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ConceitoPublicado

Socialismo utópico

Os primeiros socialismos (c. 1800–1850), seus antecedentes e a história de um rótulo polêmico

Nome dado, sobretudo a partir de Marx e Engels, às doutrinas de Saint-Simon, Fourier, Owen, Cabet e outros na primeira metade do século XIX. É uma classificação retrospectiva e polêmica, hoje discutida por historiadores.

Também: socialismo crítico-utópico · primeiros socialistas · early socialism · socialisme utopique

Índice e ficha

Socialismo utópico é a expressão com que se costuma designar o conjunto de doutrinas e experiências socialistas surgidas na Europa ocidental e nos Estados Unidos entre o fim das guerras napoleônicas e as revoluções de 1848. Os nomes centrais são os do francês Henri de Saint-Simon (1760–1825), do francês Charles Fourier (1772–1837), do galês Robert Owen (1771–1858) e do francês Étienne Cabet (1788–1856), além de seus discípulos.

É preciso começar por uma advertência: "utópico" não é uma autodenominação. Nenhum desses autores se apresentou assim. A expressão consolidou-se como classificação retrospectiva e crítica, sobretudo no capítulo III do Manifesto do Partido Comunista (1848), que fala em socialismo e comunismo "crítico-utópicos" 1, e no folheto de Engels conhecido como Do socialismo utópico ao socialismo científico (1880) 2. Historiadores como Gregory Claeys defendem hoje que a oposição entre um socialismo "utópico" e outro "científico" é enganosa e deveria ser abandonada 3.

Este verbete trata de três coisas: (1) os antecedentes frequentemente evocados, e por que eles não são "socialismo" no sentido moderno; (2) as doutrinas e experiências dos primeiros socialistas; (3) a história do rótulo "utópico" e o debate em torno dele. Para o conceito geral, ver Socialismo; para a obra de More, Utopia.

Antecedentes: o que veio antes e como chamá-lo

Explicação conceitualInterpretação historiográficaDebate em aberto

Muitas histórias do socialismo começam milênios antes do século XIX. Para não confundir o leitor, esta enciclopédia distingue três categorias:

  • Antecedente: fenômeno anterior que influenciou de fato, de forma documentável, os primeiros socialistas (por exemplo, a Revolução Francesa ou a leitura da Utopia de More).
  • Aproximação retrospectiva: fenômeno que autores posteriores compararam ao socialismo por semelhança, bens em comum, igualdade, ausência de propriedade privada da terra, sem que tenha havido influência direta ou sem que os participantes partilhassem os objetivos do socialismo moderno.
  • Movimento socialista propriamente dito: doutrinas e organizações que, a partir das primeiras décadas do século XIX, propuseram reorganizar a sociedade industrial com base na associação, na propriedade comum ou social e na superação da concorrência, e que passaram a usar a palavra "socialismo" (ou "comunismo") para isso.

O socialismo moderno, nesse sentido estrito, é inseparável de três condições históricas: a Revolução Industrial, a formação de uma classe trabalhadora assalariada e a herança política da Revolução Francesa. Fenômenos anteriores a essas condições podem ser antecedentes ou aproximações, mas não "socialismo" no mesmo sentido.

Propriedade coletiva, comunidades igualitárias e religiosas

Explicação conceitualInterpretação historiográfica

Formas de uso coletivo da terra e de recursos existiram em muitas sociedades: terras comunais camponesas na Europa medieval e moderna, sistemas de posse coletiva em sociedades indígenas das Américas, da África e da Ásia, comunidades religiosas que praticavam a comunhão de bens, dos relatos sobre os primeiros cristãos às ordens monásticas e a grupos da Reforma radical. Também houve revoltas camponesas com programas igualitários, como as associadas a Thomas Müntzer na Alemanha do século XVI ou aos Levellers e Diggers na revolução inglesa do século XVII. Engels, em 1880, citava Müntzer, os Levellers e Babeuf como explosões precoces da classe que depois se tornaria o proletariado 2, uma leitura retrospectiva própria do marxismo.

