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Materialismo histórico

Concepção da história formulada por Marx e Engels, segundo a qual a produção da vida material condiciona, em última instância, a vida social, política e intelectual. O termo foi difundido por Engels; suas interpretações variam muito.

Também: Concepção materialista da história · Historischer Materialismus · Histomat

Índice e ficha

Materialismo histórico é o nome dado à concepção da história desenvolvida por Karl Marx e Friedrich Engels a partir de meados da década de 1840. Em sua formulação mais conhecida, no Prefácio de 1859, a maneira como os seres humanos produzem sua vida material, as forças produtivas e as relações de produção, forma a base sobre a qual se erguem as instituições jurídicas e políticas e as formas de consciência social 1.

Marx falava em "concepção materialista da história"; a expressão "materialismo histórico" foi difundida por Engels 2. Desde então, o conceito foi lido como teoria científica da história, como método de investigação, como filosofia determinista ou como guia para a ação política, e cada uma dessas leituras tem defensores e críticos.

Origem: A ideologia alemã e o Prefácio de 1859

Fatos documentadosFormulação teórica

A primeira elaboração ampla aparece nos manuscritos de A ideologia alemã (1845–46), escritos por Marx e Engels em Bruxelas e não publicados em vida 3. Contra os jovens hegelianos, que explicavam a história pelas ideias, os autores partem dos indivíduos reais, de sua atividade e de suas condições materiais de vida.

A síntese mais citada está no Prefácio de Para a crítica da economia política (janeiro de 1859). Ali, Marx afirma que, na produção social de sua vida, os homens contraem relações de produção que correspondem a um grau de desenvolvimento de suas forças produtivas; o conjunto dessas relações forma a estrutura econômica da sociedade, base real sobre a qual se ergue uma superestrutura jurídica e política. Em certo estágio, as forças produtivas entram em contradição com as relações de produção, que se transformam em seus entraves, e abre-se uma época de revolução social 1. A Stanford Encyclopedia observa que esse texto adquiriu "status canônico" 3.

Conceitos centrais

Formulação teórica
  • Forças produtivas: meios de produção (instrumentos, máquinas, terra) e a força de trabalho humana, com seus conhecimentos e habilidades.
  • Relações de produção: relações entre as pessoas na produção, especialmente as de propriedade e controle dos meios de produção e do produto.
  • Base (ou estrutura) e superestrutura: a estrutura econômica, formada pelas relações de produção, e as instituições jurídicas e políticas e formas de consciência que a ela correspondem 3.
  • Modos de produção: no Prefácio de 1859, Marx menciona os modos de produção asiático, antigo, feudal e burguês moderno como épocas progressivas da formação econômica da sociedade 1.
  • Luta de classes: no Manifesto, a história de todas as sociedades até então é apresentada como história de lutas de classes; a SEP observa que o Prefácio de 1859 não menciona explicitamente a luta de classes, embora haja referências implícitas 3.

O termo e o papel de Engels

Fatos documentados

Na introdução à edição inglesa de Do socialismo utópico ao socialismo científico (1892), Engels declara que usa o termo "materialismo histórico" para designar a visão do curso da história que busca as causas últimas dos acontecimentos no desenvolvimento econômico da sociedade 2. No discurso junto ao túmulo de Marx (1883), resumiu a ideia dizendo que a humanidade precisa primeiro comer, beber, ter abrigo e roupa antes de fazer política, ciência, arte e religião 4.

Nas cartas dos anos 1890, Engels procurou afastar leituras mecanicistas: o fator determinante é, "em última instância", a produção e reprodução da vida real, e nem ele nem Marx afirmaram mais do que isso; os elementos da superestrutura também influem no curso das lutas históricas 5. Queixou-se ainda de que a concepção materialista servia a muitos como pretexto para não estudar história 6.

Relação com o materialismo dialético e o "diamat" soviético

Fatos documentadosInterpretação historiográfica

A expressão materialismo dialético não foi usada por Marx nem por Engels; segundo Z. A. Jordan, foi introduzida por G. V. Plekhanov em 1891 e usada em letra impressa por Lênin em 1894 7. Engels falava em "materialismo moderno" e, no Anti-Dühring e na Dialética da natureza, aplicou leis dialéticas também à natureza.

