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Debate historiográficoPublicado

Transição do feudalismo ao capitalismo

Debate historiográfico sobre como, onde e por que surgiu o capitalismo

Como uma economia de senhores e camponeses deu lugar a outra, de capitalistas e assalariados? Comércio e cidades, luta de classes no campo, sistema-mundo, religião ou acaso geográfico: o debate reúne marxistas, weberianos e historiadores econômicos desde os anos 1950.

Também: Debate da transição · Debate Dobb–Sweezy · Debate Brenner · Origens do capitalismo · Transition debate

Índice e ficha

A transição do feudalismo ao capitalismo é um dos debates mais longos da historiografia econômica e social. A pergunta parece simples, como e por que as sociedades europeias organizadas em torno de senhores, camponeses dependentes e corporações de ofício passaram a ser dominadas por empresas que contratam trabalho assalariado para produzir mercadorias com lucro?, mas cada resposta carrega uma definição diferente de Capitalismo e uma teoria diferente da mudança histórica.

O debate ganhou forma moderna entre marxistas a partir de 1950, com a troca entre o economista britânico Maurice Dobb e o estadunidense Paul Sweezy na revista Science & Society 1 2. Ganhou uma segunda rodada em 1976, quando Robert Brenner publicou em Past & Present um artigo sobre estrutura de classes agrária e desenvolvimento econômico 3, respondido por historiadores de várias correntes 4. Ao mesmo tempo, autores fora do marxismo, Max Weber, Fernand Braudel, historiadores econômicos neoinstitucionalistas, ofereceram explicações próprias, e a história global das últimas décadas recolocou a pergunta em escala mundial.

Este verbete apresenta a pergunta, as posições, os autores, as evidências mobilizadas e o estado atual da discussão. Ele não decide qual explicação é correta: as posições partem de definições distintas e muitas vezes respondem a perguntas diferentes.

A pergunta em disputa

Debate em abertoExplicação conceitual

O debate se organiza em torno de quatro perguntas, que nem sempre aparecem separadas:

  1. O que é capitalismo? Para uns, é produção para o mercado com busca de lucro, o que permite encontrar "capitalismo" em Veneza, Gênova ou nas cidades flamengas medievais. Para outros, é um sistema em que produtores sem meios de subsistência próprios dependem do mercado e do salário, e em que a concorrência obriga as empresas a investir e aumentar a produtividade. A primeira definição favorece explicações pelo comércio; a segunda, explicações pelas relações de propriedade e de trabalho.
  2. O que era o feudalismo e por que entrou em crise? A crise europeia do século XIV (fome, Peste Negra, revoltas camponesas, guerras) é ponto de partida comum, mas há divergência sobre se ela resultou de limites demográficos, de contradições entre senhores e camponeses ou de choques externos.
  3. Causas internas ou externas? A mudança nasceu dentro das relações agrárias ou veio de fora delas, com o comércio, as cidades, a expansão ultramarina?
  4. Onde e quando? Inglaterra rural dos séculos XVI–XVII, cidades italianas e flamengas, Países Baixos, a economia atlântica construída sobre colônias e escravidão, ou um processo de escala mundial?

A pergunta também tem consequências políticas e teóricas. No marxismo, ela toca o materialismo histórico, a ideia de que as relações de produção explicam a mudança social, e a relação entre "forças produtivas" e luta de classes. Fora dele, toca a explicação do crescimento econômico moderno e o papel de instituições, cultura e geografia.

Ponto de partida: Marx e a "acumulação primitiva"

Formulação teóricaDocumento de época

Os participantes marxistas do debate partem dos capítulos finais do livro I de O Capital (1867). No capítulo 26, Marx critica a explicação dos economistas de sua época, para quem a riqueza inicial do capitalista teria vindo da poupança, e chama de acumulação primitiva o processo histórico que separou os produtores dos meios de produção. O dinheiro e as mercadorias só se tornam capital quando seus donos encontram trabalhadores juridicamente livres para vender a força de trabalho, mas sem terra nem ferramentas próprias; a expropriação do campesinato é a base do processo, e a Inglaterra é apresentada como o caso "clássico" 5.

No capítulo 31, Marx associa a "aurora" da era capitalista à conquista e ao saque nas Américas e na Ásia, ao trabalho forçado nas minas, ao tráfico de africanos escravizados, ao sistema colonial, à dívida pública e ao protecionismo 6. Essa dupla ênfase, expropriação interna e violência colonial, reaparece no debate: alguns autores privilegiam a primeira (Dobb, Brenner, Wood), outros a segunda (Sweezy, Wallerstein, a tradição terceiro-mundista e o debate escravidão e capitalismo).

