Crise financeira de 2008
Do mercado imobiliário dos EUA à crise financeira mundial (2007–2009)
Crise iniciada no mercado de hipotecas de alto risco (subprime) dos EUA em 2007, que se tornou pânico financeiro mundial com a falência do Lehman Brothers em 15 de setembro de 2008 e levou à maior recessão desde os anos 1930, com resgates bancários e novas regras financeiras.
Também: Crise do subprime · Grande Recessão · Crise financeira global · Crise de 2007–2008 · Global Financial Crisis
Índice e ficha
- Período
- 2007–2009
- Lugares
- Estados Unidos (Nova York, Washington), Reino Unido, Islândia, Irlanda, zona do euro, Brasil, China
- Área
- Capitalismo
- Regiões
- América do Norte, Europa, América Latina, Brasil, Ásia, Internacional
- Temas
- Economia e organização social, Estado, poder e democracia, Relações internacionais, Movimento operário e sindical
A crise financeira de 2008 começou no mercado de hipotecas residenciais dos Estados Unidos e se transformou, em setembro de 2008, no maior pânico financeiro mundial desde a Grande Depressão. Uma longa alta dos preços dos imóveis, alimentada por crédito barato, por hipotecas concedidas a tomadores com pouca capacidade de pagamento (subprime) e pela securitização, a transformação desses empréstimos em títulos vendidos a investidores do mundo inteiro, inverteu-se em 2006–2007. As perdas atingiram bancos de investimento, seguradoras, fundos e bancos europeus, muitos deles altamente alavancados e dependentes de financiamento de curto prazo 1.
A falência do banco de investimento Lehman Brothers, em 15 de setembro de 2008, e o resgate da seguradora AIG, no dia seguinte, provocaram uma corrida generalizada contra instituições financeiras e o congelamento do crédito. Seguiram-se resgates públicos sem precedentes, juros próximos de zero, compras maciças de títulos pelos bancos centrais, estímulos fiscais coordenados pelo G20 e uma recessão mundial, nos EUA, a mais longa desde a Segunda Guerra 1 2.
A crise é também um caso exemplar de interpretações concorrentes. A comissão oficial de inquérito dos EUA concluiu que a crise "era evitável" e resultou de falhas humanas de regulação e de gestão; quatro de seus dez membros discordaram. Este verbete apresenta os mecanismos, a cronologia, os atores, os impactos, as respostas, as reformas e as principais leituras, da regulação insuficiente à financeirização do capitalismo.
Contexto: crédito, imóveis e sistema financeiro
Entre o fim dos anos 1990 e 2006, os preços dos imóveis nos EUA subiram fortemente, e o crédito hipotecário se expandiu, inclusive para tomadores subprime (com histórico de crédito fraco) e na modalidade Alt-A (com documentação reduzida). Muitos empréstimos tinham taxas iniciais baixas que subiam depois, ou pouca ou nenhuma entrada. A comissão de inquérito documentou a deterioração dos padrões de concessão de hipotecas e a pressão de originadores para aumentar o volume 1.
Três características do sistema financeiro ampliaram o risco 1 3:
- Securitização. Hipotecas eram agrupadas em títulos lastreados (MBS) e reempacotadas em instrumentos mais complexos (CDOs), divididos em faixas de risco. O originador do empréstimo não carregava o risco até o vencimento, o que reduzia o incentivo a avaliar o tomador.
- Sistema bancário paralelo (shadow banking). Bancos de investimento, fundos e veículos especiais financiavam ativos de longo prazo com dívida de curtíssimo prazo (operações compromissadas, papéis comerciais), sem acesso ao emprestador de última instância e com pouca regulação.
- Derivativos de balcão e agências de classificação. Derivativos negociados fora de bolsa, como os credit default swaps, multiplicaram exposições cruzadas; as agências de classificação de risco deram notas máximas a títulos que depois se revelaram ruins.