Na União Soviética, consolidou-se uma divisão doutrinária: o materialismo dialético ("diamat") como visão de mundo geral, e o materialismo histórico ("histomat") como sua aplicação à sociedade. O texto "Sobre o materialismo dialético e o materialismo histórico", publicado por Stálin em setembro de 1938, definiu o materialismo dialético como a visão de mundo do partido marxista-leninista e tornou-se a formulação canônica nos países de regime soviético 8 (ver Marxismo-leninismo e Stalinismo). Muitos marxistas posteriores rejeitaram essa sistematização como dogmática.

Debates

Debate em abertoInterpretação historiográfica

Determinismo e "marxismo vulgar". Uma questão recorrente é se a base econômica determina mecanicamente a superestrutura. Plekhanov, em sua obra de 1895 sobre a concepção monista da história, deu formulação influente à primazia do econômico, admitindo a influência recíproca dos fatores 9. O rótulo "marxismo vulgar" passou a designar versões que reduzem política, direito e cultura a reflexo direto da economia, crítica já presente nas cartas de Engels 5.

Gramsci. Nos Cadernos do cárcere, Antonio Gramsci tratou o marxismo como "filosofia da práxis" e destacou o papel da cultura, dos intelectuais e da Hegemonia na reprodução do poder de classe, criticando o economicismo 10.

Althusser. Louis Althusser propôs ler a história como "processo sem sujeito", com a economia determinante "em última instância" e a superestrutura dotada de autonomia relativa; criticou leituras humanistas do jovem Marx 11.

E. P. Thompson. O historiador britânico, autor de A formação da classe operária inglesa 12, defendeu que a classe é um processo histórico e uma experiência, não uma posição estrutural; em The Poverty of Theory (1978) atacou o estruturalismo althusseriano 13.

Cohen e o marxismo analítico. G. A. Cohen reconstruiu a teoria com uma "tese do desenvolvimento" (as forças produtivas tendem a crescer) e uma "tese da primazia" (o nível das forças explica as relações de produção, e estas a superestrutura), por meio de explicações funcionais. Críticos como Jon Elster questionaram se isso supõe um propósito na história; Cohen comparou o raciocínio às explicações funcionais da biologia evolutiva 3 14.

O modo de produção asiático. A menção ao modo de produção "asiático" no Prefácio de 1859 1 gerou longa controvérsia: a ortodoxia soviética dos anos 1930 tendeu a substituir esse conceito por um esquema de cinco estágios (comunismo primitivo, escravismo, feudalismo, capitalismo, socialismo); Karl Wittfogel usou-o em 1957 para explicar o "despotismo oriental" e, por extensão, criticar a URSS 15; outros autores (como Kevin Anderson) leem nos escritos tardios de Marx uma visão multilinear da história 16. O debate permanece em aberto.

Aplicações e leituras recomendadas

Interpretação historiográfica

O materialismo histórico orientou trabalhos de historiografia social (como os de E. P. Thompson), análises da formação de sociedades coloniais e periféricas, caso dos Sete ensaios de Mariátegui, e programas políticos de partidos comunistas e socialistas. Também foi fortemente contestado por correntes que recusam a primazia do econômico ou a ideia de leis históricas, como na crítica de Karl Popper ao historicismo 17.

Leituras para começar: o Prefácio de 1859 1; as cartas de Engels de 1890 5; o verbete da Stanford Encyclopedia 3; e, para o debate, Cohen 14 e Thompson 13.

Citações

Cada citação traz o grau de confirmação: frase famosa sem fonte localizada não é tratada como autêntica.

Fontes

“Consultada” indica que o endereço foi aberto na data informada. “Referência bibliográfica” indica obra citada sem conferência de página nesta versão.