Marx também mencionou, no livro III, dois "caminhos" de transição: o produtor que se torna comerciante e capitalista (para ele, o caminho realmente revolucionário) e o comerciante que se apodera da produção sem transformá-la. A distinção foi retomada pelo historiador japonês Kohachiro Takahashi 1.

O debate Dobb–Sweezy (1946–1953)

Debate em abertoInterpretação historiográfica

Em Studies in the Development of Capitalism (1946), Maurice Dobb, economista da Universidade de Cambridge e membro do Partido Comunista da Grã-Bretanha, explicou o declínio do feudalismo por suas contradições internas: a pressão crescente dos senhores sobre os camponeses para aumentar a renda levou à fuga, ao esgotamento e à crise do século XIV; a luta pela renda abriu espaço para uma camada de pequenos produtores independentes, de onde sairiam os capitalistas. Dobb situava o início do modo de produção capitalista no fim do século XVI e via o comércio como algo que intensificava os conflitos, não como solvente externo 7 1.

Em 1950, Paul Sweezy, economista marxista estadunidense, depois cofundador da Monthly Review, criticou Dobb em Science & Society. Para Sweezy, o feudalismo era um sistema conservador de "produção para uso", incapaz de gerar por si a própria superação; a força dissolvente foi o crescimento do comércio de longa distância, que criou uma economia de trocas centrada nas cidades, ofereceu refúgio aos servos e alterou as necessidades dos senhores. Sweezy apoiou-se no historiador belga Henri Pirenne e propôs uma fase intermediária de "produção mercantil pré-capitalista" entre os séculos XIV e XVI. Dobb respondeu no mesmo número 1 2.

Outros participantes:

  • Kohachiro Takahashi (1952) considerou decisiva a forma social do trabalho, servidão no feudalismo, salário no capitalismo, criticou o "circulacionismo" de Sweezy e pediu comparações para além da Inglaterra, contrastando a via inglesa e francesa com as da Prússia e do Japão 1.
  • Rodney Hilton, medievalista, defendeu a causalidade interna: a luta pela renda entre senhores e camponeses seria o "motor" da economia e da política feudais 1.
  • Christopher Hill, historiador da Revolução Inglesa, sustentou que o Estado absolutista Tudor e Stuart ainda era feudal, instrumento da classe proprietária de terras 1.

O conjunto foi reunido em 1976 no volume The Transition from Feudalism to Capitalism, organizado por Hilton, com textos adicionais de Georges Lefebvre, Giuliano Procacci, Eric Hobsbawm e John Merrington 2. Na introdução e em textos posteriores, Hobsbawm destacou o caráter muito desigual da transição em escala mundial e o fato de o contato com o capitalismo europeu ter muitas vezes reforçado estruturas pré-capitalistas em outras regiões 1.

O "modelo da comercialização": Pirenne e Adam Smith

Interpretação historiográficaFormulação teórica

A explicação pelo comércio é anterior ao marxismo. Para Adam Smith, o crescimento da riqueza dependia da divisão do trabalho, limitada pela extensão do mercado; o comércio das cidades teria levado ordem e bom governo ao campo 8. O historiador belga Henri Pirenne (1862–1935), em Medieval Cities (1925), associou o renascimento urbano europeu dos séculos XI–XII à retomada do comércio de longa distância e à formação de uma camada de mercadores, cujas cidades teriam corroído a economia senhorial 9.

Os críticos chamam esse conjunto de modelo da comercialização. A objeção central, formulada por Brenner e Wood, é que ele pressupõe o que deveria explicar: trata a busca de lucro e a reação a oportunidades de mercado como comportamentos naturais, esperando apenas que obstáculos sejam removidos, sem explicar por que produtores passaram a depender do mercado para sobreviver 8 10. Os defensores de explicações comerciais respondem que o crescimento dos mercados, das cidades e das finanças é documentado, que regiões muito comercializadas (Itália do Norte, Flandres, Países Baixos) foram também pioneiras em técnicas empresariais e que as instituições de mercado não surgem do nada.