A alavancagem das grandes instituições era muito alta, e as gigantes hipotecárias semipúblicas Fannie Mae e Freddie Mac tinham exposição de cerca de US$ 5 trilhões em hipotecas 1.
Cronologia
- 2006–2007: os preços dos imóveis param de subir e começam a cair; a inadimplência das hipotecas subprime aumenta e originadores especializados quebram 1.
- Agosto de 2007: perdas em fundos ligados a hipotecas e congelamento de mercados interbancários nos EUA e na Europa; início da fase aguda de crise de liquidez 1.
- Setembro de 2007: o Fed começa a cortar os juros, de 5,25% 2.
- Dezembro de 2007: início da recessão nos EUA, segundo a datação oficial 2.
- Março de 2008: o banco de investimento Bear Stearns, à beira da falência, é vendido ao JPMorgan com apoio do Fed 1.
- 7 de setembro de 2008: Fannie Mae e Freddie Mac são postas sob tutela do governo (conservatorship) 1.
- 15 de setembro de 2008: falência do Lehman Brothers; o Bank of America compra o Merrill Lynch; um grande fundo de mercado monetário, o Reserve Primary Fund, que detinha papéis do Lehman, sofre resgates em massa 1.
- 16 de setembro de 2008: o Fed oferece empréstimo de US$ 85 bilhões à AIG, depois ampliado com recursos do Tesouro 1.
- 29 de setembro de 2008: a Câmara dos EUA rejeita inicialmente o pacote de US$ 700 bilhões; o TARP (Troubled Asset Relief Program) é aprovado no início de outubro 1.
- Outubro de 2008: cortes coordenados de juros; garantias de depósitos e recapitalizações bancárias na Europa; em 29 de outubro, o Fed abre linhas de swap de até US$ 30 bilhões com os bancos centrais do Brasil, México, Coreia do Sul e Singapura 4.
- Novembro de 2008: primeira cúpula de chefes de Estado do G20, em Washington; o Fed anuncia compras de títulos hipotecários 2.
- Dezembro de 2008: a meta dos juros básicos dos EUA vai a 0–0,25% 2.
- 2 de abril de 2009: cúpula do G20 em Londres 5.
- Junho de 2009: fim da recessão nos EUA, segundo a datação oficial 2.
Mecanismos e atores
A crise combinou um problema de solvência, perdas reais com hipotecas que não seriam pagas, e um problema de liquidez, a corrida de credores de curto prazo contra instituições cuja exposição às perdas ninguém conseguia avaliar. Como as mesmas apostas no mercado imobiliário estavam espalhadas por muitas instituições, a queda dos preços produziu um "choque comum", e o medo de que a quebra de uma grande instituição contaminasse as demais (risco de contágio) paralisou o crédito 1 3.
Os atores identificados pela comissão incluem originadores de hipotecas, bancos de investimento (Bear Stearns, Lehman Brothers, Merrill Lynch, Goldman Sachs, Morgan Stanley), grandes bancos comerciais (Citigroup, Bank of America, Washington Mutual, Wachovia), a seguradora AIG, as agências de classificação de risco, Fannie Mae e Freddie Mac, e os reguladores, o Fed, a Securities and Exchange Commission, o Office of Thrift Supervision e outros 1. A comissão concluiu ainda que houve uma "quebra sistêmica de responsabilidade e ética"; investigações e processos civis resultaram em acordos bilionários de bancos com autoridades dos EUA nos anos seguintes, mas quase nenhum executivo de grande instituição foi condenado criminalmente, um ponto muito discutido.
Impactos econômicos e sociais
- Emprego. Nos EUA, a taxa de desemprego subiu de 5% em dezembro de 2007 para 9,5% em junho de 2009 e atingiu 10% em outubro de 2009 2. Quando o relatório da comissão foi publicado, em janeiro de 2011, mais de 26 milhões de estadunidenses estavam desempregados, sem conseguir trabalho em tempo integral ou haviam desistido de procurar 1.