  1. 1Karl Marx. Prefácio de Para a Crítica da Economia Política (Londres, janeiro de 1859), tradução de José Barata-Moura. Arquivo Marxista na Internet (a partir de Obras Escolhidas em três tomos, Avante!/Progresso, 1982).[Fonte primária · consultada em 19 de outubro de 2026]
  2. 2Friedrich Engels. Introdução à edição inglesa de Do socialismo utópico ao socialismo científico (1892), em inglês. 1892.[Fonte primária · consultada em 19 de outubro de 2026]
  3. 3Jonathan Wolff; David Leopold. Karl Marx. Stanford Encyclopedia of Philosophy, 2003 (revisão substantiva de 2025).[Obra de referência · consultada em 19 de outubro de 2026]
  4. 4Friedrich Engels. Discurso junto ao túmulo de Karl Marx (Highgate, 17 de março de 1883). 1883.[Fonte primária · consultada em 19 de outubro de 2026]
  5. 5Friedrich Engels. Carta a Joseph Bloch, Londres, 21 de setembro de 1890. 1890.[Fonte primária · consultada em 19 de outubro de 2026]
  6. 6Friedrich Engels. Carta a Conrad Schmidt, Londres, 5 de agosto de 1890. 1890.[Fonte primária · consultada em 19 de outubro de 2026]
  7. 7Z. A. Jordan. The Origins of Dialectical Materialism (cap. de The Evolution of Dialectical Materialism). Macmillan (reproduzido em Marx Myths and Legends, MIA), 1967.[Historiografia · consultada em 19 de outubro de 2026]
  8. 8J. V. Stálin. Dialectical and Historical Materialism (setembro de 1938). 1938.[Fonte primária · consultada em 19 de outubro de 2026]
  9. 9G. V. Plekhanov. Sobre o desenvolvimento da concepção monista da história. 1895.[Fonte primária · referência bibliográfica]
  10. 10Antonio Gramsci. Cadernos do cárcere (Quaderni del carcere), escritos entre 1929 e 1935.[Fonte primária · referência bibliográfica]
  11. 11Louis Althusser. Pour Marx; e, com outros, Lire le Capital. 1965.[Fonte primária · referência bibliográfica]
  12. 12E. P. Thompson. The Making of the English Working Class. 1963.[Historiografia · referência bibliográfica]
  13. 13E. P. Thompson. The Poverty of Theory. 1978.[Historiografia · referência bibliográfica]
  14. 14G. A. Cohen. Karl Marx's Theory of History: A Defence. 1978.[Historiografia · referência bibliográfica]
  15. 15Karl A. Wittfogel. Oriental Despotism: A Comparative Study of Total Power. 1957.[Historiografia · referência bibliográfica]
  16. 16Kevin B. Anderson. Marx at the Margins: On Nationalism, Ethnicity, and Non-Western Societies. 2010.[Historiografia · referência bibliográfica]
  17. 17Karl Popper. The Open Society and Its Enemies. 1945.[Historiografia · referência bibliográfica]

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Histórico e revisão

Estado
Publicado
Autoria
Redação UP, rascunho assistido por IA
Criado em
19 de outubro de 2026
Atualizado em
19 de outubro de 2026
Extensão
1.110 palavras · 17 fontes
Revisão humana
Tiago Moura Cesar do Nascimento
  1. 20 de outubro de 2026 · revisao editorialRevisão e publicação no Exército Lula.Tiago Moura Cesar do Nascimento
  2. 19 de outubro de 2026 · redacaoRedação a partir do Prefácio de 1859 (MIA-pt), SEP, cartas de Engels, introdução de 1892, Jordan e Stálin (1938). Pendências: Plekhanov, Gramsci, Althusser, Thompson, Cohen e Wittfogel resumidos de referência, sem consulta; esquema soviético de cinco estágios e uso de Elster sem fonte primária consultada; conferir a afirmação de Jordan sobre Plekhanov (há quem aponte usos anteriores do termo).Redação assistida por IA (Claude), sem revisão humana

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Como citar: Materialismo histórico. In: Enciclopédia do Exército Lula. Versão de 20 de outubro de 2026. Disponível em: https://exercitolula.com.br/enciclopedia/materialismo-historico.

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