas a apresenta como medida que nenhuma nação jamais adotou nem adotaria, por orgulho e pelo interesse das elites nos cargos coloniais 17.
Companhias privilegiadas. Smith chama as companhias de comércio exclusivo de "nocivas em todos os sentidos" e critica duramente a Companhia Inglesa das Índias Orientais, que considerava inapta para governar territórios e cujos acionistas, segundo ele, eram indiferentes à felicidade ou à miséria dos súditos 17 12. No mesmo capítulo critica a política dos holandeses nas ilhas Molucas (ver Companhia Holandesa das Índias Orientais (VOC)) 17.
Escravidão. No Livro III, Smith sustenta que o trabalho feito por escravos, embora pareça custar apenas o sustento deles, é no fim o mais caro de todos, porque quem não pode adquirir propriedade não tem interesse em trabalhar mais do que o necessário. Explica a persistência da escravidão não pelo cálculo econômico, mas pelo orgulho humano, que faz o homem "gostar de dominar": onde a lei permite e a atividade suporta o custo, o senhor prefere escravos a homens livres. Observa que o cultivo de açúcar e de tabaco podia arcar com o custo do trabalho escravo, enquanto o de trigo não; e interpreta a decisão dos quakers da Pensilvânia de libertar seus escravos como sinal de que estes não eram parte importante da riqueza deles 18.
Como isso é lido. Esses trechos sustentam leituras de Smith como crítico do império e da escravidão, mas um crítico que argumenta sobretudo pela ineficiência e pela injustiça, sem propor abolição imediata nem descolonização, e que via o comércio como motor de uma futura igualdade entre povos. A relação entre a riqueza de Glasgow, o comércio de tabaco e açúcar produzidos por escravizados e o ambiente intelectual em que Smith viveu é tema de pesquisa recente e é tratada no debate Escravidão e capitalismo.
Comissário da alfândega e últimos anos (1778–1790)
Em 1778, Smith foi nomeado comissário da alfândega na Escócia e mudou-se para Edimburgo com a mãe e uma prima, passando a viver em Panmure House, no bairro de Canongate 1 2. O autor do mais conhecido ataque ao protecionismo passou, portanto, a última década da vida administrando a cobrança de tarifas, fato que biógrafos registram sem ver nele contradição, já que Smith defendia tributos e certas tarifas com finalidade de receita 4.
Continuou revisando suas obras: A riqueza das nações ganhou novas edições, e a sexta edição da TMS, com acréscimos importantes, saiu no ano de sua morte. Em 1787 foi eleito reitor (Lord Rector) da Universidade de Glasgow, cargo sobretudo honorífico que ocupou até 1789; numa carta de agradecimento, descreveu os anos de professor em Glasgow como o período mais útil e mais feliz de sua vida 3.
Morreu em Edimburgo em 17 de julho de 1790 e foi sepultado no cemitério de Canongate. Antes de morrer, pediu que a maior parte de seus manuscritos fosse queimada, o que foi feito; entre os textos perdidos estava a teoria sistemática da justiça que ele planejava havia décadas 2 5. Os Ensaios sobre temas filosóficos foram publicados postumamente em 1795 5.
O "problema Adam Smith"
No fim do século XIX, economistas e filósofos de língua alemã formularam o chamado Das Adam Smith Problem: como conciliar o autor da TMS, que funda a moral na simpatia, com o de A riqueza das nações, que parte do interesse próprio? August Oncken é apontado entre os primeiros a apresentar a questão nesses termos 19.
A maior parte da pesquisa posterior considera o "problema" mal colocado. Os editores da edição crítica de Glasgow argumentaram que a TMS nunca reduziu a conduta humana à benevolência e que A riqueza das nações não a reduz ao egoísmo; ambos os livros foram revisados em paralelo por Smith até 1790 8. Autores como Donald Winch e Emma Rothschild leem os dois como partes de um mesmo projeto de ciência moral e política, em que o mercado está inserido em instituições, costumes e regras de justiça 20 6. O verbete de Fleischacker na Stanford Encyclopedia of Philosophy trata a obra moral e a econômica como contínuas, ligadas pela teoria da justiça e pela desconfiança em relação ao poder concentrado 5.