Chamar essas sociedades ou grupos de "socialistas" é anacrônico: elas não respondiam ao capitalismo industrial, frequentemente combinavam bens comuns com hierarquias rígidas (de linhagem, de gênero, religiosas) e tinham finalidades próprias, salvação religiosa, reprodução de uma comunidade de parentesco, defesa de direitos costumeiros. Quando autores socialistas posteriores as invocaram, como Mariátegui ao discutir o ayllu andino, o fizeram para pensar o presente, e não para afirmar que os povos andinos fossem socialistas no sentido europeu do século XX. A enciclopédia trata esses casos como aproximações retrospectivas, e cada uso deve indicar quem fez a comparação e com que propósito.

Utopias literárias: de More ao século XVIII

Fatos documentadosInterpretação historiográfica

A palavra "utopia" vem do livro de Thomas More, publicado em latim em 1516, que descreve uma ilha imaginária sem propriedade privada (ver Utopia (Thomas More)) 4. O gênero utópico teve longa descendência, A cidade do sol de Tommaso Campanella (escrita em 1602), Nova Atlântida de Francis Bacon (1627) e, no século XVIII, projetos como o Código da natureza atribuído a Morelly (1755) 5.

Essas obras são antecedentes no sentido de que forneceram imagens de sociedades sem propriedade privada e foram lidas pelos primeiros socialistas; mas eram em geral exercícios filosóficos, morais ou satíricos, escritos por humanistas e eruditos, sem movimento social que as reivindicasse. O próprio More, chanceler da Inglaterra, nunca propôs pôr seu livro em prática. O nome "utópico" aplicado aos socialistas do século XIX joga com esse sentido literário de "lugar que não existe".

Iluminismo, Revolução Francesa e a Conspiração dos Iguais

Fatos documentadosInterpretação historiográfica

O Iluminismo deu aos primeiros socialistas a confiança na razão como medida das instituições sociais e a ideia de que a sociedade pode ser reorganizada segundo princípios. A Revolução Francesa deu-lhes o vocabulário da igualdade e a experiência de uma transformação política radical. Engels resumiu em 1880 o que viam os primeiros socialistas: o "reino da razão" prometido pela Revolução revelou-se, na prática, o reino idealizado da burguesia, com especulação, corrupção e miséria crescente ao lado das promessas de igualdade e fraternidade 2.

O episódio mais citado como ponte entre a Revolução e o socialismo é a Conspiração dos Iguais (1796). François-Noël "Gracchus" Babeuf reuniu seguidores numa "Sociedade dos Iguais" e preparou uma insurreição contra o Diretório; o Manifesto dos Iguais, redigido por Sylvain Maréchal, pedia igualdade absoluta e abolição da propriedade privada. Denunciada por um dos conjurados, Georges Grisel, a conspiração foi desbaratada em maio de 1796 (Babeuf foi preso em 10 de maio); Babeuf e Augustin Darthé foram condenados e executados em 27 de maio de 1797. O livro de Philippe Buonarroti sobre a conspiração (1828) manteve sua memória viva entre os republicanos e comunistas das décadas seguintes 6.

O babovismo é um antecedente no sentido forte, houve influência direta, via Buonarroti, sobre o comunismo revolucionário francês dos anos 1830 e 1840, mas é distinto do "socialismo utópico": era insurrecional, ao passo que Saint-Simon, Fourier e Owen recusavam a ação revolucionária.

Revolução Industrial, formação da classe trabalhadora e associativismo

Fatos documentadosInterpretação historiográfica

O socialismo surgiu como resposta à Revolução Industrial: a fábrica mecanizada, o trabalho infantil e feminino em jornadas longas, as cidades operárias insalubres e as crises periódicas. Os primeiros socialistas criticaram o individualismo liberal por ignorar a pobreza e a desigualdade e opuseram à concorrência a ideia de associação 7.

Ao mesmo tempo, trabalhadores criavam suas próprias formas de organização: sociedades de socorro mútuo, sindicatos (ilegais em boa parte da Europa no início do século), cooperativas de consumo e de produção, clubes políticos e uma imprensa operária. O historiador britânico E. P. Thompson, em A formação da classe operária inglesa (1963), sustentou que a classe trabalhadora inglesa "fez-se a si mesma" entre 1780 e 1832, por meio dessas experiências 8. O socialismo dos anos 1820–1840 cruzou-se com esse associativismo, os owenistas, por exemplo, estiveram ligados a cooperativas e sindicatos, mas não se confundiu com ele: muitos sindicalistas e cartistas não eram socialistas, e muitos socialistas desconfiavam da política operária (ver adiante). Ver também Cooperativismo.