O debate Brenner (1976–1985)

Debate em abertoInterpretação historiográfica

Em 1976, o historiador estadunidense Robert Brenner publicou em Past & Present o artigo "Agrarian Class Structure and Economic Development in Pre-Industrial Europe" 3. O alvo eram duas explicações então dominantes da história econômica europeia: o modelo demográfico (ou neomalthusiano), associado a Michael Postan e Emmanuel Le Roy Ladurie, para o qual ciclos de população e de recursos explicariam a alternância de expansão e crise; e o modelo da comercialização.

Brenner argumentou que regiões com demografia e mercados semelhantes seguiram trajetórias muito diferentes depois da crise do século XIV, servidão reforçada na Europa Oriental, campesinato proprietário estável na França, arrendatários capitalistas na Inglaterra, e que a diferença se explica pelas relações sociais de propriedade e pelo resultado das lutas de classe no campo. Na Inglaterra, os camponeses se livraram da servidão mas não conquistaram a propriedade plena da terra; tornaram-se arrendatários sujeitos a rendas fixadas pelo mercado, obrigados a competir, especializar-se e investir. Daí uma tríade agrária de senhores de terra, arrendatários capitalistas e trabalhadores assalariados 1 4. Em 1977, na New Left Review, Brenner estendeu a crítica a Sweezy, Wallerstein e André Gunder Frank, que chamou de "marxismo neo-smithiano" 10.

O artigo provocou respostas de Postan e John Hatcher, Le Roy Ladurie, Guy Bois, Patricia Croot e David Parker, Heide Wunder, J. P. Cooper e Arnost Klima, entre outros, e uma longa réplica de Brenner ("The Agrarian Roots of European Capitalism", 1982); o conjunto foi reunido em 1985 em The Brenner Debate 4. Críticas recorrentes: o modelo seria esquemático, subestimaria as forças produtivas e a demografia, simplificaria o caso francês e daria pouca atenção ao papel de camponeses ricos voltados ao mercado (argumento de Terence Byres) e ao comércio e às colônias 1.

Ellen Meiksins Wood e o "capitalismo agrário" inglês

Interpretação historiográficaFormulação teórica

A cientista política Ellen Meiksins Wood (1942–2016) desenvolveu a linha de Brenner em The Origin of Capitalism (1999; edição ampliada de 2002). Para Wood, o capitalismo não é a simples expansão do comércio, mas um sistema em que os imperativos de mercado, concorrência, acumulação, maximização do lucro, aumento da produtividade do trabalho, se impõem a produtores e apropriadores porque eles dependem do mercado para ter acesso aos meios de vida. Essa dependência teria surgido primeiro no campo inglês dos séculos XVI e XVII, com a tríade proprietário–arrendatário–assalariado, e só depois teria se espalhado pela indústria, pelas colônias e por outros países, em geral por pressão competitiva e política 8.

Wood distinguiu, por exemplo, a República Holandesa, muito comercial e próspera, mas, segundo ela, ainda dependente de privilégios comerciais e de oportunidades de circulação, da Inglaterra agrária, e criticou leituras que veem "capitalismo" em toda atividade lucrativa. Seus críticos apontam um anglocentrismo excessivo, uma definição que tornaria o capitalismo quase um acidente local e uma subestimação do papel das colônias, da escravidão e do Estado; outros questionam se a agricultura inglesa foi de fato mais "competitiva" que a de outras regiões 11 12.

Cercamentos: evidência e revisões

Evidência empíricaDebate em aberto

Os cercamentos (enclosures), o fechamento de campos abertos e terras comuns, convertidos em propriedades individuais, são peça central tanto em Marx quanto em Brenner e Wood. Marx descreveu-os como expropriação violenta do campesinato inglês 5. Houve duas grandes ondas: cercamentos por acordo ou iniciativa senhorial, muitas vezes para criação de ovelhas, nos séculos XV e XVI; e os cercamentos parlamentares, por lei do Parlamento, concentrados entre meados do século XVIII e o início do XIX.

A pesquisa quantitativa matizou a narrativa. Em Enclosure and the Yeoman (1992), o historiador econômico Robert C. Allen estudou o sul das Midlands inglesas e concluiu que a principal "revolução agrícola" de produtividade foi feita, antes, pelos pequenos e médios agricultores (yeomen) em campos abertos, no século XVII; os grandes arrendamentos e os cercamentos do século XVIII teriam elevado sobretudo a renda dos proprietários, com ganhos de produtividade pequenos e efeitos negativos sobre o emprego rural 12. A leitura de Allen contesta a tese de que o capitalismo agrário foi condição de uma agricultura muito mais produtiva, mas reforça a ideia de que os cercamentos redistribuíram renda e terra.