Recepção: liberais, social-democratas e marxistas
Leitura liberal de mercado. Do século XIX em diante, Smith tornou-se referência do livre comércio e do liberalismo econômico. O History of Economic Thought Website observa que a reputação dele hoje se apoia mais na defesa de políticas, o "sistema de liberdade natural" contra o mercantilismo, do que na consistência teórica, e menciona a influência de A riqueza das nações sobre as reformas fiscais e comerciais de William Pitt nos anos 1780 1. Friedrich Hayek destacou em Smith a ideia de que o conhecimento relevante está disperso entre os agentes locais, e não concentrado no governante 5. Na versão popular desse legado, Smith aparece como defensor do Estado mínimo, imagem que o próprio Fleischacker considera parcialmente correta, mas apoiada em fundamentos morais diferentes dos libertários contemporâneos 5.
Leituras social-democratas e "de esquerda". Desde os anos 1970, historiadores do pensamento têm insistido no Smith dos salários, da educação pública, da crítica aos monopólios e às coligações patronais. Emma Rothschild, em Economic Sentiments (2001), argumenta que a associação de Smith a um liberalismo conservador foi produzida sobretudo depois da Revolução Francesa, e o lê ao lado de Condorcet como pensador iluminista preocupado com a liberdade e a segurança dos pobres 6. Amartya Sen recorre ao espectador imparcial para pensar uma justiça aberta a perspectivas de fora de cada sociedade 21 5.
Leituras marxistas. Marx tratou Smith como um dos fundadores da economia política "clássica", que levou a análise do valor ao trabalho mas não explicou de modo consistente a origem do lucro; as Teorias da mais-valia dedicam longos capítulos a ele 14 (ver Mais-valia). Giovanni Arrighi, em Adam Smith em Pequim (2007), propôs ler Smith como teórico de um desenvolvimento baseado no mercado mas não necessariamente capitalista, e usou essa leitura para interpretar a ascensão econômica da China e do Leste Asiático 22.
Estado da questão. Não existe "um" Smith consensual. Há acordo amplo sobre o que ele escreveu nos trechos citados neste verbete; o desacordo está no peso relativo de cada trecho e no uso político que se faz dele.
Legado
Smith é apresentado nos manuais como fundador da economia como disciplina, ainda que o History of Economic Thought Website lembre que a teoria dele teve poucos continuadores imediatos na Grã-Bretanha e que foram franceses como Jean-Baptiste Say e, depois, David Ricardo (1817) que a sistematizaram 1. Sua filosofia moral, por muito tempo ofuscada pela obra econômica, ganhou novo interesse a partir dos anos 1970 com a edição crítica de Glasgow 8.
Na América Latina, Smith chegou sobretudo pela via do liberalismo econômico do século XIX, e foi relido, no século XX, por autores que discutiram por que o "sistema de liberdade natural" não produziu, na periferia, os resultados prometidos (ver Estruturalismo latino-americano e Celso Furtado). Os conceitos de Mercado, concorrência e trabalho assalariado que ele ajudou a formular são tratados em verbetes próprios.
Citações
Cada citação traz o grau de confirmação: frase famosa sem fonte localizada não é tratada como autêntica.
- Tradução de texto localizado
“[...] é levado por uma mão invisível a promover um fim que não fazia parte de sua intenção.”
he is in this, as in many other cases, led by an invisible hand to promote an end which was no part of his intention.
A riqueza das nações (1776), Livro IV, cap. 2, sobre o comerciante que prefere investir no próprio país.
Tradução da redação a partir do texto inglês do MIA.
Fonte: A riqueza das nações, Livro IV, cap. 2, sobre as restrições à importação (texto inglês no MIA)
- Tradução de texto localizado
“Os patrões estão sempre e em toda parte numa espécie de coligação tácita, mas constante e uniforme [...]”
Masters are always and everywhere in a sort of tacit, but constant and uniform combination [...]
A riqueza das nações (1776), Livro I, cap. 8, "Dos salários do trabalho". A frase continua dizendo que a coligação visa impedir a alta dos salários.