A palavra "socialismo" data justamente desse período. Pierre Leroux, ligado aos saint-simonianos, afirmou tê-la usado no jornal Le Globe em 1832; na Inglaterra, o termo circulou entre os owenistas, e a Associação de Todas as Classes de Todas as Nações, fundada por Owen em 1835, ajudou a difundi-lo 7 9. Até os anos 1860, "socialismo" convivia com sinônimos como "associacionismo", "cooperativismo", "mutualismo" e "coletivismo" 7.

Saint-Simon e os saint-simonianos

Fatos documentadosFormulação teórica

Claude-Henri de Rouvroy, conde de Saint-Simon (Paris, 1760–1825), aristocrata que participou da guerra de independência dos Estados Unidos e atravessou a Revolução, escreveu entre 1802 e 1825 uma série de obras, Cartas de um habitante de Genebra (1802 ou 1803), L'Industrie (1816–1817), L'Organisateur (1819–1820), Do sistema industrial (1821–1822), Catecismo dos industriais (1823–1824) e Novo cristianismo (1825) 10.

Saint-Simon não propunha a abolição da propriedade privada. Seu tema era a sociedade industrial: o poder deveria passar dos "ociosos" (aristocracia, militares, juristas, rentistas) para os "industriais", termo que incluía trabalhadores, cientistas, engenheiros, banqueiros e empresários, e a política deveria transformar-se em administração racional da produção. Engels, que o tratou com respeito, atribuiu-lhe a intuição de que a política seria absorvida pela economia e de que o governo sobre pessoas daria lugar à "administração das coisas" 2.

Depois de sua morte, discípulos como Barthélemy-Prosper Enfantin e Amand Bazard transformaram suas ideias numa doutrina mais coletivista, que criticava a herança e defendia a organização planejada do crédito e da produção, e num movimento quase religioso. Em 1831 compraram o jornal Le Globe; Bazard rompeu com Enfantin, que fundou uma comunidade em Ménilmontant, pregou uma moral sexual nova e anunciou uma "Mãe" messiânica; o grupo foi processado e se dispersou 10. Muitos ex-saint-simonianos tornaram-se depois banqueiros, engenheiros e promotores de ferrovias e do canal de Suez, o que mostra a ambiguidade do legado: ele alimentou tanto o socialismo quanto o capitalismo industrial planejado e a tecnocracia. Auguste Comte foi seu secretário e discípulo mais conhecido 10.

Fourier, o falanstério e a crítica da "civilização"

Fatos documentadosFormulação teórica

Charles Fourier (Besançon, 1772 – Paris, 1837) foi caixeiro-viajante e empregado de comércio durante boa parte da vida. Publicou anonimamente em Lyon, em 1808, a Teoria dos quatro movimentos, que vendeu pouco, e desenvolveu sua doutrina em obras posteriores; o manuscrito O novo mundo amoroso (1816–1818) só foi editado integralmente em 1967 11.

Para Fourier, a "civilização" comercial era uma ordem de fraude, desperdício e infelicidade. Ele propunha substituí-la por falanges, associações de cerca de 1.620 pessoas vivendo num grande edifício comum, o falanstério, onde o trabalho seria organizado segundo as inclinações individuais ("paixões", que ele classificava minuciosamente) e se tornaria trabalho atraente, com rodízio de tarefas 11. As falanges não aboliam o capital nem a desigualdade de rendimentos: o produto seria repartido entre trabalho, capital e talento.

Fourier é lembrado também pela crítica à condição das mulheres. Engels citou dele a ideia de que o grau de emancipação da mulher é a medida natural da emancipação geral 2; a palavra "feminismo" é por vezes atribuída a ele, atribuição que fontes de referência registram com cautela 11. Engels via em Fourier um crítico mordaz da burguesia e um pensador dialético da história, que dividia em fases (selvageria, barbárie, patriarcado, civilização) 2.

