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Trotskismo

Corrente marxista derivada das ideias e da oposição de Leon Trotsky

Corrente marxista que se reivindica de Leon Trotsky: teoria da revolução permanente, crítica à burocracia soviética e ao socialismo num só país, e a Quarta Internacional (1938), depois dividida em numerosas organizações.

Também: trotsquismo · bolchevismo-leninismo · Trotskyism

Índice e ficha

Trotskismo é o nome dado às correntes que se reivindicam das ideias de Leon Trotsky (1879–1940), dirigente da Revolução de Outubro e organizador do Exército Vermelho que, a partir de 1923, encabeçou a oposição à direção do partido soviético e foi derrotado, expulso e exilado. Seus partidários preferiam chamar-se "bolcheviques-leninistas"; "trotskismo" foi, de início, um termo usado pelos adversários.

A corrente caracteriza-se por três ideias principais: a revolução permanente (contra a revolução por etapas e contra o socialismo num só país), a crítica da burocracia que teria se apossado do Estado soviético, e a necessidade de uma nova Internacional, fundada em 1938 como Quarta Internacional. Depois da morte de Trotsky, o movimento se dividiu em muitas organizações, com presença relevante na América Latina e no Brasil.

Origem: a Oposição de Esquerda (1923–1929)

Fatos documentados

Em 1923, Trotsky e seus apoiadores organizaram-se como Oposição de Esquerda no Partido Comunista da URSS, criticando a burocratização do partido, a falta de democracia interna e a política econômica da direção 1. A disputa se acirrou depois da morte de Lenin (1924): a direção formada por Stalin, Zinoviev e Kamenev combateu o "trotskismo"; em 1926–1927, Zinoviev e Kamenev uniram-se a Trotsky na Oposição Unificada, derrotada. Trotsky foi expulso do partido em 1927, deportado para Alma-Ata em 1928 e expulso da URSS em 1929, iniciando o exílio na Turquia 1.

Em 1930 formou-se a Oposição de Esquerda Internacional, inicialmente como fração que pretendia reformar a Internacional Comunista por dentro 1. Depois da vitória de Hitler na Alemanha (1933), que os trotskistas atribuíram em parte à política do Partido Comunista Alemão de tratar a social-democracia como "social-fascismo", Trotsky concluiu que a Internacional Comunista não podia mais ser reformada e passou a defender uma nova Internacional 1.

A revolução permanente

Formulação teórica

A teoria da revolução permanente foi esboçada por Trotsky em Balanço e perspectivas (1906), a partir da revolução russa de 1905, e sistematizada em A revolução permanente (1930) 2. Em resumo:

  • Nos países de desenvolvimento capitalista atrasado, a burguesia nacional é fraca e dependente demais para realizar as tarefas "democrático-burguesas" (reforma agrária, independência nacional, democracia política). Essas tarefas só podem ser cumpridas pela classe operária no poder, apoiada no campesinato.
  • Uma vez no poder, a classe operária não pode se limitar a essas tarefas: a revolução passa "sem interrupção" às medidas socialistas.
  • A revolução socialista não pode se completar no quadro nacional: ela precisa se estender internacionalmente, sob pena de isolamento e degeneração.

A teoria opunha-se a duas teses: a da revolução por etapas (primeiro democrático-burguesa, depois socialista), defendida pelos mencheviques e, mais tarde, pela política da Internacional Comunista para países coloniais e semicoloniais; e a do socialismo num só país, adotada pela direção soviética a partir de 1924–1926. Para os marxistas-leninistas, ao contrário, a teoria subestimava o campesinato e a possibilidade de construir o socialismo na URSS.

Crítica da burocracia: "A revolução traída" (1936)

Formulação teóricaDocumento de época

Em A revolução traída (escrito em 1936, publicado em 1937; subtítulo "O que é e para onde vai a União Soviética?") 3, Trotsky descreveu a URSS como um Estado operário degenerado: a propriedade estatal dos meios de produção e o planejamento, conquistas da revolução, haviam sido preservados, mas o poder político fora usurpado por uma burocracia privilegiada. Ele chamou esse processo de "Termidor soviético", em analogia com a reação de 1794 na Revolução Francesa (título do capítulo V) 3.