Tradução da redação; só o trecho transcrito foi conferido na fonte.
Fonte: A riqueza das nações, Livro I, cap. 8, "Of the Wages of Labour" (texto inglês no MIA)
- Tradução de texto localizado
“Nenhuma sociedade pode, certamente, ser florescente e feliz se a maior parte de seus membros é pobre e miserável.”
No society can surely be flourishing and happy, of which the far greater part of the members are poor and miserable.
A riqueza das nações (1776), Livro I, cap. 8.
Fonte: A riqueza das nações, Livro I, cap. 8, "Of the Wages of Labour" (texto inglês no MIA)
Cronologia
5 de junho de 1723
Batizado em Kirkcaldy, Fife (Escócia).2
1737
Entra na Universidade de Glasgow, aos 14 anos; aluno de Francis Hutcheson.3
julho de 1740
Parte para o Balliol College, Oxford, com a bolsa Snell (fica até 1746).1
novembro de 1748
Inicia conferências públicas em Edimburgo.1
janeiro de 1751
Eleito para a cátedra de Lógica em Glasgow.1
abril de 1752
Passa à cátedra de Filosofia Moral, que ocupa até 1764.1
1759
Publica a Teoria dos sentimentos morais.5
janeiro de 1764
Renuncia à cátedra para acompanhar o duque de Buccleuch na viagem à França.1
1766
Em Paris, convive com os fisiocratas (Quesnay, Turgot); a viagem termina em outubro.1
março de 1776
Publica A riqueza das nações.1
1778
Nomeado comissário da alfândega na Escócia; muda-se para Edimburgo.1
1787
Eleito reitor da Universidade de Glasgow (até 1789).3
1790
Sai a sexta edição, revista, da Teoria dos sentimentos morais.5
17 de julho de 1790
Morre em Edimburgo; parte dos manuscritos é destruída a seu pedido.2
1795
Publicação póstuma dos Ensaios sobre temas filosóficos.5
Bibliografia comentada
Ian Simpson Ross. The Life of Adam Smith (1995)
Biografia acadêmica de referência, baseada na correspondência e nos arquivos; ponto de partida para datas e episódios.
Nicholas Phillipson. Adam Smith: An Enlightened Life (2010)
Biografia intelectual que situa Smith no Iluminismo escocês e insiste na unidade do projeto filosófico.
Emma Rothschild. Economic Sentiments: Adam Smith, Condorcet, and the Enlightenment (2001)
Leitura que aproxima Smith de Condorcet e questiona sua apropriação conservadora; discute a ironia da "mão invisível".
Donald Winch. Adam Smith's Politics: An Essay in Historiographic Revision (1978)
Clássico da revisão historiográfica: lê Smith como pensador político do século XVIII, não como precursor do liberalismo do século XIX.
Samuel Fleischacker. Adam Smith's Moral and Political Philosophy (2013 (revisão substantiva de 2025))
Verbete acadêmico atualizado (2025) sobre a filosofia moral e política; boa porta de entrada para simpatia, espectador imparcial e justiça.
Albert O. Hirschman. The Passions and the Interests: Political Arguments for Capitalism before Its Triumph (1977)
Ensaio sobre como os interesses econômicos passaram a ser vistos como freio às paixões; situa Smith nessa genealogia.
Giovanni Arrighi. Adam Smith in Beijing: Lineages of the Twenty-First Century (2007)
Releitura de Smith a partir da economia política do sistema-mundo e da ascensão do Leste Asiático.
Fontes
“Consultada” indica que o endereço foi aberto na data informada. “Referência bibliográfica” indica obra citada sem conferência de página nesta versão.
- 1Gonçalo L. Fonseca (History of Economic Thought Website). Adam Smith, 1723–1790 (perfil).[Obra de referência · consultada em 19 de outubro de 2026]Usado para a cronologia (Oxford 1740–46, conferências em Edimburgo de 1748, cátedras de 1751 e 1752, viagem à França, alfândega em 1778).
- 2Adam Smith (verbete da Wikipédia em inglês).[Obra de referência · consultada em 19 de outubro de 2026]Usada só como orientação (data de batismo em estilo antigo/novo, Panmure House, destruição dos papéis). Conferir em Ross (1995) e Phillipson (2010).