Discípulos como Victor Considerant difundiram o fourierismo na França dos anos 1840 e o levaram à política de 1848. Nos Estados Unidos surgiram dezenas de "falanges", entre elas Brook Farm (Massachusetts) e a North American Phalanx (Nova Jersey), e, no Texas, a colônia La Réunion; na França, o Familistério de Guise, fundado pelo industrial Jean-Baptiste Godin, inspirou-se em Fourier 11. O historiador Jonathan Beecher escreveu a biografia de referência 12.

Robert Owen: New Lanark, New Harmony e o movimento operário

Fatos documentadosFormulação teórica

Robert Owen (1771–1858) foi um industrial do algodão. Com sócios, comprou em 1799 as fiações de New Lanark, na Escócia, que dirigiu a partir de janeiro de 1800 9. Ali reduziu a jornada (para 10 horas e meia, segundo Engels), proibiu o trabalho de crianças pequenas, criou escolas desde a primeira infância, o Instituto para a Formação do Caráter abriu em 1816–1818, conforme a fonte, manteve salários durante uma crise do algodão e, ainda assim, a empresa deu lucro 2 9. Sua tese, exposta em Uma nova visão da sociedade (1813), era que o caráter humano é formado pelas circunstâncias; mudando-se as circunstâncias, muda-se o caráter 9.

A partir de 1817, Owen passou a defender comunidades cooperativas ("aldeias de cooperação") como solução para o desemprego e a pobreza. Em 1825 comprou a cidade de Harmony, em Indiana, da seita religiosa de George Rapp, e fundou New Harmony, comunidade que se dissolveu em abril de 1827, depois de cerca de dois anos 9. De volta à Grã-Bretanha, Owen aproximou-se do movimento operário: abriu em 1832 a National Equitable Labour Exchange, onde produtos eram trocados por "notas de trabalho" (funcionou em Londres até 1833), e presidiu brevemente em 1834 a Grand National Consolidated Trades Union, que se desfez no mesmo ano 9. Engels lembra que Owen apoiou a lei fabril de 1819, os sindicatos e as cooperativas, e trabalhou ainda trinta anos junto à classe operária depois do fracasso americano 2.

O legado mais duradouro do owenismo foi o movimento cooperativo: lojas cooperativas inspiradas em suas ideias se multiplicaram nos anos 1820 e 1830 e prepararam o terreno para os Pioneiros de Rochdale (1844) (ver Cooperativismo). A historiadora Barbara Taylor estudou o lugar das mulheres e do feminismo no owenismo 13.

Cabet, os icarianos e outros nomes

Fatos documentados

Étienne Cabet (Dijon, 1788 – St. Louis, 1856), republicano condenado ao exílio em 1834, publicou Viagem a Icária (1839/1840, conforme a edição), romance que descreve uma república comunista igualitária e pacífica 14. Diferentemente de Saint-Simon e Fourier, Cabet se dizia comunista e teve grande audiência entre artesãos franceses nos anos 1840. Em fevereiro de 1848 seus seguidores partiram para os Estados Unidos; a primeira tentativa, no Texas, fracassou; uma comunidade instalou-se em Nauvoo (Illinois, 1849), onde chegou a cerca de 500 membros, e sofreu cisões, Cabet foi destituído da presidência em 1855 e morreu no ano seguinte. Comunidades icarianas sobreviveram em Iowa até 1898 14.

Outros nomes frequentemente incluídos no período são Flora Tristan, que em A União Operária (1843) propôs uma associação de todos os trabalhadores e ligou a emancipação das mulheres à dos operários; Pierre Leroux; Louis Blanc, com sua proposta de "ateliês sociais" (ver Cooperativismo); e Philippe Buchez, socialista cristão defensor de associações de produção. Pierre-Joseph Proudhon, embora contemporâneo, costuma ser tratado à parte, como fundador do Anarquismo.