- Moradia. Os preços dos imóveis caíram em média cerca de 30% entre meados de 2006 e meados de 2009 2. Cerca de 4 milhões de famílias haviam perdido suas casas por execução hipotecária até o início de 2011, e outros 4,5 milhões de mutuários estavam em processo de execução ou com atrasos graves 1. As perdas concentraram-se em famílias de renda média e baixa e, segundo vários estudos, em bairros de maioria negra e latina 6.
- Riqueza. O patrimônio líquido das famílias estadunidenses caiu de cerca de US$ 69 trilhões em 2007 para cerca de US$ 55 trilhões em 2009 2; a comissão fala em quase US$ 11 trilhões de riqueza perdida 1.
- Mundo. A produção industrial e o comércio mundiais caíram fortemente no fim de 2008 e início de 2009; países europeus muito expostos (Islândia, Irlanda, Reino Unido, Espanha) sofreram crises bancárias. A crise financeira desdobrou-se depois na crise da dívida da zona do euro (a partir de 2010, com Grécia, Irlanda, Portugal, Espanha e Itália), que tem dinâmica própria e não é tratada aqui 7.
- Política. Resgates de bancos ao lado de desemprego e despejos alimentaram protestos (como o Occupy Wall Street, em 2011) e, segundo muitos analistas, a desconfiança em relação às elites políticas e financeiras na década seguinte 7.
O Brasil na crise
O contágio chegou ao Brasil sobretudo a partir de setembro de 2008, pela fuga de capitais, pela desvalorização do real, pela interrupção do crédito externo ao comércio e pela queda das exportações e dos preços de commodities. Empresas que haviam feito apostas cambiais com derivativos sofreram perdas grandes. A produção industrial caiu fortemente no último trimestre de 2008 8.
As respostas incluíram a liberação de depósitos compulsórios dos bancos e leilões de dólares pelo Banco Central; a linha de swap de até US$ 30 bilhões com o Fed, aberta em 29 de outubro de 2008 4; o aumento do crédito dos bancos públicos (Banco do Brasil, Caixa, BNDES); reduções de impostos sobre bens duráveis; e, a partir de janeiro de 2009, cortes da taxa Selic, que caiu de 13,75% para 8,75% ao ano até meados de 2009 8.
O PIB brasileiro recuou 0,2% em 2009, segundo o primeiro cálculo das contas nacionais trimestrais, sujeito a revisão, com recuperação vigorosa já no fim daquele ano 8; revisões posteriores do IBGE alteraram ligeiramente o número. Defensores das políticas do governo Lula as consideram um caso de resposta anticíclica bem-sucedida; críticos argumentam que a expansão do crédito público e dos estímulos, mantida nos anos seguintes, contribuiu para desequilíbrios fiscais posteriores. O tema é tratado em capitalismo no Brasil.
Respostas: resgates, bancos centrais e G20
- Federal Reserve. Cortou os juros de 5,25% (setembro de 2007) para 0–0,25% (dezembro de 2008), passou a sinalizar juros baixos por longo tempo e lançou compras de ativos em grande escala, títulos hipotecários de agências a partir de novembro de 2008 e títulos do Tesouro, conhecidas como quantitative easing: cerca de US$ 1,75 trilhão na primeira rodada e US$ 600 bilhões na segunda (2010–2011) 2. Criou linhas especiais de liquidez e linhas de swap com outros bancos centrais 4.
- Tesouro e Congresso dos EUA. O TARP autorizou até US$ 700 bilhões, usados sobretudo para injetar capital em bancos, socorrer a AIG e as montadoras de automóveis 1. Um pacote fiscal de estímulo foi aprovado em fevereiro de 2009.
- Europa e outros países. Garantias de depósitos e de dívidas bancárias, recapitalizações e nacionalizações parciais de bancos (Reino Unido, Irlanda, Países Baixos, Alemanha e outros); estímulos fiscais na China e em outras economias emergentes.