Outros historiadores, na linha de E. P. Thompson, insistem nos efeitos sociais: perda de direitos costumeiros de pastagem, coleta e lenha, proletarização e migração para as cidades 13. O tamanho do contingente expulso, o ritmo e a relação com a oferta de mão de obra para a indústria continuam em discussão.

Escala mundial: Wallerstein, Braudel e o sistema-mundo

Interpretação historiográficaFormulação teórica

O sociólogo Immanuel Wallerstein propôs, no primeiro volume de The Modern World-System (1974), que a unidade de análise não é o país, mas a economia-mundo europeia formada no "longo século XVI" (c. 1450–1640). Nela, uma divisão do trabalho entre centro (Noroeste da Europa, com trabalho assalariado e manufaturas), semiperiferia e periferia (Europa Oriental com a "segunda servidão", Américas com escravidão e trabalho forçado) já seria capitalista, porque orientada à acumulação no mercado mundial, ainda que as formas de trabalho fossem variadas 14. A ideia está na base do conceito de sistema-mundo e dialoga com as teorias da dependência latino-americanas.

O historiador francês Fernand Braudel (1902–1985), em Civilisation matérielle, économie et capitalisme (1979), distinguiu três andares: a vida material cotidiana, a "economia de mercado" das trocas regulares e transparentes, e o capitalismo propriamente dito, no topo, o domínio de grandes mercadores e financistas que buscam monopólios, privilégios e altos lucros nas trocas de longa distância. Para Braudel, o capitalismo nesse sentido é muito antigo e se distingue do mercado 15.

Brenner e Wood acusaram essas leituras de confundir comércio e capitalismo; os defensores respondem que elas explicam melhor a articulação entre a Europa e as colônias e a coexistência de assalariamento, servidão e escravidão no mesmo sistema 10 14.

Max Weber: ética religiosa e racionalização

Formulação teóricaInterpretação historiográfica

Fora do marxismo, a explicação clássica é a de Max Weber. Em A ética protestante e o "espírito" do capitalismo (1904–1905, revista em 1920), Weber procurou a origem de uma disposição, trabalho metódico como vocação, acumulação sem gozo, em certas correntes protestantes, sobretudo calvinistas. Para ele, o capitalismo moderno distingue-se de formas antigas de busca de lucro pela calculabilidade: contabilidade de partidas dobradas, empresa separada da casa, trabalho formalmente livre, disciplina fabril e direito previsível 16 17.

A tese foi criticada desde sua publicação: historiadores mostraram capitalismo comercial e financeiro em regiões católicas (Itália, Flandres, Sul da Alemanha), discutiram a correlação entre protestantismo e prosperidade e apontaram eurocentrismo na ideia de uma singularidade ocidental. Os intérpretes divergem sobre se Weber pretendia uma explicação causal ou uma reconstrução de "afinidades eletivas" entre religião e economia 17.

Perspectivas globais: a "grande divergência", China, Índia e mundo islâmico

Debate em abertoInterpretação historiográfica

Desde os anos 1990, a história global deslocou parte da discussão para outra pergunta: por que o crescimento econômico sustentado e a industrialização começaram no Noroeste da Europa e não em outras regiões comercialmente desenvolvidas da Ásia?

  • Kenneth Pomeranz, em The Great Divergence (2000), comparou a Inglaterra com o delta do Yangzi (Jiangnan) e concluiu que, por volta de 1750–1800, as regiões mais avançadas da China e da Europa eram semelhantes em padrão de vida, mercados e produtividade agrícola. A divergência teria vindo depois, graças a dois fatores em parte fortuitos: carvão abundante perto dos centros industriais britânicos e o acesso às Américas, cujas terras e cujo trabalho escravizado forneceram algodão, açúcar e madeira, os "hectares fantasmas" que a Inglaterra não precisou cultivar 18 19. Críticos questionam as comparações de renda (Stephen Broadberry e outros situam a divergência antes de 1700), o peso dado à sorte geográfica e o caráter pouco explícito de alguns contrafactuais 19.
  • Índia. Prasannan Parthasarathi argumentou que a competição com os tecidos indianos e a política britânica estimularam a mecanização do algodão na Grã-Bretanha, e que a Índia meridional do século XVIII não era menos dinâmica que a Europa 20. A "desindustrialização" posterior da Índia é tratada em Revolução Industrial.
  • Mundo islâmico. Timur Kuran sustentou que instituições do direito islâmico, regras de herança, ausência de pessoa jurídica corporativa, o waqf, dificultaram a formação de grandes empresas duradouras no Oriente Médio, o que explicaria uma "longa divergência" 21. A tese é contestada por historiadores que destacam a variedade de práticas comerciais e o peso do colonialismo e das relações de poder.
  • Formas de trabalho. O historiador marxista Jairus Banaji critica a identificação estrita entre capitalismo e trabalho assalariado livre e propõe estudar o "capital comercial" e formas variadas de exploração, com exemplos do Mediterrâneo e do Oceano Índico 11.