As comunidades experimentais: alcance e limites

Fatos documentadosAvaliação crítica

As comunidades inspiradas pelos primeiros socialistas, owenistas, fourieristas, icarianas, foram numerosas, sobretudo nos Estados Unidos, onde havia terra disponível e liberdade de associação. Quase todas duraram poucos anos. As causas apontadas variam conforme o caso: falta de capital, escolha ruim de terras, recrutamento heterogêneo, conflitos sobre trabalho e distribuição, disputas de liderança. A colônia icariana de Corning (Iowa), dissolvida em 1898 depois de quatro décadas, é citada como o experimento comunitário não religioso mais longo da história dos Estados Unidos 14.

O Manifesto de 1848 sublinhava que a realização desses planos dependia da filantropia burguesa 1. Críticos de outras tradições tiraram conclusões opostas das mesmas experiências: o jornalista Joshua Muravchik, crítico do socialismo, argumentou que Owen e Fourier eram os verdadeiros "socialistas científicos", porque testaram suas ideias na prática, e elas falharam 15. Já historiadores do movimento operário destacam que a principal herança dessas experiências não está nas colônias, mas no que elas deixaram ao associativismo, ao cooperativismo e à imaginação política.

A classificação "utópico": Marx, Engels e a crítica histórica

Documento de épocaFormulação teóricaDebate em aberto

O rótulo foi fixado por Marx e Engels, que não o inventaram: segundo o filósofo Roger Paden, a expressão já circulava em outros autores, que a aplicavam indistintamente a Saint-Simon, Fourier e Owen, apesar das diferenças entre eles 16.

O Manifesto (1848): "socialismo e comunismo crítico-utópicos"

Documento de época

No capítulo III do Manifesto, os sistemas de Saint-Simon, Fourier e Owen aparecem como produtos de um período em que a luta entre burguesia e proletariado ainda estava pouco desenvolvida. Seus autores percebiam o antagonismo de classes, mas não viam no proletariado uma atividade histórica autônoma; procuravam uma "ciência social" e apelavam à sociedade inteira, inclusive à classe dominante. Por isso recusavam a ação política e revolucionária e buscavam a transformação por pequenas experiências 1.

O Manifesto reconhecia o valor crítico dessas obras, elas atacavam os fundamentos da sociedade existente e forneciam material para esclarecer os trabalhadores, e enumerava propostas suas como a abolição da oposição entre cidade e campo, do trabalho assalariado e do lucro privado. Mas acusava os discípulos de formar seitas reacionárias: os owenistas na Inglaterra opunham-se aos cartistas, os fourieristas na França aos reformistas 1.

Engels (1880): da razão às condições materiais

Documento de épocaFormulação teórica

Em Do socialismo utópico ao socialismo científico, três capítulos extraídos do Anti-Dühring e publicados em francês em 1880, Engels deu a forma mais conhecida à distinção 2. Os "utópicos" teriam tentado derivar a nova sociedade da razão e do cérebro de indivíduos geniais, porque o capitalismo e o proletariado ainda eram pouco desenvolvidos em sua época; daí o recurso à propaganda e aos experimentos-modelo, e o fato de que, quanto mais detalhados eram seus planos, mais resvalavam para a fantasia. O socialismo "científico", ao contrário, derivaria da análise do modo de produção capitalista e da luta de classes, graças ao materialismo histórico e à teoria da mais-valia 2.

Engels não desprezava os utópicos: falava das "ideias e germes de ideias" grandiosos que continham 2, e o socialismo alemão reconhecia neles seus antecessores. Ver Do socialismo utópico ao socialismo científico e Materialismo histórico.

A crítica historiográfica do rótulo

Interpretação historiográficaDebate em aberto

Desde a segunda metade do século XX, historiadores do pensamento político contestam a dicotomia:

  • Rótulo de combate. "Utópico" foi usado por socialistas posteriores, de forma pejorativa, para desqualificar projetos tidos como fantasiosos 15. Agrupar Saint-Simon (tecnocrata, sem abolição da propriedade), Fourier (associação com capital e desigualdade de rendimentos) e Owen (comunidades e cooperativas) sob o mesmo nome apaga diferenças grandes 16.
  • Narrativa teleológica. Para Gregory Claeys, a historiografia do socialismo costuma dividir, de forma tendenciosa, o movimento numa fase "utópica" inicial e numa fase científica posterior; ele propõe abandonar a distinção e sustenta que o próprio Marx foi utópico em vários sentidos, ao projetar o futuro distante, ao supor que o comportamento humano mudaria com o fim da propriedade privada e o Estado se extinguiria, e ao imaginar um mundo em que as máquinas fariam a maior parte do trabalho e as pessoas se desenvolveriam no tempo livre, visão que, segundo ele, ecoa Owen 3.
  • Utopia como função. Outros autores, em diversas tradições, defendem um papel positivo para o pensamento utópico, como crítica do presente e exploração de possibilidades, sem que isso implique ignorar as condições materiais.