- G20. Em abril de 2009, em Londres, os líderes do G20 anunciaram US$ 1,1 trilhão em apoio adicional, a triplicação dos recursos do FMI para US$ 750 bilhões, uma alocação geral de US$ 250 bilhões em direitos especiais de saque, US$ 250 bilhões para financiamento do comércio, expansão fiscal estimada em US$ 5 trilhões até o fim de 2010 e a criação do Conselho de Estabilidade Financeira (FSB) 5.
Regulação e reformas
- Dodd-Frank (EUA, 2010). A Dodd-Frank Wall Street Reform and Consumer Protection Act, sancionada em julho de 2010, criou um conselho de supervisão de risco sistêmico, um procedimento de liquidação ordenada para grandes instituições e um órgão de proteção ao consumidor financeiro; trouxe a regra Volcker, que limita operações por conta própria dos bancos; e regras sobre derivativos de balcão, agências de classificação, securitização (retenção de risco) e remuneração de executivos 9. Parte dessas regras foi flexibilizada por lei em 2018.
- Basileia III. O Comitê de Basileia de Supervisão Bancária publicou em dezembro de 2010 (revisão em junho de 2011) um novo conjunto de padrões: mais capital e de melhor qualidade, colchões anticíclicos, exigências de liquidez (LCR, publicada em 2013, e NSFR, em 2014) e requisitos maiores para bancos sistemicamente importantes. As reformas pós-crise foram concluídas em dezembro de 2017, com implantação gradual até 2028 10.
- Avaliações. Para seus defensores, as reformas tornaram os grandes bancos mais capitalizados e menos dependentes de financiamento de curto prazo. Críticos de um lado as consideram excessivas e custosas para o crédito; críticos de outro, insuficientes, porque não reduziram o tamanho das instituições "grandes demais para quebrar" nem o peso do sistema bancário paralelo 7.
Interpretações concorrentes
Nenhuma explicação única é aceita como consenso. As principais leituras:
Regulação insuficiente: a maioria da comissão de inquérito
A Financial Crisis Inquiry Commission (FCIC), criada pelo Congresso dos EUA, publicou seu relatório em janeiro de 2011. Seis comissários (Phil Angelides, Brooksley Born, Byron Georgiou, Bob Graham, Heather Murren e John W. Thompson) aprovaram as conclusões; quatro (Keith Hennessey, Douglas Holtz-Eakin, Bill Thomas e Peter Wallison) divergiram 1.
A maioria concluiu que a crise era evitável e resultou de ação e omissão humanas, e listou: falhas generalizadas de regulação e supervisão, ligadas à fé na autocorreção dos mercados; falhas dramáticas de governança e gestão de risco nas grandes instituições; endividamento excessivo, investimentos arriscados e falta de transparência; despreparo e respostas inconsistentes do governo; quebra sistêmica de responsabilidade e ética; colapso dos padrões de crédito hipotecário e da cadeia de securitização; papel significativo dos derivativos de balcão (cuja regulação foi vetada por lei em 2000); e falhas das agências de classificação de risco. Fannie Mae e Freddie Mac teriam contribuído, mas não como causa principal; a liquidez global abundante teria sido condição, mas não causa necessária 1.
As dissidências do próprio relatório
Keith Hennessey, Douglas Holtz-Eakin e Bill Thomas criticaram o relatório da maioria por ser amplo demais, "mais um relato de eventos ruins do que uma explicação focada", e listaram dez causas essenciais, globais e domésticas: a bolha de crédito, alimentada por grandes superávits de poupança da China, de outros emergentes e de exportadores de petróleo; a bolha imobiliária; hipotecas não tradicionais; falhas de avaliação de crédito e securitização; concentração e correlação de riscos em instituições financeiras; alavancagem e risco de liquidez; risco de contágio; choque comum; pânico financeiro em setembro de 2008; e o efeito da crise financeira sobre a economia real. Para eles, a política monetária dos EUA pode ter amplificado a bolha, mas não foi essencial 1.
