Mais-valia
Na teoria de Marx, o valor que o trabalhador assalariado produz além do valor da sua própria força de trabalho, apropriado pelo capitalista. Conceito central de O Capital e objeto de debates teóricos até hoje.
Também: Mais-valor · Mehrwert · Surplus value · Plusvalía
Índice e ficha
- Área
- Socialismo e comunismo
- Regiões
- Internacional, América Latina, Brasil
- Temas
- Teoria e conceitos, Economia e organização social, Movimento operário e sindical
Mais-valia (em alemão, Mehrwert; traduções recentes preferem mais-valor) é, na teoria de Karl Marx, a diferença entre o valor que o trabalhador assalariado cria durante a jornada de trabalho e o valor da sua força de trabalho, pago na forma de salário. Para Marx, essa diferença é a fonte do lucro, dos juros e da renda da terra 1 2.
O conceito depende da teoria do valor-trabalho e, por isso, é aceito, reformulado ou rejeitado conforme a escola econômica. Este verbete apresenta a formulação de Marx e os principais usos e críticas, sem tratar nenhuma das definições disputadas como consenso.
Definição em Marx
No Livro I de O Capital, Marx parte da ideia de que o valor das mercadorias é determinado pelo tempo de trabalho socialmente necessário para produzi-las. O capitalista compra a força de trabalho (a capacidade de trabalhar) pelo seu valor, equivalente ao valor dos meios de subsistência necessários para reproduzi-la. Durante a jornada, porém, o trabalhador produz mais valor do que esse equivalente.
A jornada divide-se, assim, em tempo de trabalho necessário, em que o trabalhador reproduz o valor da sua força de trabalho, e tempo de trabalho excedente, em que cria mais-valia para o capitalista sem criar valor para si 2. A troca entre capital e trabalho é, juridicamente, uma troca de equivalentes; a exploração, para Marx, não resulta de fraude, mas da própria forma da relação salarial.
Marx distingue o capital constante (c), gasto em meios de produção, cujo valor é apenas transferido ao produto, e o capital variável (v), gasto em força de trabalho, o único que, segundo ele, cria valor novo. A taxa de mais-valia é a razão m/v (ou s/v na notação inglesa), que Marx chama de expressão exata do grau de exploração da força de trabalho pelo capital 2.
Mais-valia absoluta e relativa
- Mais-valia absoluta: obtida pelo prolongamento da jornada de trabalho além do tempo necessário (seção III do Livro I, que inclui o capítulo sobre a jornada de trabalho e as lutas pela sua limitação legal) 3.
- Mais-valia relativa: obtida pela redução do tempo de trabalho necessário, graças ao aumento da produtividade nos ramos que produzem bens de consumo dos trabalhadores, cooperação, divisão manufatureira do trabalho, maquinaria e grande indústria (seção IV) 3.
Marx também trata da intensificação do trabalho e analisa o salário (seção VI) como forma que oculta a divisão entre trabalho pago e não pago. No Livro III, a mais-valia aparece transformada em lucro, repartida entre capitais pela taxa média de lucro e dividida em lucro industrial, comercial, juros e renda da terra 4.
Origem e precursores
A ideia de que o trabalho é a fonte do valor vem da economia política clássica, especialmente de Adam Smith e David Ricardo 5. Nas décadas de 1820 e 1830, os chamados socialistas ricardianos ingleses, como Thomas Hodgskin 6 e William Thompson, concluíram que, se o trabalho produz o valor, o lucro seria uma dedução do produto do trabalho.
Marx dedicou a essa história os manuscritos publicados como Teorias da mais-valia 7. Sua contribuição própria, segundo a leitura corrente, foi distinguir trabalho e força de trabalho e explicar a mais-valia sem supor violação da troca de equivalentes. Engels, no discurso no túmulo de Marx, apresentou a descoberta da mais-valia como uma das duas grandes contribuições do amigo 8, avaliação de um colaborador próximo, não juízo neutro.
Usos por diferentes autores e correntes
Marxismo clássico. Na Segunda e na Terceira Internacionais, a mais-valia foi tratada como fundamento da teoria da exploração e da luta de classes; Hilferding defendeu o conceito contra Böhm-Bawerk 9.
Sraffa e os neorricardianos. A partir de Production of Commodities by Means of Commodities, de Piero Sraffa 10, economistas como Ian Steedman mostraram que preços e taxa de lucro podem ser determinados diretamente a partir das condições técnicas e do salário real, sem passar por valores-trabalho; para eles, a categoria de valor é redundante, embora a ideia de um excedente apropriado continue válida 11.
Marxismo analítico. John Roemer reformulou a exploração como questão de distribuição desigual dos ativos produtivos, demonstrando modelos em que há exploração sem mercado de trabalho e argumentando que o critério normativo relevante é a desigualdade na propriedade 12.
"Nova interpretação" e TSSI. Gérard Duménil e Duncan Foley propuseram definir o valor do dinheiro e o valor da força de trabalho a partir do produto líquido, preservando as igualdades agregadas entre valores e preços 13 14. A interpretação temporal de sistema único (Andrew Kliman e outros) sustenta que, lidos no tempo, os argumentos de Marx são coerentes 15.