Defensores da distinção respondem que ela não é uma condenação moral, mas uma tese sobre método: um projeto socialista deve partir das tendências reais da sociedade e de um sujeito social capaz de realizá-lo. O debate continua, e esta enciclopédia usa "socialismo utópico" como nome histórico consagrado, sempre entre a ressalva de que se trata de uma classificação retrospectiva e não de autodenominação.

Legado e comparação com correntes vizinhas

Interpretação historiográficaExplicação conceitual

Os primeiros socialistas deixaram ao movimento posterior ideias e práticas que sobreviveram ao rótulo: a crítica da concorrência e do individualismo econômico; a ideia de associação e de cooperação (base do Cooperativismo e, mais tarde, da economia solidária); o planejamento e a administração racional da produção (Saint-Simon); a crítica da família patriarcal e a defesa da emancipação das mulheres (Fourier, Owenistas, Flora Tristan); a educação como instrumento de transformação social (Owen); a experimentação comunitária e a "prefiguração" da sociedade futura, retomada por anarquistas e por movimentos do século XX.

A tabela abaixo resume as diferenças com correntes próximas. Trata-se de simplificação didática; as classificações se sobrepõem.

Ecos no Brasil

Fatos documentados

As ideias de Fourier circularam no Brasil imperial: o médico francês Benoît Jules Mure fundou nos anos 1840, em Santa Catarina, o Falanstério do Saí, experiência de curta duração frequentemente citada pela historiografia como a primeira tentativa fourierista no país. Os detalhes (datas, número de colonos, desfecho) não foram conferidos em fonte aberta nesta redação e devem ser verificados antes da revisão. No fim do século XIX, a Colônia Cecília (Paraná, 1890–1894), organizada pelo italiano Giovanni Rossi, já se inscreve na tradição anarquista 17 (ver Anarquismo).

Comparações

Tabelas resumem tendências gerais; cada linha simplifica debates que o texto detalha. Classificações sobrepostas não são exclusivas.

Primeiros socialismos e correntes vizinhas (simplificação)
CritérioPrimeiros socialistas ("utópicos")Comunismo revolucionário pré-1848 (Babeuf, Blanqui, Cabet)Marx e EngelsAnarquismo (Proudhon, Bakunin)
Sujeito da mudançasociedade em geral; filantropos esclarecidosminoria conspirativa ou povo insurgente (Cabet: propaganda pacífica)proletariado organizadotrabalhadores e camponeses associados
Meioexemplo, comunidades-modelo, propagandainsurreição (Babeuf, Blanqui); colônias (Cabet)luta de classes, organização política, revoluçãoação direta, associação, federação
Propriedadevaria: de reforma (Saint-Simon) a comunidade de bens (Owen tardio)comunidade de benspropriedade social dos meios de produçãoposse associada; mutualismo ou coletivismo
Estado e políticarecusa da política; administração racionalconquista do poderEstado de transição, depois extinçãorecusa do Estado

Quadro didático. Cabet se dizia comunista e foi pacifista; o enquadramento de cada autor é discutido. Fontes: Manifesto do Partido Comunista, cap. III: Literatura socialista e comunista, Socialism: Utopian and Scientific, cap. 1.

Citações

Cada citação traz o grau de confirmação: frase famosa sem fonte localizada não é tratada como autêntica.

  • Tradução de texto localizado
    “Rejeitam, por isso, toda a acção política, nomeadamente toda a acção revolucionária.”

    Marx e Engels, Manifesto do Partido Comunista (1848), cap. III, sobre os socialistas e comunistas crítico-utópicos. Tradução portuguesa das Edições Avante!, transcrita no Arquivo Marxista na Internet.