Daí a posição característica do trotskismo clássico: defesa incondicional da URSS contra o imperialismo e, ao mesmo tempo, defesa de uma revolução política que derrubasse a burocracia sem restaurar o capitalismo. O livro também discute o crescimento da desigualdade, a família, a juventude, a cultura, a política externa e a Constituição de 1936, e tem um apêndice dedicado ao "socialismo num só país" 3.

A Quarta Internacional e o Programa de Transição (1938)

Fatos documentadosDocumento de época

A conferência de fundação da Quarta Internacional reuniu-se em 3 de setembro de 1938, nos arredores de Paris, na casa de Alfred Rosmer, com cerca de 30 delegados de 11 países 1. Aprovou o documento redigido por Trotsky, "A agonia mortal do capitalismo e as tarefas da Quarta Internacional", conhecido como Programa de Transição, publicado antes no Boletim da Oposição (maio–junho de 1938) como texto de discussão 4 1.

O programa propunha reivindicações transitórias, escala móvel de salários e de horas de trabalho, controle operário, comitês de fábrica, milícias operárias, expropriação de setores da economia, que partiriam das necessidades imediatas para levar à questão do poder, superando a separação social-democrata entre "programa mínimo" e "programa máximo". Sua tese de abertura atribuía a crise da humanidade à crise da direção revolucionária do proletariado.

Em 20 de agosto de 1940, Trotsky foi atacado em sua casa em Coyoacán, na Cidade do México, por Ramón Mercader, agente do NKVD soviético, com uma picareta de alpinismo; morreu no dia seguinte, 21 de agosto 5. O assassinato encerrou uma série de mortes de trotskistas e de familiares de Trotsky nos anos 1930.

Cisões e principais tendências

Fatos documentadosPosição de outras organizações e correntes

Depois da guerra, o movimento trotskista viveu sucessivas cisões, motivadas sobretudo por divergências sobre a natureza dos novos Estados do Leste europeu, da China, da Iugoslávia e de Cuba, e sobre a tática em relação aos grandes partidos operários.

  • Pablismo e a cisão de 1953. O III Congresso Mundial (1951) caracterizou os novos regimes do Leste como "Estados operários deformados" e aprovou a tática de entrismo sui generis nos partidos comunistas e social-democratas, defendida por Michel Pablo (Michel Raptis) 1. Os opositores formaram em novembro de 1953 o Comitê Internacional da Quarta Internacional (CIQI) 1. Em 1963, parte das duas alas se reunificou no Secretariado Unificado (SU), no qual Ernest Mandel teve papel destacado 1.
  • Lambertismo. Corrente ligada ao francês Pierre Lambert e à Organização Comunista Internacionalista (OCI), conhecida pela ênfase na frente única operária e no trabalho sindical. No Brasil, inspirou a OSI e a tendência Liberdade e Luta (ver abaixo).
  • Morenismo. Corrente do argentino Nahuel Moreno (1924–1987). Depois de uma breve unificação com os lambertistas, rompida em 1981, os morenistas formaram a Liga Internacional dos Trabalhadores – Quarta Internacional (LIT-QI) 6.
  • Posadismo. Corrente do argentino J. Posadas, que rompeu com o Secretariado em 1962 1 e se tornou conhecida por teses heterodoxas.
  • Cliff e o "capitalismo de Estado". Tony Cliff (Yigael Glückstein, 1917–2000) rompeu com a caracterização da URSS como Estado operário e a descreveu como capitalismo de Estado em The Nature of Stalinist Russia (1948) e Stalinist Russia: A Marxist Analysis (1955). Fundou no Reino Unido o Socialist Review Group (1950), depois International Socialists (1962) e Socialist Workers Party (1977), núcleo da Tendência Socialista Internacional 7. Muitos trotskistas não consideram essa corrente plenamente trotskista, justamente pela ruptura com a análise de Trotsky.
  • Outras tendências incluem a de Ted Grant (Militant, no Reino Unido) e o "coletivismo burocrático" de Max Shachtman, que rompeu com Trotsky em 1940 1.

América Latina e Brasil

Fatos documentados

Na América Latina o trotskismo teve peso relativamente maior que em outras regiões. Na Bolívia, o Partido Operário Revolucionário (POR) teve influência no movimento mineiro em torno da revolução de 1952; na Argentina, as correntes de Moreno e de Posadas tornaram-se matrizes internacionais.