David Harvey. Em The Limits to Capital (1982) e em seus guias de leitura, Harvey articula a produção de mais-valia com a circulação, o crédito e a produção do espaço urbano 16 17.
Leituras da forma-valor. A "nova leitura de Marx" (Michael Heinrich, entre outros) enfatiza que o valor só se realiza na troca e critica leituras que o tratam como quantidade de trabalho mensurável diretamente 18.
Críticas e respostas
Teoria subjetiva do valor. A partir da revolução marginalista dos anos 1870, a economia dominante passou a explicar preços pela utilidade marginal e pela escassez, e o juro e o lucro pela produtividade do capital ou pela preferência temporal. Eugen von Böhm-Bawerk, da escola austríaca, sustentou em 1896 que a teoria do valor de Marx entra em contradição consigo mesma no Livro III 19; Hilferding respondeu que Böhm-Bawerk ignorava o caráter social do valor 9.
Exploração sem valor-trabalho? A Stanford Encyclopedia observa que, para críticos como Robert Nozick, se a teoria do valor-trabalho falhar, a teoria da exploração de Marx cai com ela; outros autores (como Roemer) tentaram reformular a ideia de exploração em bases independentes 1 12.
Respostas. Defensores do conceito argumentam que a mais-valia não pretende explicar preços individuais, e sim a origem social do excedente e a dinâmica da acumulação; e que os problemas formais (transformação, queda da taxa de lucro) admitem soluções (ver O Capital). O debate segue em aberto na economia política.
Desdobramento latino-americano: a superexploração (Ruy Mauro Marini)
O economista brasileiro Ruy Mauro Marini (1932–1997), exilado após o golpe de 1964, desenvolveu na Dialéctica de la dependencia (Cidade do México, Era, 1973) o conceito de superexploração do trabalho, tratado no capítulo 3 do livro 20. Segundo a apresentação da própria edição, a América Latina teria realizado sua acumulação por meio de uma acumulação fundada na superexploração do trabalhador, o que ajudaria a explicar que o eixo da acumulação nos países centrais se deslocasse da mais-valia absoluta para a relativa 20.
Na síntese de Roberta Traspadini e Marisa Amaral, Marini caracterizou a superexploração por três mecanismos, aumento da intensidade do trabalho, prolongamento da jornada e apropriação, pelo capitalista, de parte do fundo de consumo do trabalhador (isto é, pagamento da força de trabalho abaixo do seu valor), como compensação, no capitalismo dependente, das transferências de valor para os países centrais por comércio desigual, juros, dívidas e remessas de lucro 21. As autoras distinguem esse sentido do uso de "superexploração" como simples grau elevado de exploração.
A tese foi criticada, entre outros, por Fernando Henrique Cardoso e José Serra, em texto de 1978 22, e é retomada hoje pela teoria marxista da dependência. A discussão sobre se a superexploração é traço estrutural da periferia ou tendência geral do capitalismo é um debate em aberto.
Leituras recomendadas
Citações
Cada citação traz o grau de confirmação: frase famosa sem fonte localizada não é tratada como autêntica.
- Tradução de texto localizado
“uma expressão exata do grau de exploração da força de trabalho pelo capital”
Definição da taxa de mais-valia, O Capital, Livro I, seção III (cap. 9 na edição inglesa; cap. 7 nas alemãs).
Tradução da redação a partir da versão inglesa de 1887.
Fontes
“Consultada” indica que o endereço foi aberto na data informada. “Referência bibliográfica” indica obra citada sem conferência de página nesta versão.
- 1Jonathan Wolff; David Leopold. Karl Marx. Stanford Encyclopedia of Philosophy, 2003 (revisão substantiva de 2025).[Obra de referência · consultada em 19 de outubro de 2026]
- 2Karl Marx. O Capital, Livro I, seção III, "A taxa de mais-valia" (cap. 9 na edição inglesa; cap. 7 nas edições alemãs).[Fonte primária · consultada em 19 de outubro de 2026]
- 3Karl Marx. Capital, Volume I (índice; tradução de Samuel Moore e Edward Aveling, ed. por Engels, 1887). Marx/Engels Internet Archive.[Fonte primária · consultada em 19 de outubro de 2026]Numeração de capítulos da edição inglesa (33 capítulos), que difere da alemã.