    Fonte: Manifesto do Partido Comunista, cap. III: Literatura socialista e comunista

  • Paráfrase
    “Quanto mais completamente elaborados em detalhe, mais inevitavelmente resvalavam para a pura fantasia.”

    the more completely they were worked out in detail, the more they could not avoid drifting off into pure phantasies

    Engels, Socialism: Utopian and Scientific, cap. 1 (versão inglesa no MIA), sobre os sistemas utópicos.

    Tradução livre da redação a partir da versão inglesa; conferir em edição brasileira antes de publicar como citação.

    Fonte: Socialism: Utopian and Scientific, cap. 1

Cronologia

  1. 1516

    Thomas More publica Utopia (antecedente literário).4

  2. 10 de maio de 1796

    Prisão de Babeuf; desarticulação da Conspiração dos Iguais.6

  3. 27 de maio de 1797

    Execução de Babeuf e Darthé.6

  4. janeiro de 1800

    Owen assume a direção de New Lanark.9

  5. 1808

    Fourier publica anonimamente a Teoria dos quatro movimentos.11

  6. 1813

    Owen publica Uma nova visão da sociedade.9

  7. 1825

    Morte de Saint-Simon; Owen funda New Harmony (Indiana).9

  8. abril de 1827

    Dissolução de New Harmony.9

  9. 1828

    Buonarroti publica o livro sobre a Conspiração dos Iguais.6

  10. 1832

    Pierre Leroux afirma ter usado "socialismo" em Le Globe.7

  11. 1839 (data disputada)

    Cabet publica Viagem a Icária.14

  12. fevereiro de 1848

    Publicação do Manifesto, com a crítica ao socialismo crítico-utópico; icarianos partem para os EUA.1

  13. 1880

    Engels publica Do socialismo utópico ao socialismo científico (em francês).2

  14. 1898

    Dissolução da última colônia icariana (Corning, Iowa).14

Bibliografia comentada

  • Friedrich Engels. Socialism: Utopian and Scientific, cap. 1 (1880)

    O texto que consagrou a distinção 'utópico × científico'; útil também pelo retrato respeitoso de Saint-Simon, Fourier e Owen.

  • Karl Marx e Friedrich Engels. Manifesto do Partido Comunista, cap. III: Literatura socialista e comunista (1848)

    A primeira crítica sistemática de Marx e Engels aos 'crítico-utópicos', em poucas páginas.

  • Gregory Claeys (entrevistado por Ophélie Siméon). From Marx to Marxism: Histories of an Idea (2018)

    Síntese acessível da crítica historiográfica à dicotomia, por um especialista em Owen e no pensamento utópico.

  • Jonathan Beecher. Charles Fourier: The Visionary and His World (1986)

    Biografia intelectual de referência de Fourier.

  • E. P. Thompson. The Making of the English Working Class (1963)

    Clássico sobre a formação da classe trabalhadora inglesa, contexto indispensável do owenismo.

  • Barbara Taylor. Eve and the New Jerusalem: Socialism and Feminism in the Nineteenth Century (1983)

    Estudo sobre socialismo owenista e feminismo, que recupera a participação das mulheres no primeiro socialismo.

Fontes

“Consultada” indica que o endereço foi aberto na data informada. “Referência bibliográfica” indica obra citada sem conferência de página nesta versão.