No Brasil, a trajetória começa com o crítico de arte e militante Mário Pedrosa, que, de volta ao país, organizou em 1929 o Grupo Comunista Lenine; em 21 de janeiro de 1931 foi fundada a Liga Comunista (Oposição de Esquerda), que em outubro de 1933 passou a chamar-se Liga Comunista Internacionalista (LCI); outros nomes da primeira geração foram Lívio Xavier e Aristides Lobo 8. Seguiram-se o Partido Operário Leninista (1937) e o Partido Socialista Revolucionário (1939) 8. Pedrosa, que esteve em Paris na fundação da Quarta Internacional, rompeu depois com o trotskismo e foi, em 1980, um dos fundadores do PT.

Na segunda metade do século XX:

  • POR(T), Partido Operário Revolucionário (Trotskista), fundado em novembro de 1952, aderiu à corrente posadista em 1962 8.
  • Liberdade e Luta ("Libelu"), tendência estudantil surgida em 1976, ligada à Organização Socialista Internacionalista (OSI), formada em novembro de 1976, de orientação lambertista; o jornal O Trabalho começou a circular em 1º de maio de 1978, e o nome depois foi adotado pela organização 8.
  • Convergência Socialista, criada como movimento em março de 1978, de orientação morenista 8; participou da formação do PT e, depois de expulsa, deu origem ao PSTU (1994) 6.
  • A partir de 1979, dissidentes da OSI formaram a corrente que publicava o jornal Causa Operária, origem do PCO 8. Correntes ligadas ao Secretariado Unificado atuaram no PT e, depois, no PSOL.

Datas de fundação de PSTU e PCO, e a filiação internacional atual de cada organização, devem ser conferidas em fontes próprias dos partidos e em historiografia especializada antes da publicação.

Críticas de outras correntes

Posição de outras organizações e correntesDebate em aberto
  • Marxistas-leninistas veem no trotskismo uma corrente divisionista, que teria subestimado o campesinato, negado a possibilidade do socialismo na URSS e enfraquecido a frente antifascista. Nos anos 1930, a propaganda soviética foi muito além disso, acusando trotskistas de espionagem e sabotagem nos Processos de Moscou, acusações que a historiografia, inclusive a soviética depois de 1956 e sobretudo a partir de 1988, considera fabricadas, com reabilitações oficiais de vários condenados.
  • Maoistas retomam a crítica marxista-leninista e acrescentam a discordância sobre o papel do campesinato na revolução em países agrários.
  • Social-democratas e liberais apontam que Trotsky, no poder, defendeu a militarização do trabalho, a repressão a Kronstadt (1921) e o partido único, e que sua crítica à burocracia não questionou o monopólio político bolchevique. Isaac Deutscher, biógrafo simpatizante, também discutiu essas contradições em sua trilogia 9.
  • Anarquistas recordam a repressão de 1921 e a atuação de Trotsky contra o movimento de Makhno.
  • Conselhistas e defensores do "capitalismo de Estado" criticam a caracterização da URSS como Estado operário.
  • Críticas internas acusam a tradição trotskista de propensão a cisões e de pouca implantação de massas; seus defensores respondem que sua sobrevivência foi resultado da perseguição simultânea de stalinistas, fascistas e governos liberais.

Biografias recentes divergem muito sobre Trotsky: a de Robert Service (2009) é fortemente crítica e foi contestada por outros historiadores; a trilogia de Deutscher (1954–1963) é simpatizante 9 10.

Quadro comparativo: trotskismo e correntes vizinhas

Formulação teóricaPosição de outras organizações e correntes

| Aspecto | Trotskismo | Marxismo-leninismo | Luxemburguismo / conselhismo | |---|---|---|---| | Origem | Oposição de Esquerda, 1923 | sistematização sob Stalin, a partir de 1924 | Luxemburgo (1898–1919); esquerda comunista alemã e holandesa | | Autores | Trotsky; Mandel, Moreno, Lambert, Cliff (heterodoxo) | Lenin, Stalin, depois Mao, Ho, Hoxha | Luxemburgo; Pannekoek, Gorter | | Revolução | permanente, internacional | por etapas nos países coloniais; socialismo num só país possível | ênfase na espontaneidade e na ação de massas | | URSS | Estado operário degenerado | Estado socialista | crítica ao partido-Estado; para alguns, capitalismo de Estado | | Partido | de vanguarda, centralismo democrático com direito a tendências | de vanguarda, centralismo democrático, sem frações | partido como expressão da classe; conselhos | | Organizações | Quarta Internacional e suas cisões | PCUS, Comintern, partidos comunistas | Liga Spartakus, KPD inicial; grupos conselhistas | | Críticas que recebe | divisionismo, subestimação do campesinato | burocratização, repressão | espontaneísmo, pouca eficácia organizativa |