Peter Wallison escreveu uma dissidência separada: para ele, a causa sem a qual a crise não teria ocorrido foi a política habitacional do governo dos EUA, iniciada pelo Congresso em 1992 e aplicada por governos democratas e republicanos, que teria rebaixado os padrões de crédito e levado à criação de cerca de 27 milhões de hipotecas subprime e de alto risco 1. A tese foi contestada pela maioria e por muitos pesquisadores, que mostram que as hipotecas de pior desempenho foram originadas sobretudo por credores privados fora das metas governamentais.
Desequilíbrios globais e "excesso de poupança"
Em 2005, Ben Bernanke, então diretor do Fed, argumentou que um excesso global de poupança, economias emergentes que passaram de tomadoras a emprestadoras depois de suas próprias crises, e países ricos envelhecidos, explicava o grande déficit externo dos EUA, os juros longos baixos e a alta dos preços de ativos, inclusive imóveis 11. A ideia aparece na dissidência de Hennessey, Holtz-Eakin e Thomas 1. Críticos observam que bancos europeus, e não só superávits asiáticos, financiaram boa parte dos títulos hipotecários estadunidenses, e que a tese pode deslocar para fora a responsabilidade de instituições dos EUA 7.
Política monetária frouxa: Taylor
O economista John B. Taylor sustentou que o Fed manteve os juros baixos demais entre 2002 e 2005, em relação ao que sua própria regra de política recomendaria, alimentando a bolha imobiliária, e que intervenções governamentais durante a crise aumentaram a incerteza 12. Bernanke e outros responderam que a relação entre juros e preços dos imóveis entre países é fraca e que a regulação era o instrumento adequado. A maioria da FCIC tratou a liquidez abundante como condição, não como causa principal 1.
Instabilidade financeira: Minsky
A crise popularizou a obra do economista pós-keynesiano Hyman Minsky (1919–1996), para quem economias capitalistas com sistemas financeiros sofisticados tendem endogenamente à instabilidade: períodos de estabilidade incentivam o endividamento crescente, que passa de posições "protegidas" a "especulativas" e "Ponzi", até que uma reversão provoca vendas forçadas e crise 13. A expressão "momento Minsky" passou a ser usada por analistas de mercado. A leitura dialoga com o Keynesianismo e é usada tanto para defender regulação quanto em críticas mais amplas ao capitalismo financeiro.
Desigualdade e crédito: Rajan e outros
Em Fault Lines (2010), Raghuram Rajan, ex-economista-chefe do FMI, argumentou que o aumento da desigualdade de renda nos EUA levou a pressões políticas por crédito fácil às famílias de renda média e baixa, como substituto de aumentos de renda, uma "falha geológica" que, junto com os desequilíbrios globais e os incentivos do setor financeiro, preparou a crise 14. Atif Mian e Amir Sufi destacaram o papel do endividamento das famílias e da queda de seu consumo na profundidade da recessão 6. Ver também participação dos salários na renda e coeficiente de Gini.
Interpretações marxistas e críticas da financeirização
Autores marxistas divergem entre si. Para Costas Lapavitsas, a crise expressa a financeirização: bancos passaram a lucrar cada vez mais com empréstimos e taxas cobradas das famílias, e empresas não financeiras passaram a se financiar no mercado de capitais, numa transformação estrutural do capitalismo desde os anos 1970 15. David Harvey situa a crise nas contradições da circulação do capital e no neoliberalismo 16. Andrew Kliman, ao contrário, argumenta que a causa de fundo foi a queda persistente da taxa de lucro desde os anos 1970, que teria levado ao crescimento da dívida, e não o neoliberalismo ou as finanças em si 17. Essas leituras tratam a crise como manifestação de tendências sistêmicas, não como acidente regulatório. Ver financeirização e Lucro.