- 3University of Glasgow (projeto Adam Smith 300). Smith at Glasgow.[Obra de referência · consultada em 19 de outubro de 2026]
- 4Ian Simpson Ross. The Life of Adam Smith. Clarendon Press, 1995.[Historiografia · referência bibliográfica]
- 5Samuel Fleischacker. Adam Smith's Moral and Political Philosophy. Stanford Encyclopedia of Philosophy, 2013 (revisão substantiva de 2025).[Obra de referência · consultada em 19 de outubro de 2026]
- 6Emma Rothschild. Economic Sentiments: Adam Smith, Condorcet, and the Enlightenment. Harvard University Press, 2001.[Historiografia · referência bibliográfica]
- 7Invisible hand (verbete da Wikipédia em inglês).[Obra de referência · consultada em 19 de outubro de 2026]Usada só como orientação para o trecho da Teoria dos sentimentos morais (parte IV, cap. 1) e para a história da expressão no século XX; o texto da TMS não foi aberto diretamente.
- 8Adam Smith (ed. D. D. Raphael e A. L. Macfie). The Theory of Moral Sentiments (Glasgow Edition of the Works and Correspondence of Adam Smith, v. I). Oxford University Press, 1976.[Fonte primária · referência bibliográfica]Edição crítica de referência; a introdução dos editores discute o chamado "problema Adam Smith".
- 9Samuel Fleischacker. On Adam Smith's Wealth of Nations: A Philosophical Companion. Princeton University Press, 2004.[Historiografia · referência bibliográfica]
- 10Adam Smith. A riqueza das nações, Livro I, cap. 1, "Of the Division of Labour" (texto inglês no MIA). Marxists Internet Archive, 1776.[Fonte primária · consultada em 19 de outubro de 2026]
- 11Adam Smith. A riqueza das nações, Livro I, cap. 8, "Of the Wages of Labour" (texto inglês no MIA). Marxists Internet Archive, 1776.[Fonte primária · consultada em 19 de outubro de 2026]
- 12Adam Smith. A riqueza das nações, Livro V, cap. 1, parte III, despesas com obras e instituições públicas (texto inglês no MIA). Marxists Internet Archive, 1776.[Fonte primária · consultada em 19 de outubro de 2026]Inclui a discussão das companhias privilegiadas e da Companhia das Índias Orientais.
- 13David Ricardo. On the Principles of Political Economy and Taxation. 1817.[Fonte primária · referência bibliográfica]
- 14Karl Marx. Teorias da mais-valia (manuscritos de 1861–63), capítulos sobre Adam Smith.[Fonte primária · referência bibliográfica]
- 15Adam Smith. A riqueza das nações, Livro IV, cap. 2, sobre as restrições à importação (texto inglês no MIA). Marxists Internet Archive, 1776.[Fonte primária · consultada em 19 de outubro de 2026]Único uso da expressão "invisible hand" em A riqueza das nações.
- 16Adam Smith. A riqueza das nações, Livro V, cap. 1, parte III, art. II, despesas com a educação da juventude (texto inglês no MIA). Marxists Internet Archive, 1776.[Fonte primária · consultada em 19 de outubro de 2026]
- 17Adam Smith. A riqueza das nações, Livro IV, cap. 7, parte III (continuação), vantagens que a Europa tirou da descoberta da América e da passagem para as Índias Orientais (texto inglês no MIA). Marxists Internet Archive, 1776.[Fonte primária · consultada em 19 de outubro de 2026]
- 18Adam Smith. A riqueza das nações, Livro III, cap. 2, sobre o desestímulo à agricultura após a queda de Roma (texto inglês no MIA). Marxists Internet Archive, 1776.[Fonte primária · consultada em 19 de outubro de 2026]Trecho em que Smith trata do trabalho escravo.