No Brasil, a discussão ganhou forma própria no debate sobre a existência ou não de feudalismo na colônia e sobre a natureza da economia escravista, temas que aparecem em escravidão e capitalismo e no verbete planejado sobre o feudalismo no Brasil.

Outras explicações: instituições, Estado e finanças

Posição de outras organizações e correntesInterpretação historiográfica

Historiadores econômicos de orientação neoinstitucionalista, como Douglass North, explicaram a ascensão do Noroeste europeu por instituições que garantiram direitos de propriedade e reduziram custos de transação, com destaque para a Revolução Gloriosa inglesa de 1688 e a "revolução financeira" que a seguiu. A tese tem críticos entre historiadores que veem continuidade institucional maior e que lembram que direitos de propriedade "seguros" conviveram com expropriações, monopólios coloniais e escravidão.

Outra linha enfatiza o Estado e a guerra: a competição militar entre Estados europeus teria estimulado sistemas fiscais, dívida pública e companhias de comércio armadas, como a Companhia Holandesa das Índias Orientais. Marx já havia incluído dívida pública, sistema fiscal e protecionismo entre os "métodos" da acumulação primitiva 6.

Estado atual do debate

Debate em aberto

Não há consenso, e boa parte do desacordo vem de definições diferentes. Alguns pontos, porém, aparecem em quase toda a literatura recente:

  • A crise do século XIV e as respostas diferentes que ela recebeu em diferentes regiões da Europa são um ponto de partida comum.
  • A Inglaterra dos séculos XVI–XVIII combinou mudanças agrárias, expansão comercial e colonial, um Estado fiscal-militar e uma revolução financeira; as explicações divergem sobre qual desses elementos foi decisivo.
  • A escala atlântica e mundial, colônias, escravidão, comércio asiático, não pode ser ignorada, mesmo por quem localiza a origem do capitalismo nas relações agrárias inglesas.
  • A comparação com a Ásia enfraqueceu teses de superioridade europeia antiga, mas não produziu explicação única.

Para o leitor, a forma mais segura de usar o debate é identificar qual definição de capitalismo cada autor usa e qual pergunta responde: origem de relações sociais (Dobb, Brenner, Wood), formação de um mercado mundial (Sweezy, Wallerstein, Braudel), disposição cultural (Weber) ou arranque do crescimento industrial (Pomeranz, Allen, Mokyr) 4 18.

Cronologia

  1. 1867

    Marx publica o livro I de O Capital, com os capítulos sobre a acumulação primitiva.5

  2. 1904

    Weber publica A ética protestante e o "espírito" do capitalismo.16

  3. 1925

    Henri Pirenne publica Medieval Cities.9

  4. 1946

    Maurice Dobb publica Studies in the Development of Capitalism.7

  5. 1950

    Crítica de Paul Sweezy e resposta de Dobb em Science & Society.1

  6. 1952

    Contribuição de Kohachiro Takahashi.1

  7. 1974

    Wallerstein publica o primeiro volume de The Modern World-System.14

  8. 1976

    Coletânea The Transition from Feudalism to Capitalism; artigo de Brenner em Past & Present.3

  9. 1979

    Braudel publica Civilisation matérielle, économie et capitalisme.15

  10. 1985

    Publicação de The Brenner Debate.4

  11. 1992

    Robert C. Allen publica Enclosure and the Yeoman.12

  12. 1999

    Ellen Meiksins Wood publica The Origin of Capitalism (edição ampliada em 2002).8

  13. 2000

    Kenneth Pomeranz publica The Great Divergence.18

Bibliografia comentada

  • Rodney Hilton (org.); Paul Sweezy, Maurice Dobb, Kohachiro Takahashi, Christopher Hill, Georges Lefebvre, Giuliano Procacci, Eric Hobsbawm, John Merrington. The Transition from Feudalism to Capitalism (1976)

    Reúne os textos originais do debate dos anos 1950 e contribuições posteriores; leitura indispensável para conhecer as posições de Dobb, Sweezy, Takahashi, Hilton e Hill nas próprias palavras.