Comparações históricas
Carmen Reinhart e Kenneth Rogoff compararam a crise a oito séculos de crises financeiras e observaram padrões recorrentes, bolhas de crédito e ativos, a crença de que "desta vez é diferente", recessões longas após crises bancárias 18. Adam Tooze reconstruiu a crise como fenômeno transatlântico, centrado nas relações entre bancos dos EUA e da Europa e no papel do Fed como emprestador de última instância mundial 7. Gary Gorton descreveu o pânico de 2007–2008 como uma corrida bancária clássica no sistema bancário paralelo 3.
Lições e limitações
As respostas de 2008–2009 foram desenhadas, em boa parte, com as lições da Grande Depressão: evitar o colapso bancário, injetar liquidez e coordenar políticas internacionalmente. A economia mundial não caiu numa depressão comparável à dos anos 1930, e os defensores dessas políticas atribuem a diferença a elas; críticos apontam que os resgates socializaram perdas privadas e beneficiaram acionistas e credores, que a recuperação foi lenta e desigual, e que a austeridade fiscal adotada a partir de 2010, sobretudo na Europa, prolongou o desemprego 7.
Persistem dúvidas sobre a capacidade da regulação de acompanhar a inovação financeira, sobre o risco moral criado por resgates de instituições grandes demais para quebrar e sobre a relação entre desigualdade, endividamento e crises. Para quem segue a jornada de leitura sobre o sistema financeiro, os próximos passos são financeirização, concorrência e monopólio (concentração bancária) e Fundo Monetário Internacional.
Cronologia
agosto de 2007
Congelamento de mercados interbancários; início da fase aguda.1
dezembro de 2007
Início da recessão nos EUA (até junho de 2009).2
março de 2008
Venda do Bear Stearns ao JPMorgan com apoio do Fed.1
7 de setembro de 2008
Fannie Mae e Freddie Mac sob tutela do governo.1
15 de setembro de 2008
Falência do Lehman Brothers.1
16 de setembro de 2008
Fed oferece US$ 85 bilhões à AIG.1
outubro de 2008
Aprovação do TARP (US$ 700 bilhões).1
29 de outubro de 2008
Fed abre linhas de swap com Brasil, México, Coreia do Sul e Singapura.4
dezembro de 2008
Juros básicos dos EUA a 0–0,25%.2
2 de abril de 2009
Cúpula do G20 em Londres; criação do Conselho de Estabilidade Financeira.5
outubro de 2009
Desemprego nos EUA atinge 10%.2
julho de 2010
Sanção da lei Dodd-Frank.9
dezembro de 2010
Publicação de Basileia III.10
janeiro de 2011
Relatório final da Financial Crisis Inquiry Commission.1
7 de dezembro de 2017
Conclusão das reformas pós-crise de Basileia III.10
Bibliografia comentada
Financial Crisis Inquiry Commission (EUA). The Financial Crisis Inquiry Report: Final Report of the National Commission on the Causes of the Financial and Economic Crisis in the United States (2011)
Relatório oficial dos EUA, com conclusões da maioria e duas declarações divergentes; fonte documental indispensável, a ler junto às dissidências.
Adam Tooze. Crashed: How a Decade of Financial Crises Changed the World (2018)
História abrangente da crise e da década seguinte, com ênfase nas ligações entre EUA e Europa e nas consequências políticas.
Carmen M. Reinhart; Kenneth S. Rogoff. This Time Is Different: Eight Centuries of Financial Folly (2009)
Comparação de longo prazo com crises financeiras anteriores; base de muitas análises sobre recessões pós-crise bancária.
Hyman P. Minsky. Stabilizing an Unstable Economy (1986)
Teoria da instabilidade financeira endógena, redescoberta com a crise.
Raghuram G. Rajan. Fault Lines: How Hidden Fractures Still Threaten the World Economy (2010)
Interpretação de um economista convencional que relaciona desigualdade, crédito e desequilíbrios globais.
Costas Lapavitsas. Profiting Without Producing: How Finance Exploits Us All (2013)
Interpretação marxista centrada na financeirização; útil junto à leitura de Kliman, que diverge.