- 19Gonçalo L. Fonseca (History of Economic Thought Website). August Oncken, 1844–1911 (perfil).[Obra de referência · consultada em 19 de outubro de 2026]
- 20Donald Winch. Adam Smith's Politics: An Essay in Historiographic Revision. Cambridge University Press, 1978.[Historiografia · referência bibliográfica]
- 21Amartya Sen. The Idea of Justice. 2009.[Historiografia · referência bibliográfica]
- 22Giovanni Arrighi. Adam Smith in Beijing: Lineages of the Twenty-First Century. Verso, 2007.[Historiografia · referência bibliográfica]
- 23Nicholas Phillipson. Adam Smith: An Enlightened Life. 2010.[Historiografia · referência bibliográfica]
- 24Albert O. Hirschman. The Passions and the Interests: Political Arguments for Capitalism before Its Triumph. Princeton University Press, 1977.[Historiografia · referência bibliográfica]
Rede de relações
Ligações documentadas com tipo, período e fonte. Verbetes ainda planejados aparecem tracejados e sem link.
autor de
influenciou
- Economia política clássicaEscola econômicaTratado como fundador da economia política clássica. Fonte: Adam Smith, 1723–1790 (perfil)
- Karl MarxPessoaMarx leu Smith criticamente. Fonte: Teorias da mais-valia (manuscritos de 1861–63), capítulos sobre Adam Smith
- Friedrich HayekPessoaFonte: Adam Smith's Moral and Political Philosophy
relacionado a
- MercadoConceitoFonte: A riqueza das nações, Livro I, cap. 1, "Of the Division of Labour" (texto inglês no MIA)
- CapitalismoConceito
- Trabalho assalariadoConceitoFonte: A riqueza das nações, Livro I, cap. 8, "Of the Wages of Labour" (texto inglês no MIA)
- Concorrência e monopólioConceitoCrítica às companhias de comércio exclusivo. Fonte: A riqueza das nações, Livro V, cap. 1, parte III, despesas com obras e instituições públicas (texto inglês no MIA)
- Colonialismo (verbete planejado)ConceitoCriticou o monopólio do comércio colonial e registrou a violência europeia contra os nativos, sem propor descolonização. Fonte: A riqueza das nações, Livro IV, cap. 7, parte III (continuação), vantagens que a Europa tirou da descoberta da América e da passagem para as Índias Orientais (texto inglês no MIA)
- Escravidão e capitalismoDebate historiográficoFonte: A riqueza das nações, Livro III, cap. 2, sobre o desestímulo à agricultura após a queda de Roma (texto inglês no MIA)
- Valor (verbete planejado)ConceitoFormulações sobre o trabalho como medida do valor, retomadas por Ricardo e criticadas por Marx.
- Revolução IndustrialAcontecimentoA riqueza das nações foi escrita nas décadas iniciais da industrialização britânica.
- LucroConceitoFonte: An Inquiry into the Nature and Causes of the Wealth of Nations (Livro I, caps. VIII e X) (no verbete Lucro)
- Transição do feudalismo ao capitalismoDebate historiográficoExplicação do crescimento pela divisão do trabalho e pela extensão do mercado.
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Histórico e revisão
- Estado
- Publicado
- Autoria
- Redação assistida por IA (Claude)
- Criado em
- 19 de outubro de 2026
- Atualizado em
- 19 de outubro de 2026
- Extensão
- 3.205 palavras · 24 fontes
- Revisão humana
- Tiago Moura Cesar do Nascimento
- 20 de outubro de 2026 · revisao editorialRevisão e publicação no Exército Lula.Tiago Moura Cesar do Nascimento
- 19 de outubro de 2026 · redacaoRedação a partir de textos de A riqueza das nações (MIA), SEP (Fleischacker), HET Website e Universidade de Glasgow. Pendências: o trecho da TMS sobre a mão invisível e a frase sobre a corrupção dos sentimentos morais foram tomados de fonte secundária e devem ser conferidos na edição de Glasgow; confirmar em Ross/Phillipson os detalhes da estadia em Toulouse e da visita a Voltaire; biografias listadas não foram consultadas.Redação assistida por IA (Claude), sem revisão humana
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Como citar: Adam Smith. In: Enciclopédia do Exército Lula. Versão de 20 de outubro de 2026. Disponível em: https://exercitolula.com.br/enciclopedia/adam-smith.
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