  1. 1Karl Marx e Friedrich Engels. Manifesto do Partido Comunista, cap. III: Literatura socialista e comunista. Arquivo Marxista na Internet (tradução das Edições Avante!), 1848.[Fonte primária · consultada em 19 de outubro de 2026]
  2. 2Friedrich Engels. Socialism: Utopian and Scientific, cap. 1. Marxists Internet Archive, 1880.[Fonte primária · consultada em 19 de outubro de 2026]Versão inglesa; citações em português são tradução livre da redação.
  3. 3Gregory Claeys (entrevistado por Ophélie Siméon). From Marx to Marxism: Histories of an Idea. Books & Ideas (La Vie des idées), 7 maio 2018, 2018.[Historiografia · consultada em 19 de outubro de 2026]Entrevista sobre o livro Marx and Marxism (Penguin, 2018).
  4. 4Thomas More. Utopia. 1516.[Fonte primária · referência bibliográfica]
  5. 5Frank E. Manuel e Fritzie P. Manuel. Utopian Thought in the Western World. Harvard University Press, 1979.[Historiografia · referência bibliográfica]Não consultada nesta redação; referência geral para a tradição utópica (Campanella, Bacon, Morelly). Datas dessas obras a conferir.
  6. 6Conspiracy of the Equals (verbete). Wikipedia, em inglês.[Obra de referência · consultada em 19 de outubro de 2026]
  7. 7Socialism (verbete), seções de etimologia e origens. Wikipedia, em inglês.[Obra de referência · consultada em 19 de outubro de 2026]
  8. 8E. P. Thompson. The Making of the English Working Class. Victor Gollancz, Londres, 1963.[Historiografia · referência bibliográfica]Não consultada nesta redação; tradução brasileira: A formação da classe operária inglesa (Paz e Terra).
  9. 9Robert Owen (verbete). Wikipedia, em inglês.[Obra de referência · consultada em 19 de outubro de 2026]
  10. 10Henri de Saint-Simon (verbete). Wikipedia, em inglês.[Obra de referência · consultada em 19 de outubro de 2026]
  11. 11Charles Fourier (verbete). Wikipedia, em inglês.[Obra de referência · consultada em 19 de outubro de 2026]
  12. 12Jonathan Beecher. Charles Fourier: The Visionary and His World. University of California Press, 1986.[Historiografia · referência bibliográfica]Não consultada nesta redação.
  13. 13Barbara Taylor. Eve and the New Jerusalem: Socialism and Feminism in the Nineteenth Century. Virago, Londres, 1983.[Historiografia · referência bibliográfica]Não consultada nesta redação.
  14. 14Étienne Cabet (verbete). Wikipedia, em inglês.[Obra de referência · consultada em 19 de outubro de 2026]
  15. 15Utopian socialism (verbete). Wikipedia, em inglês.[Obra de referência · consultada em 19 de outubro de 2026]Orientação geral; conferir nas fontes citadas pelo verbete.
  16. 16Roger Paden. Marx's Critique of the Utopian Socialists. 2002.[Historiografia · referência bibliográfica]Artigo localizado via busca (cópia em libcom.org); não aberto integralmente. Usado apenas para a origem do termo, conforme trecho exibido pelo buscador, conferir.
  17. 17Anarquismo no Brasil (verbete). Wikipédia, em português.[Obra de referência · consultada em 19 de outubro de 2026]

Rede de relações

Ligações documentadas com tipo, período e fonte. Verbetes ainda planejados aparecem tracejados e sem link.

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Geradas a partir deste verbete. Cada peça leva o endereço do verbete, onde ficam as fontes e o contexto.

Histórico e revisão

Estado
Publicado
Autoria
Redação UP (assistida por IA)
Criado em
19 de outubro de 2026
Atualizado em
19 de outubro de 2026
Extensão
3.092 palavras · 17 fontes
Revisão humana
Tiago Moura Cesar do Nascimento
  1. 20 de outubro de 2026 · revisao editorialRevisão e publicação no Exército Lula.Tiago Moura Cesar do Nascimento
  2. 19 de outubro de 2026 · redacaoRedação inicial. Abertos nesta sessão: Manifesto cap. III (MIA-pt), Engels, Socialism: Utopian and Scientific cap. 1 (MIA-en), entrevista de G. Claeys (Books & Ideas) e verbetes da Wikipedia (orientação). Pendentes: conferir o artigo de R. Paden (não aberto); confirmar datas do Instituto para a Formação do Caráter (1816 ou 1818); conferir em fonte especializada o Falanstério do Saí (SC) e as datas de Campanella, Bacon e Morelly; obras de Thompson, Beecher, Taylor e Manuel não consultadas.Redação assistida por IA (Claude), sem revisão humana

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Como citar: Socialismo utópico. In: Enciclopédia do Exército Lula. Versão de 20 de outubro de 2026. Disponível em: https://exercitolula.com.br/enciclopedia/socialismo-utopico.

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