Gary B. Gorton. Slapped by the Invisible Hand: The Panic of 2007 (2010)
Análise do pânico como corrida no sistema bancário paralelo.
Fontes
“Consultada” indica que o endereço foi aberto na data informada. “Referência bibliográfica” indica obra citada sem conferência de página nesta versão.
- 1Financial Crisis Inquiry Commission (EUA). The Financial Crisis Inquiry Report: Final Report of the National Commission on the Causes of the Financial and Economic Crisis in the United States. U.S. Government Publishing Office (govinfo), 2011.[Fonte oficial · consultada em 19 de outubro de 2026]Consultados as conclusões da maioria (p. xv–xxviii), a lista de comissários e as declarações divergentes (Hennessey, Holtz-Eakin e Thomas; Wallison). Publicado em janeiro de 2011.
- 2Robert Rich. The Great Recession. Federal Reserve History (Federal Reserve System).[Obra de referência · consultada em 19 de outubro de 2026]
- 3Gary B. Gorton. Slapped by the Invisible Hand: The Panic of 2007. Oxford University Press, 2010.[Historiografia · referência bibliográfica]
- 4Board of Governors of the Federal Reserve System. Comunicado de 29 de outubro de 2008 sobre linhas de swap com os bancos centrais do Brasil, México, Coreia do Sul e Singapura. 2008.[Fonte oficial · consultada em 19 de outubro de 2026]
- 5G20. Global Plan for Recovery and Reform (comunicado da Cúpula de Londres, 2 de abril de 2009). G20 Information Centre, Universidade de Toronto, 2009.[Fonte primária · consultada em 19 de outubro de 2026]
- 6Atif Mian; Amir Sufi. House of Debt. University of Chicago Press, 2014.[Historiografia · referência bibliográfica]
- 7Adam Tooze. Crashed: How a Decade of Financial Crises Changed the World. Allen Lane / Viking, 2018.[Historiografia · referência bibliográfica]
- 8Banco Central do Brasil, Departamento Econômico. Programação Monetária para o segundo trimestre e para o ano de 2010. 2010.[Fonte oficial · consultada em 19 de outubro de 2026]Usado para o recuo de 0,2% do PIB em 2009 (dado preliminar, sujeito a revisão) e para a trajetória da meta Selic (13,75% a 8,75% ao ano).
- 9U.S. Securities and Exchange Commission. Dodd-Frank Wall Street Reform and Consumer Protection Act (página de regulamentação da SEC).[Fonte oficial · consultada em 19 de outubro de 2026]
- 10Bank for International Settlements, Basel Committee on Banking Supervision. Basel III: international regulatory framework for banks.[Fonte oficial · consultada em 19 de outubro de 2026]
- 11Ben S. Bernanke. The Global Saving Glut and the U.S. Current Account Deficit (Sandridge Lecture, Richmond, 10 de março de 2005). Federal Reserve Board, 2005.[Fonte primária · consultada em 19 de outubro de 2026]
- 12John B. Taylor. The Financial Crisis and the Policy Responses: An Empirical Analysis of What Went Wrong. NBER Working Paper 14631, 2009.[Historiografia · consultada em 19 de outubro de 2026]Consultado o resumo. O argumento sobre juros "baixos demais" em 2002–2005 é resumido a partir do conhecimento geral da obra (Getting Off Track, 2009) e deve ser conferido no texto.
- 13Hyman P. Minsky. Stabilizing an Unstable Economy. Yale University Press, 1986.[Historiografia · referência bibliográfica]
- 14Raghuram G. Rajan. Fault Lines: How Hidden Fractures Still Threaten the World Economy. Princeton University Press, 2010.[Historiografia · referência bibliográfica]
- 15Costas Lapavitsas. Profiting Without Producing: How Finance Exploits Us All. Verso, 2013.[Historiografia · referência bibliográfica]
- 16David Harvey. The Enigma of Capital and the Crises of Capitalism. Profile Books, 2010.[Historiografia · referência bibliográfica]Em português: O enigma do capital (Boitempo).