  • T. H. Aston; C. H. E. Philpin (orgs.). The Brenner Debate: Agrarian Class Structure and Economic Development in Pre-Industrial Europe (1985)

    Coletânea do debate Brenner, com o artigo de 1976, as respostas de demógrafos e historiadores agrários e a réplica de 1982. Mostra como o debate saiu do marxismo e envolveu a história econômica em geral.

  • Ellen Meiksins Wood. The Origin of Capitalism: A Longer View (2002)

    Exposição acessível e polêmica da tese do capitalismo agrário inglês, com crítica sistemática ao "modelo da comercialização". Útil também como síntese do próprio debate.

  • Immanuel Wallerstein. The Modern World-System I: Capitalist Agriculture and the Origins of the European World-Economy in the Sixteenth Century (1974)

    Obra fundadora da análise do sistema-mundo; propõe a economia-mundo do século XVI como unidade de análise.

  • Kenneth Pomeranz. The Great Divergence: China, Europe, and the Making of the Modern World Economy (2000)

    Referência central da história global; reabriu a comparação com a China e deslocou a pergunta para a "grande divergência" do século XIX.

  • Robert C. Allen. Enclosure and the Yeoman: The Agricultural Development of the South Midlands, 1450–1850 (1992)

    Estudo empírico que revisa o papel dos cercamentos e dos pequenos agricultores no aumento da produtividade agrícola inglesa.

  • Max Weber. A ética protestante e o "espírito" do capitalismo (Die protestantische Ethik und der Geist des Kapitalismus) (1904–1905 (revisão de 1920))

    Clássico da explicação cultural; deve ser lido junto às críticas que recebeu e às respostas do próprio Weber.

Fontes

“Consultada” indica que o endereço foi aberto na data informada. “Referência bibliográfica” indica obra citada sem conferência de página nesta versão.