O quadro simplifica: há trotskistas que reivindicam Luxemburgo e marxistas-leninistas que criticam aspectos do período stalinista.

Citações

Cada citação traz o grau de confirmação: frase famosa sem fonte localizada não é tratada como autêntica.

Fontes

“Consultada” indica que o endereço foi aberto na data informada. “Referência bibliográfica” indica obra citada sem conferência de página nesta versão.

  1. 1Fourth International (verbete). Wikipedia, em inglês.[Obra de referência · consultada em 19 de outubro de 2026]Orientação para cronologia; conferir em historiografia.
  2. 2Leon Trotsky. A revolução permanente. 1930.[Fonte primária · referência bibliográfica]Balanço e perspectivas é de 1906. Não consultados nesta redação.
  3. 3Leon Trotsky. The Revolution Betrayed: What Is the Soviet Union and Where Is It Going?. Marxists Internet Archive (trad. Max Eastman, 1937), 1936.[Fonte primária · consultada em 19 de outubro de 2026]
  4. 4Leon Trotsky. The Death Agony of Capitalism and the Tasks of the Fourth International (The Transitional Program). Marxists Internet Archive, 1938.[Fonte primária · consultada em 19 de outubro de 2026]Página de índice consultada; corpo do texto não aberto.
  5. 5Assassination of Leon Trotsky (verbete). Wikipedia, em inglês.[Obra de referência · consultada em 19 de outubro de 2026]
  6. 6Nahuel Moreno (verbete). Wikipedia, em inglês.[Obra de referência · consultada em 19 de outubro de 2026]
  7. 7Tony Cliff (verbete). Wikipedia, em inglês.[Obra de referência · consultada em 19 de outubro de 2026]
  8. 8Trotskismo no Brasil (verbete). Wikipédia, em português.[Obra de referência · consultada em 19 de outubro de 2026]Datas de organizações brasileiras; conferir em Dainis Karepovs, Fulvio Abramo e outros estudos especializados.
  9. 9Isaac Deutscher. O profeta armado; O profeta desarmado; O profeta banido (trilogia biográfica). 1954–1963.[Historiografia · referência bibliográfica]Não consultada nesta redação.
  10. 10Robert Service. Trotsky: A Biography. 2009.[Historiografia · referência bibliográfica]Não consultada; a contestação por outros historiadores deve ser documentada com resenhas específicas.

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Histórico e revisão

Estado
Publicado
Autoria
Redação UP, rascunho assistido por IA
Criado em
19 de outubro de 2026
Atualizado em
19 de outubro de 2026
Extensão
1.829 palavras · 10 fontes
Revisão humana
Tiago Moura Cesar do Nascimento
  1. 20 de outubro de 2026 · revisao editorialRevisão e publicação no Exército Lula.Tiago Moura Cesar do Nascimento
  2. 19 de outubro de 2026 · redacaoRedação inicial. Conferidos em fonte aberta: índices de A revolução traída e do Programa de Transição (MIA); Wikipedia (Quarta Internacional, assassinato de Trotsky, Moreno, Cliff) e Wikipédia em português (Trotskismo no Brasil) como orientação. Pendentes: datas de expulsão (1927), Alma-Ata (1928) e exílio (1929) em fonte primária ou biografia; papel de Mário Pedrosa em 1938; lambertismo e posadismo sem fonte especializada aberta; fundação de PSTU e PCO; POR boliviano; Processos de Moscou e reabilitações; resenhas críticas de Service. Deutscher e Service não consultados.Redação assistida por IA (Claude), sem revisão humana

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Como citar: Trotskismo. In: Enciclopédia do Exército Lula. Versão de 20 de outubro de 2026. Disponível em: https://exercitolula.com.br/enciclopedia/trotskismo.

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