- 17Andrew Kliman. The Failure of Capitalist Production: Underlying Causes of the Great Recession. Pluto Press, 2012.[Historiografia · referência bibliográfica]
- 18Carmen M. Reinhart; Kenneth S. Rogoff. This Time Is Different: Eight Centuries of Financial Folly. Princeton University Press, 2009.[Historiografia · referência bibliográfica]
Rede de relações
Ligações documentadas com tipo, período e fonte. Verbetes ainda planejados aparecem tracejados e sem link.
relacionado a
- FinanceirizaçãoConceito
- Capital financeiro (verbete planejado)Conceito
- Crises capitalistas (verbete planejado)Conceito
- Concorrência e monopólioConceito
- LucroConceitoFonte: The Failure of Capitalist Production: Underlying Causes of the Great Recession
- KeynesianismoEscola econômicaFonte: Stabilizing an Unstable Economy
- Fundo Monetário Internacional (FMI)OrganizaçãoRecursos triplicados pelo G20 em 2009. Fonte: Global Plan for Recovery and Reform (comunicado da Cúpula de Londres, 2 de abril de 2009)
- Grande DepressãoAcontecimento
- Crise da dívida latino-americanaAcontecimento
- Capitalismo no BrasilPaís e experiência históricaFonte: Programação Monetária para o segundo trimestre e para o ano de 2010
- Comunismo nos Estados Unidos (verbete planejado)País e experiência histórica
- Luiz Inácio Lula da SilvaPessoaPresidente do Brasil durante a crise.
- Coeficiente de GiniPergunta e guia
- Participação dos salários na rendaPergunta e guia
- PIB e PIB per capitaPergunta e guia
- O capital financeiro (verbete planejado)Obra
- A grande transformaçãoObraFonte: The Great Transformation: The Political and Economic Origins of Our Time (Penguin Modern Classics), amostra oficial (capa, ficha, sumário, introdução, nota de 2001 e início do cap. 1) (no verbete A grande transformação)
- Economia neoclássicaEscola econômica
- Escola austríaca de economiaEscola econômica
- John Maynard KeynesPessoa
- Teoria geral do emprego, do juro e da moedaObraFonte: What Is Keynesian Economics? (no verbete Teoria geral do emprego, do juro e da moeda)
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Histórico e revisão
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- Criado em
- 19 de outubro de 2026
- Atualizado em
- 19 de outubro de 2026
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- Revisão humana
- Tiago Moura Cesar do Nascimento
- 20 de outubro de 2026 · revisao editorialRevisão e publicação no Exército Lula.Tiago Moura Cesar do Nascimento
- 19 de outubro de 2026 · redacaoRedação a partir do relatório da FCIC (PDF no govinfo: conclusões, lista de comissários e dissidências), de Federal Reserve History (Rich), do comunicado do Fed de 29/10/2008, da Programação Monetária do BCB (mar. 2010), das páginas do BIS (Basileia III), da SEC (Dodd-Frank) e do comunicado do G20 de Londres; resumos de Bernanke (2005) e Taylor (2009). Demais obras citadas como referência bibliográfica sem consulta. Pendente: conferir data exata de sanção do Dodd-Frank (21/7/2010) e do TARP (3/10/2008) em fonte primária; conferir valor revisado do PIB brasileiro de 2009 no IBGE; conferir as medidas brasileiras (compulsórios, IPI, bancos públicos) em fontes oficiais; conferir a afirmação sobre concentração das execuções em bairros negros e latinos em Mian e Sufi ou estudos específicos; conferir a lei de 2018 que flexibilizou o Dodd-Frank.Redação assistida por IA (Claude), sem revisão humana
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Como citar: Crise financeira de 2008. In: Enciclopédia do Exército Lula. Versão de 20 de outubro de 2026. Disponível em: https://exercitolula.com.br/enciclopedia/crise-financeira-de-2008.
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