- 4Karl Marx (ed. Friedrich Engels). Capital, Volume III, The Process of Capitalist Production as a Whole (índice). Marx/Engels Internet Archive.[Fonte primária · consultada em 19 de outubro de 2026]
- 5David Ricardo. On the Principles of Political Economy and Taxation. 1817.[Fonte primária · referência bibliográfica]
- 6Thomas Hodgskin. Labour Defended against the Claims of Capital. 1825.[Fonte primária · referência bibliográfica]
- 7Karl Marx. Theories of Surplus Value ("Volume IV of Capital"), índice. Marx/Engels Internet Archive.[Fonte primária · consultada em 19 de outubro de 2026]
- 8Friedrich Engels. Discurso junto ao túmulo de Karl Marx (Highgate, 17 de março de 1883). 1883.[Fonte primária · consultada em 19 de outubro de 2026]
- 9Rudolf Hilferding. Böhm-Bawerk's Criticism of Marx (prefácio, tradução inglesa no MIA). 1904.[Fonte primária · consultada em 19 de outubro de 2026]
- 10Piero Sraffa. Production of Commodities by Means of Commodities. Cambridge University Press, 1960.[Fonte primária · referência bibliográfica]
- 11Ian Steedman. Marx after Sraffa. 1977.[Historiografia · referência bibliográfica]
- 12John E. Roemer. A General Theory of Exploitation and Class. 1982.[Historiografia · referência bibliográfica]
- 13Gérard Duménil. De la valeur aux prix de production. 1980.[Historiografia · referência bibliográfica]
- 14Duncan K. Foley. The Value of Money, the Value of Labor Power, and the Net Product. Review of Radical Political Economics, 1982.[Historiografia · referência bibliográfica]
- 15Andrew Kliman. Reclaiming Marx's "Capital": A Refutation of the Myth of Inconsistency. 2007.[Historiografia · referência bibliográfica]
- 16David Harvey. The Limits to Capital. 1982.[Historiografia · referência bibliográfica]
- 17David Harvey. A Companion to Marx's Capital (em português: Para entender O Capital). 2010.[Historiografia · referência bibliográfica]
- 18Michael Heinrich. An Introduction to the Three Volumes of Karl Marx's Capital. 2012.[Historiografia · referência bibliográfica]
- 19Eugen von Böhm-Bawerk. Zum Abschluss des Marxschen Systems (em inglês: Karl Marx and the Close of His System). 1896.[Fonte primária · referência bibliográfica]
- 20Ruy Mauro Marini. Dialéctica de la dependencia. Ediciones Era (Cidade do México); arquivo digital mantido pela UNAM, 1973.[Fonte primária · consultada em 19 de outubro de 2026]Só a parte inicial (folha de rosto, colofão, 1ª ed. 1973, 2ª ed. 1974, e índice, com o cap. 3 "La superexplotación del trabajo") foi lida; o corpo do capítulo não foi conferido.
- 21Roberta Traspadini; Marisa Amaral. A superexploração e seus dois sentidos. Outras Palavras (9 de dezembro de 2020), 2020.[Historiografia · consultada em 19 de outubro de 2026]
- 22Fernando Henrique Cardoso; José Serra. As desventuras da dialética da dependência. 1978.[Historiografia · referência bibliográfica]
Rede de relações
Ligações documentadas com tipo, período e fonte. Verbetes ainda planejados aparecem tracejados e sem link.
relacionado a
- Karl MarxPessoaFormulado por Marx. Fonte: Discurso junto ao túmulo de Karl Marx (Highgate, 17 de março de 1883)
- Valor (verbete planejado)Conceito
- Luta de classes (verbete planejado)Conceito
- Ruy Mauro Marini (verbete planejado)PessoaConceito derivado: superexploração do trabalho. Fonte: Dialéctica de la dependencia
- Materialismo históricoConceito
- CapitalismoConceito
- Coeficiente de GiniPergunta e guia
- Economia política clássicaEscola econômicaFonte: Teorias da mais-valia (manuscritos de 1861–1863, publicados por Kautsky em 1905–1910) (no verbete Economia política clássica)
- LucroConceitoFonte: O Capital, Livro III, cap. 13, "The Law As Such" (lei da queda tendencial da taxa de lucro) (no verbete Lucro)
- Participação dos salários na rendaPergunta e guiaRelação entre taxa de mais-valia e razão lucros/salários.
- Trabalho assalariadoConceito
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Histórico e revisão
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- Publicado
- Autoria
- Redação UP, rascunho assistido por IA
- Criado em
- 19 de outubro de 2026
- Atualizado em
- 19 de outubro de 2026
- Extensão
- 1.226 palavras · 22 fontes
- Revisão humana
- Tiago Moura Cesar do Nascimento
- 20 de outubro de 2026 · revisao editorialRevisão e publicação no Exército Lula.Tiago Moura Cesar do Nascimento
- 19 de outubro de 2026 · redacaoRedação a partir de O Capital (MIA), SEP, Hilferding, folha de rosto de Marini (UNAM) e Traspadini/Amaral. Pendências: o corpo do cap. 3 de Marini não foi lido; William Thompson citado sem fonte; datas de Marini (1932–1997) sem fonte consultada; obras de Sraffa, Steedman, Roemer, Duménil, Foley, Kliman, Harvey e Cardoso/Serra não consultadas; conferir resumo de cada posição com especialista.Redação assistida por IA (Claude), sem revisão humana
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Como citar: Mais-valia. In: Enciclopédia do Exército Lula. Versão de 20 de outubro de 2026. Disponível em: https://exercitolula.com.br/enciclopedia/mais-valia.
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