  1. 1Dobb–Sweezy debate (verbete da Wikipédia em inglês).[Obra de referência · consultada em 19 de outubro de 2026]Usado só como orientação para datas e participantes; conferir nos textos originais (Science & Society; coletânea de 1976).
  2. 2Rodney Hilton (org.); Paul Sweezy, Maurice Dobb, Kohachiro Takahashi, Christopher Hill, Georges Lefebvre, Giuliano Procacci, Eric Hobsbawm, John Merrington. The Transition from Feudalism to Capitalism. New Left Books (reedição Verso, 1978), 1976.[Historiografia · referência bibliográfica]Reúne o debate publicado em Science & Society a partir de 1950 e textos posteriores.
  3. 3Robert Brenner. Agrarian Class Structure and Economic Development in Pre-Industrial Europe. Past & Present, v. 70, n. 1, p. 30–75, 1976.[Historiografia · consultada em 19 de outubro de 2026]Só a ficha bibliográfica foi consultada (texto integral sob assinatura). O conteúdo do argumento é resumido a partir da literatura secundária.
  4. 4T. H. Aston; C. H. E. Philpin (orgs.). The Brenner Debate: Agrarian Class Structure and Economic Development in Pre-Industrial Europe. Cambridge University Press, 1985.[Historiografia · referência bibliográfica]
  5. 5Karl Marx. O Capital, livro I, cap. 26: O segredo da acumulação primitiva (tradução inglesa no MIA). Marxists Internet Archive, 1867.[Fonte primária · consultada em 19 de outubro de 2026]
  6. 6Karl Marx. O Capital, livro I, cap. 31: Gênese do capitalista industrial (tradução inglesa no MIA). Marxists Internet Archive, 1867.[Fonte primária · consultada em 19 de outubro de 2026]
  7. 7Maurice Dobb. Studies in the Development of Capitalism. Routledge, 1946.[Historiografia · referência bibliográfica]
  8. 8Ellen Meiksins Wood. The Origin of Capitalism: A Longer View. Verso (1.ª ed. Monthly Review Press, 1999), 2002.[Historiografia · referência bibliográfica]Em português: A origem do capitalismo (Jorge Zahar).
  9. 9Henri Pirenne. Medieval Cities: Their Origins and the Revival of Trade. Princeton University Press, 1925.[Historiografia · referência bibliográfica]Conferências proferidas nos EUA; em português, As cidades da Idade Média.
  10. 10Robert Brenner. The Origins of Capitalist Development: A Critique of Neo-Smithian Marxism. New Left Review, n. 104, 1977.[Historiografia · referência bibliográfica]
  11. 11Jairus Banaji. Theory as History: Essays on Modes of Production and Exploitation. Brill, 2010.[Historiografia · referência bibliográfica]
  12. 12Robert C. Allen. Enclosure and the Yeoman: The Agricultural Development of the South Midlands, 1450–1850. Clarendon Press (Oxford), 1992.[Historiografia · referência bibliográfica]
  13. 13E. P. Thompson. The Making of the English Working Class. Victor Gollancz, 1963.[Historiografia · referência bibliográfica]Em português: A formação da classe operária inglesa (Paz e Terra).
  14. 14Immanuel Wallerstein. The Modern World-System I: Capitalist Agriculture and the Origins of the European World-Economy in the Sixteenth Century. Academic Press, 1974.[Historiografia · referência bibliográfica]
  15. 15Fernand Braudel. Civilisation matérielle, économie et capitalisme, XVe–XVIIIe siècle (3 v.). Armand Colin, 1979.[Historiografia · referência bibliográfica]Em português: Civilização material, economia e capitalismo (Martins Fontes).
  16. 16Max Weber. A ética protestante e o "espírito" do capitalismo (Die protestantische Ethik und der Geist des Kapitalismus). 1904–1905 (revisão de 1920).[Fonte primária · referência bibliográfica]
  17. 17Sung Ho Kim. Max Weber. Stanford Encyclopedia of Philosophy.[Obra de referência · consultada em 19 de outubro de 2026]
  18. 18Kenneth Pomeranz. The Great Divergence: China, Europe, and the Making of the Modern World Economy. Princeton University Press, 2000.[Historiografia · referência bibliográfica]
  19. 19Cosma Shalizi. Resenha de Kenneth Pomeranz, The Great Divergence (The Bactra Review, n. 133). The Bactra Review.[Historiografia · consultada em 19 de outubro de 2026]Resenha de um estatístico, não de um historiador especialista; usada para resumir o argumento e algumas objeções.
  20. 20Prasannan Parthasarathi. Why Europe Grew Rich and Asia Did Not: Global Economic Divergence, 1600–1850. Cambridge University Press, 2011.[Historiografia · referência bibliográfica]
  21. 21Timur Kuran. The Long Divergence: How Islamic Law Held Back the Middle East. Princeton University Press, 2011.[Historiografia · referência bibliográfica]

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Histórico e revisão

Estado
Publicado
Autoria
Redação assistida por IA (Claude)
Criado em
19 de outubro de 2026
Atualizado em
19 de outubro de 2026
Extensão
2.905 palavras · 21 fontes
Revisão humana
Tiago Moura Cesar do Nascimento
  1. 20 de outubro de 2026 · revisao editorialRevisão e publicação no Exército Lula.Tiago Moura Cesar do Nascimento
  2. 19 de outubro de 2026 · redacaoRedação a partir de Marx (MIA, cap. 26 e 31), resumo do debate Dobb–Sweezy (Wikipédia, só orientação), ficha do artigo de Brenner (OUP), resenha de Shalizi sobre Pomeranz e verbete da SEP sobre Weber. Obras de Dobb, Hilton (org.), Aston e Philpin (orgs.), Wood, Wallerstein, Braudel, Pirenne, Allen, Kuran, Banaji e Parthasarathi citadas como referência bibliográfica, sem consulta de página. Pendente: conferir no volume de 1976 a autoria das introduções (Hilton, Hobsbawm) e as datas exatas de cada texto; conferir a lista de participantes do debate Brenner e o título da réplica de 1982 em Aston e Philpin; conferir o resumo de Allen (1992) sobre produtividade dos yeomen; verificar a crítica de Broadberry à cronologia de Pomeranz em fonte primária.Redação assistida por IA (Claude), sem revisão humana

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Como citar: Transição do feudalismo ao capitalismo. In: Enciclopédia do Exército Lula. Versão de 20 de outubro de 2026. Disponível em: https://exercitolula.com.br/enciclopedia/transicao-do-feudalismo-ao-capitalismo.

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